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Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ARTIGO
Terça-feira, 12 de Dezembro de 2006, 20h:10

KLEBER LIMA

Entre o casuísmo e o estelionato

Itamar Franco era o vice-presidente de Fernando Collor de Mello, e assumiu o posto com o impeachment deste. Fez um governo de transição, fez o que pôde para segurar a estabilidade democrática, pôs Fernando Henrique no Ministério da Fazenda e construiu a estabilidade econômica. Só por isso seu governo merece um registro histórico importante. Mas, mineiro e nacionalista, Itamar também pode ser citado como um presidente que tinha uma visão clara sobre o chamado neoliberalismo: contrária, aliás, violentamente contrária. Naquele momento o neoliberalismo se manifestava fortemente na tese do Estado Mínimo, do ponto de vista filosófico e ideológico; e na privatização de tudo quanto fosse possível, no campo político. Itamar fez um pronunciamento áspero sobre o assunto, logo depois que assumiu o posto, afirmando que “sob o pretexto da modernização, assistimos ao crime de colocarem o Estado para financiar o desmonte do Estado” (citação de memória). O presidente mineiro estava se referindo ao fato de o Governo Collor ter iniciado o processo de privatizações no Brasil fazendo com o BNDES financiasse os negócios. De fato, algo próximo do criminoso. Mas, não vou fazer das privatizações uma questão ideológica. Em geral sou contra, sobretudo privatizar aquilo que é questão de segurança nacional ou potencialmente lucrativo. Muita coisa privatizada no Brasil desde Collor de Mello e Fernando Henrique estava inscrita em uma dessas duas categorias, às vezes em ambas, como no caso da Companhia Siderúrgica Nacional. Mas, reconheço que algumas outras deram certo. A da telefonia, por exemplo, já admiti várias vezes que aprovei. As de energia elétrica, não. Pode até ter sido um bom negócio para o governo, que estava sem capacidade de investimento em algumas áreas estratégicas. Mas, o que é estratégico, como produção de minérios e fontes energéticas, penso que deve ficar sim sob o controle do Estado. Faço esse enorme preâmbulo para abordar a polêmica da vez, pelo menos em Cuiabá, mas com forte repercussão em todo o Estado, que é a tentativa do prefeito Wilson Santos de privatizar a água na capital. Não creio que a água seja deficitária. Acredito em má gestão. Reconheço também que saneá-la administrativamente, tornando o sistema de água e esgoto tanto eficaz quanto viável, não é tarefa fácil, e vai exigir a construção de alternativas. Mas, não votei num prefeito para resolver problemas fáceis. O que é fácil, o cidadão resolve por conta própria. Elegemos um prefeito para resolver problemas complexos, concretos, e de forma perene. Ainda que não de forma definitiva, mas pelo menos de longo prazo. E aqui entramos na dimensão política da coisa, não necessariamente ideológica: Wilson foi candidato a prefeito duas vezes tendo uma postura muito clara de ser contra a privatização da Sanecap. Utilizou, inclusive, um belo slogan, na campanha de 2000, para denunciar o que ele chamara de golpe do ex-prefeito Roberto França para privatizar a Sanecap para uma empresa francesa. O nome começava com Lionese. Era “Água é Vida. E Vida não se Vende”. Reconsiderar isso agora é casuísmo e um estelionato eleitoral com as milhares de pessoas que lhe outorgaram o cargo para ser um estadista, criando alternativas aos grandes problemas da cidade, inclusive a água, mas honrando seus compromissos públicos. O problema parece ser que Wilson Santos não se importa mais com seus compromissos públicos. * KLEBER LIMA é jornalista em Cuiabá [email protected]

Edição edição 16957




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