Azul
Sábado, 02 de Junho de 2001, 12h:22
A
A
MÚSICA
Bob Dylan chega aos 60
Ele revolucionou a cultura do século 20 com suas canções, se envolveu com todo tipo de ideologias e religiões sem nunca deixar, no entanto, que sua música resvalasse para o panfletarismo e o proselitismo
ROBERTO MUGGIATI
Do Site No.
Não confie em ninguém com mais de 30 anos, era o lema da sua geração na época do Poder Jovem. Por este parâmetro, Bob Dylan seria duplamente inconfiável ao completar 60 anos neste 24 de maio. Mas não vivemos mais tempos tão radicais e é possível até, que no fundo da sua cabeça, Dylan tenha invertido o slogan: Não confie em ninguém com menos de 30 anos. Ainda não chegou a hora de um obituário precoce, o bardo estradeiro continua aí com a sua arte, mas o fato de que mudamos de século admite até uma avaliação mais distanciada. Não foi certamente com a voz anasalada, nem com a guitarra e a gaita de boca que Dylan revolucionou a cultura do século 20, e sim com suas canções e, mais do que tudo, com a sua poesia as palavras e as imagens que sempre jorraram da sua fértil criatividade. Os círculos literários mais acadêmicos ficaram horrorizados quando os críticos de uma coisa chamada rock começaram a colocar o nome de Dylan ao lado de poetas de terno-e-gravata como W.H. Auden, T. S. Eliot, Ezra Pound e a comparar o seu procedimento artístico ao stream of consciousness de James Joyce. Mas Robert Allen Zimmerman se definiu como poeta a partir da escolha do codinome, Dylan, de Dylan Thomas o grande poeta galês que, nos seus breves 39 anos, não foi exatamente uma figura querida do Establishment literário. E desde logo Bob Dylan foi colocando o dedo no nervo exposto da sociedade americana, a sociedade-padrão pela qual se pautavam todas as outras do mundo industrializado. But something is happening/ And you don´t know what it is/ Do you, Mr. Jones? (Alguma coisa está acontecendo/ E o senhor não sabe o que é/ Sabe, Sr. Silva?) advertia ele em Ballad of a Thin Man (1965), a descrição patética de um homem que leu todos os livros de F. Scott Fitzgerald, mas não sabe mais qual é o seu lugar num mundo estranho em mutação. Desde o começo, Dylan sabia onde queria chegar, Mas enfrentou alguns anos da adolescência, como o típico crazy mixed up kid o menino maluquinho, sem rumo. A canção Maggies Farm retrataria este dilema: Faço força para ser exatamente como sou, mas as pessoas querem que eu seja exatamente como elas. Igual ao herói rebelde de O Apanhador no Campo de Centeio, Dylan foge de casa aos 10, 12, 13, 15, 15 e meio, 17 e 18 anos. Fui apanhado e levado de volta todas as vezes, menos uma, a última. No começo de 1961, ele começou a perambular pelos cafés do Village e, nos intervalos, a visitar no hospital seu ídolo Woody Guthrie, aquele que tinha entalhado a canivete na sua guitarra a frase Isto é uma máquina de matar nazistas. Foi por aí que enveredou Bob Dylan. Como muitos garotos brancos dotados de espírito crítico, ele rejeitava a Sociedade de Consumo e o American Way of Life e, numa espécie de desencanto, assumia um estilo de vida pobre e despojado. Observando o mundo ao seu redor, lendo os jornais, vendo a TV, ele percebe que as coisas não eram assim tão maravilhosas como apregoavam. Aplicava-se a ele este raciocínio do líder negro Eldridge Cleaver: As novas gerações de brancos, chocadas com o registro sanguinário e vil talhado na face do globo por sua raça nos últimos quinhentos anos, estão rejeitando a galeria dos heróis brancos cujo heroísmo consistiu em erguer o inglório edifício do colonialismo. Dylan investe à sua maneira, com suas canções: não ligo para o que Bob Hope diz/ ele não vai com você a lugar nenhum / nem para a saúde de john wayne e sua luta contra o câncer/ mas vocês deviam só ver o pé dele/ esqueçam estes astros de Hollywood/ que vivem lhes dizendo o que fazer/ eles serão todos mortos pelos índios. Tocando e cantando sem maiores pretensões nas coffehouses do Village, Dylan começou a chamar a atenção e um artigo no New York Times levou John Hammond a contratá-lo o para a Columbia Hammond, o mesmo que descobriu Count Basie, Billie Holiday, Benny Goodman e lançaria depois Aretha Franklin e Bruce Springsteen. Depois de um primeiro álbum, tímido, com pouco material original raspando o tacho do folk e do blues Dylan, que a partir de 1962 lançaria um álbum por ano (às vezes dois), chegou às paradas com Blowin in the Wind, na interpretação de Peter, Paul & Mary, uma mensagem pacifista branda, feita para agradar todo mundo. Outra cover, Mr Tambourine Man, para o álbum de estréia de The Byrds, também estourou, numa vibrante versão eletrônica, que parecia apontar novos caminhos para Dylan. Sua resposta veio em 1965, com o rolo compressor de Like a Rolling Stone, canção-manifesto da sua geração, afirmando a total ruptura com os valores estabelecidos: How does it feel/ To be on your own/ With no direction home/ Like a complete unknown/ Like a rolling stone? (Algo como: Qual é a sensação/ de estar sozinho/ sem o rumo de casa/ um completo estranho/ uma pedra que rola?) com as rimas own-home unknown-stone. A virada do folk acústico para o folk-rock eletrônico provocaria uma reação violenta de muitos fãs. Num concerto, quando ele canta a versão eletrificada de Stone, ouve-se claramente um fã irado berrando Judas! Mas Dylan nunca fez concessões ao público e seguiu buscando o seu caminho, vivendo tantas fases como o pintor Picasso e o trompetista de jazz Miles Davis. Depois de um acidente de motocicleta que o imobilizou por alguns meses, ficou recluso na casa de Woodstock gravando fitas demo com The Band, que acabariam pirateadas e se tornariam lendárias com o nome de Basement Tapes. O álbum seguinte foi uma grande surpresa, John Wesley Harding (1967) um disco tranqüilo em atmosfera country . Uma obra-prima do álbum é All Along the Watchtower, favorita de Jimi Hendrix, que a gravou várias vezes. E a tendência country foi aprofundada no álbum de 1969, Nashville Skyline, gravado em Nashville com, entre outros, Johnny Cash. Muitos estranharam que num momento crucial da revolução na América, ele viesse com canções tão plácidas e rurais. O fato é que Dylan se envolveu com todo tipo de ideologias e religiões sem nunca deixar que sua música resvalasse para o panfletarismo e o proselitismo. Em 1969, uma ala radical do Students for a Democratic Society formou a organização clandestina Weatherman, nome tirado da canção de Dylan Subterranean Homesick Blues: You dont need a weatherman to know which way the wind is blowing. (Você não precisa de um meteorologista para saber de quer lado sopra o vento.) No início de 1971, o mesmo Weatherman homenageava Dylan dando o título de um novo disco seu, New Morning, a um documento político que recomendava métodos menos radicais, New Morning, Changing Weather. No final da década, Dylan surpreendia o mundo ao declarar sua adesão ao cristianismo fundamentalista, conversão que rendeu os álbuns Slow Train Coming, Saved e Shot of Love. No início dos anos 80, nova guinada: Dylan visita Israel e mostra simpatias para com o sionismo radical do rabino Meir Kahane. Todas estas idas e vindas espirituais não afetaram sua integridade musical. O poeta maior paira acima de tudo, como aquele da Travessa da Desolação, uma parábola do nosso próprio mundo: Todos tocam apitos de brinquedo/ Pode ouvi-los soprar/ Se inclinar a cabeça o bastante/ Para a Travessa da Desolação/ Onde adoráveis sereias flutuam/ E ninguém tem de pensar muito/ Sobre a Travessa da Desolação. Ou outra obra-prima, que desempenha papel crucial na trilha de Easy Rider, It´s Alright Ma (Im Only Bleeding): Darkness at the break of noon/ shadows even the silver spoon/ The handmade blade, the childs balloon/ Eclipses both the sun and moon/ To understand you know too soon/ There is no sense in trying. versos de uma musicalidade e urgência intraduzíveis. Às vezes, a politização exacerbada em torno de Dylan faz esquecer o grande autor de canções de amor, como Lay Lady Lay, The Girl of the North Country, If Not for You, Ill Be Your Baby Tonight e muitas outras, entre elas a bela e polêmica Just Like a Woman, execrada pelas feministas, que condenaram o seu paternalismo. Assim como na música, Dylan manteve uma coerência admirável no seu estilo de vida. Passou ao largo do maneirismo hippie (alguém o imaginaria com uma túnica indiana recitando um mantra de incenso na mão?) Ficou sempre fiel ao velho modelo beat: roupas pretas, botas de cowboy, unhas amareladas de nicotina, cannabis (LSD, nem pensar...), vinho barato (em seu primeiro encontro com os Beatles, instalados no luxuoso Hotel Plaza de NY, Dylan foi recebido com os melhores champanhes, vinhos, uisques e conhaques, mas exigiu vinho barato e um escravo foi mandado às pressas ao Bowery para comprar alguns garrafões.) Ao contrário dos nouveaux-riches do rock, Dylan nunca demonstrou o menor interesse pelos bens materiais. Assim descreveu ele uma visita à casa de Lennon: Deviam ver o que ele tinha comprado: carrões, um gorila empalhado e milhares de coisas espalhadas em cada quarto, deviam ter custado uma fortuna. Quando voltei aos Estados Unidos comecei a pensar qual seria a sensação de possuir todas aquelas coisas materiais. Eu tinha dinheiro para comprar tudo aquilo e fiquei curioso em saber o efeito que me causaria. Então comprei um montão de coisas, enchi minha casa e sentei-me bem no meio daquilo. Não senti nada. Aquilo não era real, não fazia parte da vida. Era apenas uma armadilha. E, completando: Eu decidi, desde cedo, que se desejava algo deveria sacrificar alguma coisa, ou uma porção de coisas. Não havia nada que eu quisesse dinheiro ou coisa parecida. Eu sabia que, o que quer que fizesse, teria de ser criativo. E assim vai seguindo o bardo fanhoso, com a voz ainda mais rouca e um pouco mais grave (ouçam seu último álbum, Time Out Of Mind), ao completar sessenta anos, sempre ligado mais do que tudo na música, ciente de que a morte não vem bater à sua porta, ela está lá de manhã quando você acorda. E tendo por disciplina de vida: Apenas tento entender que amanhã é um outro dia.