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ARTIGO
Quinta-feira, 26 de Junho de 2008, 21h:57

BRUNO PERON LOUREIRO

Fundamento

Poucas pessoas se perguntam qual o fundamento do amor antes de amar, ou da crença antes de crer, ou da amizade antes de ter amigos. A vida sempre correu sem que questionássemos o fundamento de todas as coisas: o que significam, de onde vêm ou para onde vão, por quê as fazemos ou deixamos de fazer. Nem nos passou pela cabeça que o fundamento fosse necessário para falar de coisas que implicam em inúmeros conceitos ou para passar por situações que envolvem falta de conhecimento de causa e efeito. Além desta constatação, acrescento que há conceitos, momentos e sentimentos que são melhor aproveitados sem que tenhamos seu fundamento porque assim se ausentam as idéias pré-concebidas ou restringidas. Existe o lado, portanto, gratificante de prescindir de grandes tentativas de assentar o cimento que os justifique e lhes dê sentido. Afinal a vida segue pelos trilhos, embora o ser humano acredite que domina a natureza melhor que qualquer outra espécie com a ciência e a técnica, e se contente com que até então seja o ser mais inteligente que se tem notícia. As dúvidas que surgem da indagação humana parecem, por vezes, tão elementares; ou a cada pergunta que se faz, desponta uma nova interrogação, como se o movimento da natureza fosse tão rápido a ponto de os nossos sentidos (serão cinco apenas?) se aturdirem e se comoverem a reconhecer uma certa complacência em aceitar a viver sem fundamentos. Há pouco tempo, descobriu-se um novo planeta no sistema solar quando a comunidade de astrônomos mantinha o fundamento, ou melhor a crença, de que não haveria nenhum outro. Desde o século XVI, começou-se a pensar sobre como deve agir um governante eficiente com os escritos de Maquiavel, mas até hoje não se tem uma resposta precisa e isto não impede que tenha havido bons governantes antes mesmo da obra deste pensador italiano. Quantos são os que definem amor a partir de uma relação conjugal antes mesmo de fundamentar o conceito em interpretações distintas, que o entendem também como uma atitude diante de amigos ou de um respeito incondicional com a natureza. E, da mesma forma, os debates entre cientistas parecem não ter fim simplesmente porque falta cimento para um bom fundamento. E o que seria um bom fundamento? Não estou convencido de que tudo na vida precisa fundamentar, entender, conhecer a fundo e explicar. Nem creio que tenhamos condições de unir tantos tijolos para edificar o fundamento de tudo, se é que se entende em que consiste esta minha crença. O que move a ação e o pensamento depende de noções pré-concebidas que carregamos até o momento de repensá-las e ressignificá-las. Entretanto, estes são esforços ainda apartados dos fundamentos, que ninguém até hoje provou serem indispensáveis para a sobrevivência. * BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em relações internacionais [email protected]

Edição EDIÇÃO 16958




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