Cuiabá é administrada pelas exceções. Se a Cemat descobre que uma casa furta energia elétrica, ela corta a luz do bairro inteiro. Se uma pessoa furta a água da Sanecap, na mesma hora cortam a água do bairro inteirinho. Até prenderem ou punir o larápio e desatarem o nó da safadeza particular. Se Hussein Obama que é negro, ganha as eleições presidenciais lá nos EUA, na mesma hora trocam os apresentadores brancos de TV daqui por negros; o prefeito cria outra pasta racial de um lado só e discursa, fora de hora, até em formatura que o catolicismo já era e que os evangélicos e os muçulmanos estão em alta. Se um idiota passa um trote criminoso na polícia, a cidade inteira fica sem atendimento na segurança sob a alegação de que dos dez milhões de pedidos de socorro de verdade, houve um trote. Agora, essa do SAMU e dos atendimentos estratégicos de socorro hospitalar emergencial é simplesmente sensacional. O cidadão sofre um acidente ou acontece um cataclismo indefinido. As ambulâncias do atendimento emergencial estão paradas em frente ao posto de urgência. Um rei Momo e o motorista Papai Noel se recusam a atender ao apelo dramático porque no dia quatro de março de 1976, quando Cuiabá foi fundada pelos extraterrestres que fugiram para cá, mato virgem, alguém deu um trote neles. Agora, sensacional foi o que aconteceu com o corpo de Bombeiros daqui há mais de duzentos anos. Um baita incêndio num prédio bem em frente ao quartel deles. Como não havia telefones naquela época, os tambores rufaram duros anunciando o fogaréu. Ninguém atendeu. Estavam jogando Nintendo no notebook via satélite, pois ainda não haviam inventado o caminhão de água e sob a alegação de que um índio daqui passou correndo, dias atrás, nu com arco e flecha anunciando queimada na floresta. O pessoal atendeu, foi e até hoje não voltou por causa da selva fechada daqui. Perdeu-se no meio da mata. E, agora, olhavam firme para as labaredas bem na frente deles no prédio de vinte andares. Mesmo vendo o fogo, os bombeiros não acreditavam nele por causa da mentira de um índio sem-vergonha que passou aquele trote. Hoje, bombeiros não atendem chamados. Só com requerimento judicial em três vias, com firma reconhecida e fotos do incêndio. De preferência, um vídeo em alta definição com depoimento de testemunhas. A mesma coisa acontece na política tupiniquim e bororo nesta inversão de valores. Os civis ocupam cargos ministeriais de militares, como da Aeronáutica, Marinha e Exército, assim como os militares vivem assumindo postos dos civis por aí, desde os ministérios da casa civil até todos os ibamas e meio-ambientes... Só falta colocar um militar na Casa Civil e um civil na Casa Militar. Então, pode até acontecer de os médicos se transformarem em políticos e políticos exercerem cargos dos médicos. O povo no meio, levando ferro! Sob a alegação de que alguém está passando trote em alguém. Portanto é válida aquela sugestão que dei aqui e que tanto sucesso fez até na Internet. Sob o título como fazer a polícia atender a um chamado. Se o leitor telefonar para a urgência 190 pedindo socorro contra bandidos que tentam arrombar e roubar sua casa nessas madrugadas de desespero cuiabano terá a chance de cem por cento em nunca ser atendido. Proceda da seguinte maneira: disque 190 e apenas diga que atirou e acha que matou com sua espingarda, dois bandidos que tentavam entrar à força em sua casa. Só isso. Imediatamente, dois helicópteros, oito viaturas especialíssimas e a guarnição do SAMU, do Corpo de Bombeiros e da ROTA (antiga çuate cuiabana quando os policiais eram atletas e não os gordos Ronaldões de hoje), além de uma Comissão dos Direitos Humanos dos Bandidos estarão pedindo a sua espingarda para apreendê-la e prender você por porte indevido de arma em casa. Mas, isso, apesar de você acabar preso pelo trote, evitará que os ladrões roubem sua casa e, pior, possam esmigalhá-lo, matá-lo, estuprarem sua mãe, avó, esposa e filhos e pode até se dar ao luxo de bancar o bandido de verdade para reivindicar auxílio da comissão dos direitos humanos dos bandidos e ser solto imediatamente. * PAULO ZAVIASKY é jornalista
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