Azul
Sábado, 02 de Junho de 2001, 12h:22
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VÍDEO
Decadência cheia de graça
Caubóis no Espaço chega às locadoras como garantia de diversão com a engraçada performance dos super-astros Clint Eastwood, Tommy Lee Jones, Donald Sutherland e James Garner
KLEBER MENDONÇA FILHO
Do site Cinemascópio
E a fábrica de filmes em Hollywood continua montando produtos calibrados para divertir e faturar. É essa a impressão que passa Cowboys do Espaço (Space Cowboys, EUA, 2000), de Clint Eastwood, lançada agora em vídeo, uma surpreendentemente engraçada aventura comercial que parece ter sido gerada por algum computador, em algum laboratório de marketing cinematográfico. E funciona muito bem como produto feito para faturar. Ainda de quebra, comenta de maneira leve e positiva o homem e a forma como ele lida com a velhice, a decadência. É uma das grandes atrações nas locadoras, neste início de junho. O argumento não é exatamente crível: meninos de ouro da aeronáutica pré-Nasa, nos anos 50, hoje aposentados, são treinados para uma importante missão de salvamento de um misterioso satélite russo, fruto da Guerra Fria. A Nasa escolhe quatro homens que já têm o direito adquirido de entrar pela porta da frente em coletivos porque um deles, Frank Corvin (Eastwood), foi o responsável pelo projeto da base que sustenta o satélite. Além disso, Frank quer chegar ao espaço, sempre quis. Ele guarda rancor da época de ouro em que seu grupo viu o sonho de tornarem-se astronautas pioneiros ser destruído por um comandante vilão, comandante este que tornou-se diretor da Nasa hoje, Bob Gerson (James Cromwell). Faíscas voam entre Frank e Bob no típico rancor macho de dentes trincados, marca registrada de Eastwood. O roteiro bem polido de Ken Kaufman e Howard Klausner mantém os insultos entre os dois apimentados ("Frank é um grande expert em tecnologia obsoleta", diz Bob). Os outros astronautas são Hawk (Tommy Lee Jones), o mais jovem, o gaiato mulherengo Jerry (Donald Sutherland) e o pastor batista Tank (James Garner). São uns senhores simpáticos, galantes e engraçados. Na verdade, Caubóis no Espaço foi vendido como algum tipo de "Aventura Espacial", mas caberia bem no rótulo "comédia". Pelo menos na sua primeira parte, é mais engraçado do que boa parte das supostas "comédias" lançadas como tal. É também verdade que a estrutura do filme lembra um cuidadoso "frankenstein" com peças avulsas de outros filmes. Do processo de localização e treinamento do quarteto que lembra Os Eleitos (1983) a Armaggedon (1998), à última parte que nos leva ao território de Apolo 13 (1996) ou mesmo Missão: Marte (2000), Caubóis no Espaço é entretenimento profissional, habitado por atores sérios que sabem o que estão fazendo, e que sentem-se à vontade com isso. Há algo de muito simpático em ver esses quatro anciões tentarem burlar testes físicos (o exame de vista de Sutherland, a centrífuga) e a própria decadência do corpo, idéia que o roteiro intensifica um tanto desnecessariamente até mesmo com o aparecimento de um câncer. Mesmo assim, essa abordagem do fator "action hero" num filme de sexagenários/septuagenários é realmente um deleite, num mundo do entretenimento que tem alimentado interesse cada vez maior por astros pop em fraldas. E se Caubóis do Espaço funciona perfeitamente ao longo da sua duração, há ainda uma seqüência de encerramento realmente especial, carregada de uma certa paz de espírito que conclui com felicidade um tema que o filme parecia estar usando apenas para fazer rir: a decadência física, o fim e a chegada da morte. É um final que nos lembra o quanto Eastwood continua sendo um diretor preocupado em realizar crônicas sobre si mesmo. Nada mais adequado, portanto, de que esse velho astro reaça de direita filme uma aventura militarizada envolvendo russos, mas com comentários lúcidos sobre o envelhecer e o morrer. Bravo!