ARTIGO
Terça-feira, 02 de Março de 2010, 21h:36
A
A
NATACHA WOGEL
Sacrifício honrado
A angústia diária que começa assim que os olhos se abrem, cedo pela manhã, sobre as diversas facetas que a mulher tem de assumir ao longo do dia, não passa com o tempo. Pelo contrário, acredito que ela só piora. Quando se tem o primeiro filho, a trabalhadora, arrimo de família, costuma ouvir: no segundo, é mais tranquilo, você vai ver. E vem o segundo filho e, com ele, todas as angústias anteriores, além da culpa de ter colocado mais um ser na Terra sem a devida condição de lhe oferecer todo tempo, dedicação e desprendimento suficientes para que cresça saudável, inteligente e seja bem-sucedido na vida. Ah, os desafios de ser mulher! Às vezes me pego tendo vontade de viver como minhas avós viveram, rodeada da família, tendo como única preocupação o andamento do lar, dos filhos, dos cuidados com o marido. Isso, não porque duvide da minha capacidade de conciliar tarefas domésticas, trabalho competente, dedicação aos filhos e muito amor pra dar ao meu companheiro. Mas porque cansa. Nossa! Como cansa ser brava, forte, positiva, resistente às mazelas... Enfim, estar nos papéis de educar, alimentar corpo e espírito -, sustentar, levar e buscar, explicar os porquês não é brincadeira. Mas a gente aguenta. A gente aguenta porque se não for assim, como promover a evolução social, a evolução da raça humana inclusive, ou alguém ainda discorda de que, não fosse a capacidade de inserção feminina em tantos postos no mercado de trabalho, nas mais variadas funções, em tantos segmentos da sociedade organizada, a trabalho ou não, seria possível o desenvolvimento veloz em que o mundo caminha hoje? Isso se dá porque, antes de trabalhadoras competentes, dedicadas, sagazes, as mulheres são a imagem da compreensão, da abnegação, da superação e por que não, da sensibilidade, do amor, do carinho e da amizade. Falo por mim, estou me achando. A luta é diária, o cansaço, infinito. Mas vale a pena cada noite sem dormir, cada dia de preocupação e desafios quando o retorno é o reconhecimento estampado nos sorrisos dos filhos, no olhar complacente da cara-metade, no carinhoso retorno de familiares e até na pouca expressiva, mas perceptível, aprovação patronal. Dia 8 de março, símbolo da persistência, do sofrimento e da vitória femininos, não pode, não tem que passar em branco. Mulher, em respeito aos sacrifícios, todas as honras a nós nesse dia! * NATACHA WOGEL, editora de Cidades