BRASIL
Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009, 00h:13
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LULA
Oposição e CNBB criticam declaração
O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Dimas Lara Barbosa, rebateu a declaração do presidente Lula sobre a necessidade de fazer alianças
CAROL PIRES
Da Agência Estado Brasília
A afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que, "se Jesus Cristo fosse governante do Brasil, teria de fazer coalizão com Judas", foi duramente criticada pela oposição. "A declaração de Lula é uma ofensa grave aos aliados", disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgilio (AM), que levantou a questão: "quem é Jesus? Ele? Não é demais ele se comparar a Cristo?" A polêmica acontece dois dias após o jantar que selou a adesão do PMDB à candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão presidencial. Maior aliado do governo Lula, o partido tem as maiores bancadas da Câmara, com 92 deputados, e do Senado, com 17 parlamentares, além de presidir as duas Casas do Congresso e comandar seis ministérios. Pré-candidata do PV à Presidência, a senadora Marina Silva (AC) questionou a aliança entre PT e PMDB. Para a ex-ministra do Meio Ambiente de Lula, o compromisso entre os dois partidos "consolida a visão de política que não se alinha de forma programática, mas pragmática". Ela criticou o presidente, dizendo que "já está fazendo campanha, sim, e há muito tempo". O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, avalia que a alta popularidade de Lula, aferida em pesquisas, o fez "perder o senso de realidade", chegando ao "cúmulo de justificar suas alianças escusas colocando Jesus e Judas em conluio". A entrevista na qual Lula diz que Jesus teria de se aliar a Judas foi publicada ontem no jornal "Folha de S Paulo". "Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do Oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão", disse Lula, ao defender suas atuais alianças políticas. "Jesus se aliar a Judas para fazer política soa como uma blasfêmia", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, após evento sobre pré-sal no instituto que leva seu nome. "Não foi isso que a gente aprendeu na escola, nas aulas de religião". O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) considera que, ao fazer essa analogia, Lula "defende a promiscuidade". Para o tucano, "a empáfia do presidente está pior". "Ele mostra cada vez mais vocação autoritária. Despreza a questão ética e defende a promiscuidade que levou o partido dele a responder pelo mensalão É pagar um preço muito elevado. Ele mostra, ao dizer isso, que não tem projeto de País, só projeto de poder". O vice-líder do governo no Senado, Gim Argello (PTB-DF), defendeu o presidente Lula, afirmando que ele "deu uma aula" sobre a política brasileira: "Lula falou o que é a realidade do País". Argello, que também é líder do PTB, partido aliado ao governo, disse não ter se ofendido com a comparação do presidente usada para justificar suas alianças políticas. "O ideal é um presidente popular, bem avaliado, com credibilidade no Brasil e no mundo. Não sou PT, eu sou Lula - que é o animal político que mais conhece o sentimento do povo". Provável candidato do PSDB à Presidência, o governador de São Paulo, José Serra, foi irônico e enigmático ao comentar a entrevista de Lula. "Quem fala com Cristo pode perguntar a ele", riu, sobre a declaração do presidente referente às alianças no Congresso para obter governabilidade. "A entrevista mostra bem, de ponta a ponta, o que é o Lula na forma e no conteúdo. Nesse sentido, é uma entrevista bem interessante", concluiu, sem explicar a quais características do presidente estava fazendo referência. CNBB O secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Dimas Lara Barbosa, rebateu a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a necessidade de fazer alianças. Dom Dimas disse que, apesar de Judas ser um dos discípulos de Cristo, Jesus não fazia alianças com "fariseus" - numa referência a pessoas que parecem uma coisa por fora, mas por dentro são outra. O representante da CNBB ainda ironizou a declaração do presidente. "Para governar o Brasil? Estamos tão mal assim? Queria dizer que, sem dúvida Judas foi discípulo de Cristo, mas Cristo conhece o coração das pessoas e reconhece a liberdade de cada um. Cristo não fez alianças com fariseus. Pelo contrário, teve palavras duras para com eles. Deus conhece o coração das pessoas", afirmou. Questionado se os fariseus nesse caso poderiam ser representados pelo PMDB, dom Dimas disse que não avalia alianças políticas. (Colaboraram Silvia Amorim, Roberto Almeida e Andrea Vialli)