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ARTIGO
Terça-feira, 22 de Março de 2011, 20h:41

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Do cartorial ao intelectual

Como ocorre na perspectiva dos galos de João Cabral de Mello Neto, que tecem as manhãs por meio dos sucessivos cantos apanhados aqui e acolá, apanho a parte final de meu último artigo para aprofundar algumas reflexões ali expostas. Naquele momento, reafirmei que o rigor mínimo nas universidades – salvando-se exceções – tem sido cerceado por agentes submissos à aprovação automática, difundida nos níveis básico, fundamental e médio. Expus que recentemente fui vítima dessa miserável postura acadêmica. Numa avaliação aplicada, após conscientemente ter atribuído a nota (zero) a alguns estudantes, numa reunião pública, ouvi de uma “superiora” que “não podíamos prejudicar os alunos”. Numa inversão da lógica, o professor passa a ser responsabilizado pelas atitudes relapsas de acadêmicos frágeis, quando não de caráter duvidoso. Resumo: as criaturas foram aprovadas e formadas. Embora eu tivesse feito tudo para não ser cúmplice da aberração, as criaturas estão livres e diplomados para atuar. Mas por que isso me incomoda tanto? Porque, para uma sociedade que paga os impostos mais caros do mundo, pior do que faltar profissionais é conviver com profissionais meia-bocas, farsantes. Ainda não me convenci da lógica conformista: “antes isso do que nada”. No caso de um profissional formado por uma instituição pública, esse “raciocínio” não deveria estar presente nas relações acadêmicas. É desonesto. Somos obrigados a fomentar e fazer uso das melhores condições de trabalho para a garantia de uma educação de qualidade. Pois bem. Justamente por conta desse pensamento tosco, em que toda fragilidade e canalhice são perdoadas, e muitas vezes valorizadas, é que vamos, ano após ano, resguardando as exceções, formando levas de profissionais cada vez mais medíocres para atuação também no magistério. Essa fragilidade, em algumas áreas, escancara-se muitas vezes de forma irremediável. No exercício da medicina, p. ex., qualquer erro de um enfermeiro e/ou de um médico pode ser fatal. Aliás, tem sido comum a mídia anunciar algum tipo de absurdo nesse campo. Recente e chocante aberração foi aquela injeção de vaselina nas veias de uma garota, vindo a óbito. Em outra área cujos erros tornam-se visíveis é a das diversas especialidades de engenharias. Também para ficarmos com exemplo recente, quem não se lembra daquele imenso prédio que desabou ainda no processo de construção em Belém do Pará? Também houve morte. No caso da má formação e atuação do profissional das mais distintas áreas do magistério, como Letras, Pedagogia, Matemática, História, Geografia etc, as mortes também ocorrem. Todavia, tais assassinatos são mais difíceis de serem detectados. Eles perambulam no campo simbólico; e nesse campo toda ignorância acadêmica é perdoada. Dito isso, é passado de hora de revermos conceitos de “prejuízos” na educação; caso contrário, todo discurso de reivindicação de melhores salários e condições de trabalho torna-se inócuo. Nunca tive dúvidas de que um trabalho acadêmico insuficiente deve ser refeito, até que se atinja o mínimo desejado. Nas licenciaturas, quando aprovamos um aluno sem as devidas condições, pensando não lhe causar “prejuízos” momentâneos, estamos, na verdade, preparando uma cachoeira de prejuízos a anônimos, e num futuro do qual não teremos o menor controle. Já é momento de as universidades públicas deixarem o papel cartorial que passaram a ter nas duas últimas décadas para resgatar a integralidade de sua importância intelectual. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP e Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição edição 16957




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