BRASIL
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008, 21h:13
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MENSALÃO
Dirceu diz que depoimentos negam seu envolvimento
CLARISSA OLIVEIRA e WILSON TOSTA
Da Agência Estado - São Paulo
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou ontem que os depoimentos prestados até agora no processo que investiga o mensalão negam seu envolvimento no caso. Segundo o deputado cassado, que responde às acusações de corrupção ativa e formação de quadrilha, os interrogatórios ajudam a demonstrar a motivação política por trás de seu afastamento do cargo de ministro e da cassação de seu mandato de deputado. "A sucessão de depoimentos à Justiça, vários por semana, dos réus do chamado 'mensalão' prova, dia a dia, que não cometi nenhum ato ilícito", afirmou Dirceu, em nota publicada em seu blog na internet (www.zedirceu.com.br). "Os depoimentos reafirmam a convicção que tenho e sempre transmiti: é político o processo em que me envolveram, com o propósito de me afastarem do cargo de ministro-chefe da Casa Civil e de me cassarem o mandato de deputado federal pelo que eu representava no governo do PT e do presidente Lula." Ao comentar o depoimento prestado anteontem à Justiça pelo também deputado cassado Roberto Jefferson, Dirceu apontou que o presidente do PTB recusou-se a acusá-lo diretamente. No interrogatório, Jefferson evitou comentar o envolvimento de Dirceu e de outros membros do governo no caso, sob o argumento de que falava como réu e não como testemunha. Em um ponto do depoimento, disse que Dirceu "era o ministro político do governo" e que "todos os acordos tinham a chancela dele". "Roberto Jefferson afirmou no depoimento, ontem, que eu era o ministro político do governo, que tratava comigo da aliança PTB-governo e que os acordos tinham a minha chancela. Também não fez referências associando-me ao chamado 'mensalão'", afirmou Dirceu, no blog. A mesma atitude, segundo o ex-ministro, marcou o depoimento de outros réus, entre eles o publicitário Marcos Valério. "Valério confirmou que nunca teve reuniões comigo para tratar dessa história de 'mensalão'", prosseguiu. Ao encerrar a nota, Dirceu voltou dizer que confia na Justiça e que aguarda "com serenidade" o julgamento do processo. BISPO RODRIGUES Denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no processo do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o mensalão, o ex-deputado Bispo Rodrigues usou ontem seu depoimento na ação, a que responde com outros 39 réus, para negar a existência do esquema e se queixar dos "sacrifícios" da vida parlamentar. Ele afirmou nunca ter ouvido falar da compra de votações na Câmara, confirmada na véspera pelo ex-deputado Roberto Jefferson, mas admitiu ter recebido do PT dinheiro para saldar dívidas da campanha de 2002. O ex-parlamentar negou, contudo, haver relação entre o recebimento e o apoio do PL, a que pertencia, ao governo federal nas votações das reformas tributária e previdenciária. Segundo ele, PT e PL já votavam juntos no governo anterior. "Meritíssimo, é uma questão até de matemática e também de astúcia política", disse Rodrigues ao juiz Erik Navarro Wolkart, substituto da 7.ª Vara Federal Criminal. "Se os partidos vêm há oito anos fazendo uma oposição acirrada, ferrenha, contra um modelo econômico, partidário, político, que eram o PSDB e o PFL, se viemos oito anos votando sempre, isso pode ser visto pelo Ministério Público e pela Justiça... Todas as votações que o PT votou, votamos igual. Era obrigatório nosso partido ter um parlamentar todo dia para falar mal do governo Fernando Henrique. Uma vez que a gente foi para o governo, iríamos vender votação? Por que não vendemos para outro? Nunca ouvi falar nisso." Rodrigues confirmou, contudo, ter recebido uma quantia em dinheiro, que o juiz afirmou ser R$ 150 mil, do motorista Célio Siqueira, que trabalhava para o deputado Wanderval Santos (PL-SP). O funcionário, afirmou, fez-lhe um favor ao ir à agência bancária fazer a retirada, repassada via Banco Rural pelo PT, em dezembro de 2003, por determinação do então tesoureiro petista, Delúbio Soares, ou do então presidente nacional do PL, Valdemar Costa Netto - o ex-deputado disse não se lembrar qual dos dois autorizou o saque.