ARTIGO
Terça-feira, 28 de Junho de 2011, 20h:32
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ANSELMO CARVALHO PINTO
Morrendo na rede
Certa vez, durante um show em Caieiras (SP), Raul Seixas estava tão chapado que acabou confundido com um impostor em pleno palco. Trôpego, voz pastosa e com lapsos de memória que o impediam de concluir frases de sua própria autoria, o cantor foi vaiado e levou uns tabefes. Terminou a noite na delegacia, passando pelo constrangimento de ter que provar que ele era ele mesmo. A história foi retratada em um curta-metragem chamado Tanta estrela por aí..., no qual Raul é interpretado por Rita Lee. Antes mesmo do filme, o episódio de Caieiras já compunha o folclore em torno das loucuras do Maluco Beleza. Mas tudo sempre esteve no campo da lenda, com cada um contando o caso a seu modo. O filme, aliás, é uma interpretação livre do que o diretor acha que ocorreu. Isso era antes da internet. Hoje, não há mais tempo para o mito do boca-a-boca, para os atavios da mente ou as interpretações autorais. Dia destes, li que Amy Winehouse, este desperdício da espécie humana, cancelou a turnê na Sérvia depois de um show que o jornal Blic Belgrado classificou como o pior da história. Imediatamente, corri ao You Tube. E, para a surpresa de ninguém, algumas horas depois da, digamos, apresentação, as imagens de Amy Winehouse, captadas em diversos ângulos pela plateia de Belgrado, estavam lá, com sua crueza, sem retoques, acréscimos ou mitificações típicas de uma lenda que vai se construindo aos poucos. O show começa com Amy correndo pelo palco, vidrada. Primeiro, abraça voluptuosamente um músico, que, constrangido, sussurra qualquer coisa em seu ouvido e a conduz em direção ao microfone. A cantora, então, inicia uma patética tentativa de se livrar das sandálias. Rodopia em torno de seu eixo, tateia o vazio, fica de cócoras e pragueja contra o calçado que lhe incomoda o pé, num monólogo surreal e deprimente. Parei por aí. Leio que o espetáculo de Belgrado talvez precipite o fim da carreira desta cantora magnífica, comparável, em minha opinião, a gente como Nina Simone e Aretha Franklin. Que sua carreira esteja ameaçada pelas drogas nem é o pior dos cenários. Viciado em álcool e cocaína, Raul Seixas se matou em segredo, vez ou outra expondo sua miséria a poucos infelizes em pocilgas como o clube de Caieiras. Com a cantora inglesa, ocorre algo totalmente distinto, sintoma de uma era. Escravizada pelo crack, Amy está se matando na rede, numa morte televisiva, que - para usar um termo atual - bomba na internet. E cujas versões se diferenciam apenas conforme os pixels de cada câmera e o formato do arquivo. ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário