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Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ARTIGO
Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006, 20h:10

ONOFRE RIBEIRO

Violência não é mais caso de polícia (1)

Venho juntando conversas e retalhos de conversas para escrever alguns artigos abordando a questão da violência que atualmente campeia em Mato Grosso, e a sua relação com os serviços de segurança pública. Primeiro, alguns fatos: 1 - Na região da Serra de São Vicente, a 70 km de Cuiabá, presos albergados na Colônia Agrícola vêm assaltando, seqüestrando e agredindo moradores, com explícita proteção dos carcereiros da própria colônia, segundo relataram-me cinco expressivos moradores da região, e mais um cabo PM. Ali deveriam estar somente detentos sem perigo. Mas estão indo para lá delinqüentes e latrocidas; 2 - Na região do CPA, que abrange o 3° Batalhão da Polícia Militar, existem mais de 230 bocas de fumo devidamente catalogadas. Mas a PM considera melhor deixá-las funcionando e não prender os responsáveis, porque no outro dia uma outra se abrirá do lado. A concorrência é enorme já que o negócio é vantajoso. Uma boca antiga já está estabelecida, não gera tanta violência quanto a boca nova que abre espaços à bala: 3 - A desestruturação familiar nos bairros periféricos é crescente e se manifesta na forma de violência, como uma vertente de expressão da garotada. Seja na sala de aula onde cometem barbaridades, seja no pátio da escola, seja nos barzinhos, seja nas festinhas ou na rua. Em recente reunião no bairro Osmar Cabral, a polícia militar comunitária foi pressionada pelos dirigentes da comunidade a dar fim à grande violência praticada por um grupo conhecido de menores do bairro. No grupo de pressão estavam os pais de alguns dos garotos, que agiram para libertar os filhos todas as vezes em que eles foram presos. O comandante da PM, coronel Sales, disse-me há algum tempo que já foi procurado por mães desesperadas pedindo “pra dar um jeito no meu filho porque não agüento mais”; 4 - Se a família já não consegue educar os seus filhos, a questão piora a níveis extremos. Há dois fins de semana, três pessoas de classe média foram espancadas nas ruas por jovens de classe média em busca de diversão. Logo, não é só nas periferias que os pais não conseguem dominar os seus filhos; 5 - As escolas admitem que não conseguem lidar com os jovens além de um determinado nível de relação. Existe neles uma violência latente facilmente provocável; 6 - As igrejas também não conseguem alcançar mais do que pequenas quantidades de jovens que se aproximam dos movimentos sociais e religiosos; 7 - Na relação com os policiais, o clima é de extrema tensão. Os jovens das periferias não os temem e nem aceitam uma “ordem” vinda de fora das suas tribos e das suas regras. Viver é viver enquanto for possível. Parece haver um certo encantamento no risco de morrer pela causa do viver. Contraditório ao extremo, mas real. O assunto continua. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16958




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