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BRASIL
Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007, 20h:57

VIOLÊNCIA

Foram jogar bola no Morro do Adeus e não voltaram

ROBERTA PENNAFORT e FELIPE WERNECK
Da Agência Estado – Rio
Maurício da Costa de Andrade passava por uma ótima fase. Aos 17 anos, estagiava havia um mês na Imprensa da Cidade, empresa responsável pelas publicações da Prefeitura. Dias atrás, chegou em casa feliz da vida, contando que tinha ganho uma sala com um computador só para ele. O jovem cursava a 7ª série e ainda tinha tempo para jogar futebol com os vizinhos, sempre no campinho da Vila do João. Sua sentença de morte, lamentam amigos e parentes, foi a escolha do campo do Morro do Adeus, "território" de traficantes de facção rival à que domina a Vila do João, para a pelada de quarta-feira. Maurício saiu de casa por volta das 18 horas. Já de joelheiras e com as chuteiras nas mãos, disse para a mãe que voltaria logo depois do jogo. Pegou uma Kombi com outros cinco rapazes. Sumiu e só foi achado no dia seguinte, morto e mutilado dentro de um carro. Ontem de manhã, no enterro, que levou 200 pessoas ao Cemitério do Caju, a mãe de Mauricio mal se agüentava em pé. C., de 37 anos, a irmã mais velha (eram sete, com Mauricio), ao contrário, manteve-se forte, amparou os parentes e assumiu o posto de porta-voz da família. Ela contou que o caçula era como um filho. "Amamentei esse menino. Ele nasceu quando eu tinha 20 anos. A dor que sinto hoje é dor de mãe. Ele tinha 17 anos, o que viveu?", indagou. "As pessoas acham que na favela só tem bandido, mas não é assim. Nós não somos. Só moro lá porque não tenho condições. Se pudesse moraria na zona sul, na beira da praia." No momento do sepultamento, C. chorou sua perda pela primeira vez. Enquanto jogava flores do caixão, entoava Cazuza, "o compositor que Mauricio amava": "Amor da minha vida/daqui até a eternidade/nossos destinos foram traçados na maternidade." À tarde, foram mais enterros no Caju. X., de 20 anos, não deixou a mãe chegar perto do corpo do irmão, Flaviano Felipe Conceição, de 14. "Esculacharam ele, mãe. Não vai não. Não dá. Foi muita covardia". Ele disse que o irmão morreu "só porque morava na Vila do João". "Ele só tinha 14 anos. É o meu bebê, é uma criança. Por que fizeram isso com ele?", lamentou a mãe. X. vestia uma camiseta dos Racionais MC's. Disse que o irmão trabalhava com reciclagem de latas. Segundo ele, Flaviano tinha saído de casa para jogar futebol. "Ele não tinha envolvimento com o tráfico." Cem pessoas acompanharam o cortejo. Além de Flaviano, foi enterrado à tarde André Luiz Santos, de 16 anos. A mãe dele chegou acompanhada por uma assistente social da prefeitura. "Ele foi jogar bola, disse que ia ficar na esquina um bocadinho." Ela não quis ver o corpo. "É muito triste. Eu entrego na mão de Deus."

Edição edição 16957




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