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ARTIGO
Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008, 21h:06

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

"El comandante" e os comandantes

Dois fatos recentes me instigam neste momento: 1º) a renúncia de "El Comandante" Fidel; 2º) os escândalos dos comandantes da Universidade de Brasília, apoiados pela maioria (157) dos professores presentes (200) em uma assembléia do sindicato dos docentes daquela instituição pública de ensino superior, uma das mais importantes do País. Por contenção de espaço, tratarei apenas da renúncia de Fidel que fez eclodir ações e contradições diversas. A mídia internacional alvoroçou-se; a nacional regozijou-se. A maior revista semanária do País superou-se, vomitando mais uma vez um jornalístico desequilibrado. A partir da capa - "Já vai tarde" - cujo fundo está em preto, sugere a antecipação simbólica da morte física do líder cubano. Os demais veículos, menos irracionais, para o bem e/ou para mal, publicaram até cadernos especiais. Em um jornal paulistano, de 20.02.08, Oscar Niemeyer prestou bela homenagem a Fidel. Um grande jornalista destacou o carisma daquele líder que, em Genebra/1997, ao contrário dos demais participantes, paralisou uma conferência internacional, ao iniciar seu discurso, invariavelmente, tão longo quanto enfático. Em meio a registros históricos, análises políticas, etc., parte da mídia mencionou avanços de indicadores sociais cubanos. Na saúde, reconheceu-se que a mortalidade infantil em Cuba equivale a menos de um quarto da média latino-americana. No Brasil, conforme estudos da USP, os investimentos em saúde equivalem aos idênticos de 15 anos atrás. Sobre a educação cubana, o mesmo jornal disse que estudos de organismos internacionais - Banco Mundial e Unesco - atestam a qualidade do sistema educacional da ilha caribenha. Por aqui, a educação beira a nota zero em todos os níveis, inclusive, no superior. Mas para encontrar algo que diminuísse a imagem de Fidel, não faltaram destaques ao propalado "atraso econômico de Cuba” que, há quase 50 anos, resiste à pressão estadunidense para subjugar a Ilha ao capitalismo. A questão da democracia, ou de sua falta, conforme a mídia brasileira, também gerou muitas especulações. Todavia, concomitantemente a comentários sobre a "economia atrasada de Cuba" – fruto, diz a mídia, da ingerência estatal sobre a iniciativa privada -, as sociedades capitalistas, autoconsideradas como avançadas, estão tendo de conviver com a mais profunda crise do capital dos últimos 60 anos. Depois dos EUA - epicentro do problema -, a Inglaterra acaba de anunciar - pasmem - a estatização do banco Northern Rock, especialista em créditos imobiliários. Mera contradição ou abismo a vista?! No que se refere à democracia cubana, infelizmente, a verdade é que poucos são os países capitalistas - ditos como democráticos - que podem falar de algum sistema oposto. Os EUA jamais! Não se pode esquecer que Bush fraudou as últimas eleições. De nossa parte, o Congresso Nacional convive, sem constrangimento, com "manobras governistas" pró-interesses do capital. Em plena votação da reforma previdenciária, até um mensalão foi criado para isso. Ali, foi descortinada uma das maiores quadrilhas. Quer mais? Somente durante o primeiro mandato de Lula/PT, mais de 180 militantes políticos foram assassinados no Brasil. Além disso, as universidades públicas foram massacradas em 2007. Estudantes foram presos e assediados durante manifestações porque se opuseram à absurda "reforma universitária", imposta por Decreto Lei. Como explicar esse e outros ranços ditatoriais?! No popular, um sujo falar do mal lavado não parece ser de bom tom; afinal, com telhados de vidros, não se atiram pedras no do vizinho. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é doutor em Jornalismo/USP e Professor da UFMT

Edição edição 16957




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