Escrevo este artigo sob impacto de alguns elementos: 1°) eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo; 2º) o resultado de duas pesquisas do Datafolha: a) aprovação irrestrita de Dunga, por 69% dos brasileiros, conferida alguns dias antes do derradeiro vexame; b) novo recorde de aprovação (78%) alcançado pelo governo Lula/PT. Com isso, nos limites de um artigo, comentarei o comportamento dispare da maioria dos brasileiros diante da Seleção de futebol e do Brasil (como país) em si. Para quem sem paixão alguma por time qualquer foi forçado pela ditadura da mídia a acompanhar o cotidiano da Copa, uma vez que até os estúdios dos telejornais foram transferidos para a África, os dias da Seleção estavam contados. Na verdade, Dunga e seus fervorosos acólitos foram longe demais na competição. Bastou o primeiro grande obstáculo e nem as orações dirigidas aos céus comuns àquele grupo de jogadores tão religiosos quanto mercenários salvaram a Seleção do fracasso. Verdade seja dita: quando não há técnica suficiente e razoável equilíbrio emocional entre os atletas, a tão propalada brasilidade de Deus simplesmente muda de lado; às vezes se veste de azul, de vermelho, de laranja... E tudo se prenunciava perdido já na convocação que o treinador fizera da equipe, contrariando clamores gerais. Muito possivelmente, Dunga, assim como nossos governantes, teatralizando inexistente força e autonomia, também acatava imposições do mercado; só que pelo viés dos patrocinadores, alguns deles, de multinacionais. Como dissera o poeta barraco Gregório de Mattos, contra o sagaz Brichote (metáfora poética da imposição do capital internacional), muitos abelhudos, historicamente se entregam. Triste Brasil! Poucos criam nos escolhidos por Dunga, mas a imposição da brasilidade pela mídia foi tão acintosa que até cachorro sem dono foi sendo enfeitado de verde e amarelo. Nesses momentos, nosso apego à futilidade aflora ainda mais. Só o fútil parece nos unir como nação. Há uma perda coletiva da razão. É intrigante como aprendemos a gostar de ilusões desde os primeiros contatos com os colonizadores. Somos assim... Bem diferentes dos próprios holandeses. Eles comemoraram tudo sem histeria. Se tivessem perdido, dificilmente algum batavo precisaria ser levado ao Pronto Socorro (PS). Sorte a deles, pois, como o de tantas cidades brasileiras, o PS de Cuiabá, p.ex., é só fachada. Lócus do horror de criaturas abandonadas. Agora, com a licença dos que ajudam a engrossar a legião dos 78% que aprovam Lula, vale dizer que essa ilusão é ainda mais grave do que a promovida pelo futebol. Espero que não cheguemos à unanimidade, pois ela é, de fato, burríssima; e estamos bem perto disso! O atual governo é a pior das ilusões de nossa política contemporânea. Além de cooptações e programas assistenciais que manterão a maioria na condição de dependência, o governo se forja numa economia frágil, mas vendida eficientemente pela mídia como uma das mais sólidas do mundo. Porém, já há pontos de falências induzidas pela sedução do crédito fácil. Assim, uma bolha econômica vem sendo inflada há alguns anos no Brasil. Sua explosão só poderá ser evitada com o contínuo aumento do superávit primário, construído na subtração do orçamento das políticas públicas. Para que essa tragédia, que já ocorreu nos EUA e continua rondando até a velha Europa, seja evitada por aqui, os cortes orçamentários serão acentuadas, ganhe quem ganhar as próximas eleições. Assim, a já enferma saúde pública, a vergonhosa educação nacional, a desonrosa condição de habitação de tantos brasileiros, os insuficientes e desumanos transportes públicos, a ausência de saneamento básico até em capitais dos Estados continuarão a ter o mesmo tratamento político desdenhoso. Esse cenário político é confortável aos interesses do capital; logo, adverso às necessidades dos trabalhadores. O conforto das elites é tão visível que a mídia não precisará escolher seu candidato, como lha é peculiar fazer. Dentre os principais concorrentes, qualquer um é o mesmo. Todos continuarão a ler a cartilha mandada. Enfim, é jogo de carta marcada a um povo de vida de gado, ou seja, marcado por uma insana apatia política que o faz feliz por nada. Pena que não vivemos de futebol!!! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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