Sei que se trata de uma grande invenção da humanidade e dos meios de transporte mais seguros do planeta - à frente, dizem os estatísticos, da aparentemente inofensiva bicicleta. Entendo perfeitamente o elevado grau de avanço tecnológico a que a atividade vem sendo submetida ao longo das últimas décadas. Mas nada disso me consola. Seja em uma geringonça movida à hélice ou num colosso com quatro turbinas, entrar em um avião, para mim, é mais que experiência desagradável. É tortura das piores, que começa dias antes do momento em que o sistema de som faz ecoar o vai-ou-racha: "Tripulação, decolagem autorizada". Do olhar estranho de um cachorro à pipa dependurada no poste, começo a captar em todo canto avisos sorrateiros e inquestionáveis de que algo dará errado durante o vôo. Uma notícia sobre qualquer acidente aéreo - mesmo que nas montanhas do Himalaia -, é o bastante para que comece a ver o mundo com os olhos de um condenado. Lembro-me sempre de um texto clássico do jornal "O Planeta Diário" - um dos precursores do conglomerado Casseta & Planeta - que usava a aviação civil para ironizar o conceito de civilização. Afinal de contas, o que nos faz entrar com graça e naturalidade em um tubo voador de aço, cheio de querosene até a cauda e pilotado por um sujeito que nunca vimos na vida? Recentemente, durante uma turbulenta viagem a que fui submetido, um passageiro ao meu lado esbanjava tranquilidade e parecia mesmo se divertir com o princípio de infarto que meu rosto pálido aparentava. Entre um e outro sacolejo da aeronave - momentos em que não conseguia sequer respirar - ele me disse que o medo de avião é sinal típico de pessoas centralizadoras, com extrema dificuldade em dividir tarefas. Como a descrição me serviu perfeitamente, passei a pensar muito no assunto desde então. Na próxima decolagem - até mesmo por exigência profissional, nunca permiti que o medo impedisse uma viagem -, vou tentar ser menos rígido com a tripulação e deixar que façam o trabalho para o qual foram treinados. Por precaução, farei matrícula em um curso de pilotagem. RODRIGO VARGAS é jornalista e repete expecionalmente este artigo (
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