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ARTIGO
Terça-feira, 18 de Agosto de 2009, 21h:21

ROBERTO B. DA S. SÁ

Tambores e grunhidos

Hoje, escreverei à lá Nostradamus; nada poderá ser comprovado. A indesejada das horas abraçar-nos-á antes. Sinta-se, pois, à vontade para nem ler este artigo. Contudo, se a curiosidade vencer, sinta-se à vontade para duvidar de tudo. Meu conforto é não estar mais sozinho nas reflexões que exporei; aliás, estou bem acompanhado, mas só direi por quem ao final: estratégia da escritura, mesmo não sendo original. Há meses, eu disse em sala de aula que se a humanidade – com destaque ao povo “macunaímico” – continuar seu percurso como vem fazendo, dentro de cinco a dez mil anos – caso a Terra resista à destruição pelas motosserras e outras armas ­– a comunicação entre os seres dar-se-á de forma idêntica à feita pelos nossos antepassados. Mas por que, hoje, tenho desoladora leitura do humano macunaímico do longínquo amanhã, no que se refere à comunicação? Pelas evidências deste tempo presente que, a mim, tem como um de seus marcos o breve enunciado – “Ai que preguiça!” – de Macunaíma, aquele “heroi sem nenhum caráter” de Mário de Andrade. Só pra lembrar, esse enunciado foi o primeiro a ser dito pela personagem que passou seis anos em total mudez; claro que depois desandou a tagarelar sem tréguas. Pois bem. A sustentação de minhas previsões linguísticas – ou melhor, “teorias linguísticas”, para ser acadêmico e, quiçá, ganhar pontos na decadente academia –baseia-se no que segue: 1ª) como nos expressamos; 2ª) o que ouvimos como música. Em meu penúltimo texto – “Carta Aberta ao Ministro da Educação” – expus gravíssimos problemas da escrita nos cursos de Letras. Pontuei o desastre com exemplos locais. Em breve, a comunicação escrita – já comprometida – estará destruída; afinal, não estudamos mais a língua padrão. Resultado: rumamos à incomunicabilidade na escrita. A supremacia da oralidade está provocando cortes bruscos demais com a escrita; e saber que, desde os primórdios, tentou-se superar a oralidade, registrando-a, inicialmente, por gravações rupestres. Antepassados entendiam melhor a importância da escrita à memória/descendência, própria do humano. Hoje, trilhamos o caminho inverso. Estamos desconstruindo a escrita. Ficaremos sem memória. Desumanizar-nos-emos. Os primeiros sinais dessa desconstrução surgem, paradoxal e, principalmente, na linguagem do computador: máquina, por princípio, fantástica. Todavia, ante a pressa e o culto ao fútil do contemporâneo, essa alta tecnologia tem expandido signos primários que visam a abreviar palavras e sentimentos. Ex: o riso ou vira sucessivos “rsrsrsrs” ou vários “kkkssss”; ou seja, sons guturais: típicos dos primatas. Outros exemplos de “simplificação” já ajudam a formar um dicionário específico. Nada contra a evolução das línguas, mas tudo contra o que vier a impedir a leitura, num futuro, de um São Bernardo, p. ex., ou de um Os Lusíadas etc. A ruptura com a escrita não tornará a espécie mais humana; ao contrário, leva-la-á ao império da onomatopéia, do gutural. A extensão do gutural também está presente num tipo de som do momento: o “pancadão” e variações. Respeitando os primatas que, com rica simbologia, tocavam tambores para a comunicação, o pancadão, também sustentado por alta tecnologia, é forte indício de retorno às nossas origens. Pior: joga-nos ao nada, ao vazio do conteúdo. Em meio a tantas e altas pancadas, raciocinar é proibido! A simplicidade e as repetidas e irritantes batidas acompanham a lógica da estrutura dos sons guturais. Involução! Agora posso dizer que quem se aproxima dessas minhas reflexões é José Saramago: um dos mais preciosos escritores/pensadores desta era das perdas. Ao Observatório da Imprensa, Ed. 548 (28/7/09), ele disse que “a tendência para o monossílabo, como forma de comunicação”, far-nos-á, “de degrau em degrau, descer até o grunhido”. Mesmo triste com a humanidade, fico feliz por ter dito isso – ainda que em público restrito – bem antes desse pensador. Não tenho dúvidas: estamos corretos. Sinto muito! Que os grunhidos não atraiam ainda mais a gripe da vez!!! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16958




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