ARTIGO
Quinta-feira, 12 de Junho de 2008, 23h:33
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LUIZ CESAR DE MORAES
Não é utopia
É muito difícil aceitar o fato de ver tanta gente passando privações por esse mundo afora. É quase impossível para um grande número de pessoas conviver com as injustiças da vida. É uma crueldade sem tamanho constatar que uma grande parcela da humanidade não tem acesso às mínimas coisas necessárias a uma vida digna, sem direitos básicos à alimentação, por exemplo. O incremento da produção do biocombustível à base de cana-de-açúcar, e seus desdobramentos, veio lançar mais lenha na fogueira da carência de alimentos. Há quem diga que obter energia à base de cana é utilizar terra fértil que poderia produzir carne e grãos. Outras correntes alegam que esse não é o problema principal, que os subsídios com os quais os países mais adiantados privilegiam sua agricultura é que seriam o vilão da questão. A discussão desse tema, no entanto, serviu para mostrar que os preços dos alimentos têm tido alta constante nos últimos meses, e que um número cada vez maior de países tem dificuldade de produzir alimentos para suprir as necessidades da sua população. Autoridades ligadas ao assunto opinam que, desta vez, uma conjugação de fatores parece ter agravado o problema, que tende a piorar nos próximos anos. Uma estatística publicada há poucos dias por um órgão de imprensa paulista revela uma informação assustadora. Segundo esses dados, em contraste com a existência de um bilhão de pessoas gordas no mundo (por excesso de alimentação), há pelo menos 820 milhões de seres humanos famintos (que não têm nada para comer). Números, cuja tendência, infelizmente, é se ampliar nos próximos anos. São números cruéis, desumanos, estarrecedores, principalmente porque se sabe que já faz alguns anos que o mundo passou a produzir alimentos necessários para alimentar toda humanidade. O que falta, na verdade, é mais solidariedade entre os povos, uma política humanitária consciente e coerente que convença os países ricos a socorrerem os países pobres. Se há falta de solidariedade, nada mais urgente do que as autoridades adotarem esse tema nas escolas, incentivarem atitudes humanitárias entre os povos, e desenvolverem ações concretas de modo a levar as pessoas a apoiarem umas as outras. Pode parecer uma utopia, mas se não fizermos nada, aquela máxima segundo a qual, metade da humanidade passa fome, enquanto a outra metade faz regime, soará cada vez mais verdadeira. LUIZ CESAR DE MORAES é jornalista