Há cerca de um mês, entrevistei o médico homeopata de Cuiabá, Marco Aurélio Ribeiro, para a revista RDM. O tema foi depressão, a partir de uma frase que ele dissera à repórter Maria do Carmo Mota, de que a sociedade está deprimida. Na minha cabeça, ele quis dizer que as pessoas estão deprimidas pelas pressões do dia-a-dia e de outros fatores modernos. A nossa entrevista foi publicada na penúltima edição de RDM, cuja chamada de capa foi Gordura e Saúde o veneno entra pela boca. Saí de lá, muito mais preocupado do que quando cheguei. As coisas são muito mais graves. Dá pra pontuar quatro itens que merecem severa reflexão. O primeiro é a perda de cultura familiar das mães jovens, abaixo dos 40 anos. Moradoras na periferia, por exemplo, elas desabam até o centro da capital para ir ao pronto-socorro com uma criança febril. Suas mães tratariam da febre com um remedinho caseiro até o dia seguinte, ou curariam com um chazinho, uma simpatia ou um simples compressa de água fria. A mãe enfrenta problemas como a pobreza e outras mazelas para chegar ao pronto-socorro com o filho, onde acaba tratada com desdém, por não saber lidar com os próprios problemas familiares em casa mesmo. Essa perda da cultura familiar e dos costumes simples deixa uma geração inteira desamparada e infeliz. Essa infelicidade, diz Marco Aurélio, é depressiva, da pior maneira, porque aquela mãe e as pessoas da periferia se sentem desmerecedoras de bons serviços públicos. As pessoas da classe média estão deprimidas porque elas têm consciência das mazelas sociais, como violência, falta de uma boa educação, de uma boa, de terem que pagar impostos e custearem plano de saúde, escola privada para os filhos e segurança particular. A depressão delas vem dessa consciência e da certeza de que não conseguirão mudar seu sofrimento, nem esse estado de coisas torto. Nas camadas ricas, ou se luta contra os impostos, com a competição, com a pressão do mercado, com a ineficiência do Estado, com problemas trabalhistas, etc. etc. etc. E, em certos casos, a depressão vem do medo de perder dinheiro ou medo do dinheiro que têm, porque ele foi adquirido por caminhos ilegais. Como o medo é o medo, não importa a forma como ele se apresenta, será sempre medo e produtor de depressão. O servidor público também se deprime, porque ele tem consciência de sua ineficiência e da inutilidade real de sua função, além de salários amarrados a normas legais, a desnecessidade de competir para se superar e para superar os seus limites. Por último ainda existe a depressão por perdas ou por questões pessoais e particulares. O saldo final é, realmente, uma sociedade entristecida, com elevado índice de doenças, com indisposição de lutar e de se posicionar frente à vida. Como vítima de uma dessas depressões por perda familiar, acabei me posicionando, acho que na melhor das posições, porque o tempo é um santo remédio. Tem coisas e depressões muito piores que talvez nem passem nunca! * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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