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Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 09 de Setembro de 2006, 14h:22

GUSTAVO OLIVEIRA

Educação medieval

Aconteceu na última sexta-feira na avenida da Prainha, bem diante da travessa com a Getúlio Vargas, pintada de amarelo pelo Brinco de Ouro que começa a florir diante da Garagem Abdala Mansur: a mulher aplicou um beliscão torcido no braço do menino que ameaçara atravessar a rua sem a sua autorização. Quase parei o carro para censurar-lhe a violência despropositada, mas o trânsito logo me empurrou para longe daquela cena de educação medieval, ainda tão comum entre nós mesmo no início de um novo milênio. Sei que muita gente boa considera a palmada e o puxão de orelhas simples medidas educativas. Tenho lido até mesmo entrevistas de educadores renomados, que defendem a pedagogia do tapa como válida e eficiente. Jamais vi, porém, um desses especialistas admitir que o mesmo procedimento adotado com as crianças deve valer também para os adultos. Se uma criança desobedece, pau nela. Se um adulto nos contraria, conversamos com ele. Ora, há aí uma brutal incoerência – se não uma certa dose de covardia. Estou convencido de que criança ensinada à pancada aprende a espancar. O menino beliscado vai beliscar seu filho, que muito provavelmente também se tornará um beliscador no pior sentido. Adianta dizer que o exemplo é sempre mais eficaz do que qualquer corretivo? O francês Joubert já disse, há quase dois séculos, que tanto os homens como as crianças precisam mais de modelos que de censores. Porém, muitas vezes nos parece mais fácil recorrer ao autoritarismo do que buscar argumentos convincentes. Voltemos ao caso do garoto que ameaçou atravessar a rua movimentada. Passado o susto, a mãe certamente estaria educando melhor se abraçasse o filho e sussurrasse no seu ouvido a alegria por tê-lo ao seu lado, são e salvo. Poderia, quem sabe, pegá-lo nos braços e rodopiar alguns passos de imaginária valsa sobre o tapete de pétalas arroxeadas, para dar graças à vida por ter a quem amar. Seria bem mais construtivo para a fraternidade universal do que o beliscão torcido. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário [email protected]

Edição edição 16957




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