ARTIGO
Terça-feira, 10 de Abril de 2012, 20h:39
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GABRIEL NOVIS NEVES
Discurso
Fico imaginando como será o discurso dos candidatos nas próximas eleições. Em eleições passadas eles prometeram e não cumpriram - todo empenho na construção de hospitais, melhoria da qualidade de ensino, segurança pública, prioridade no trato de crianças e idosos, obras definitivas de infraestrutura, áreas de lazer e, aos funcionários públicos, condições de trabalho e salários dignos conquistados por concurso público. Tudo isso respeitando a ética e a moral republicana em sistemas de transparência. Isso é passado e obsoleto. Os tempos atuais são das consultorias privadas e das organizações sociais. Todo graúdo que ocupou cargo público importante, após o seu mandato, monta um conceituado escritório de consultoria para tratar de interesses particulares junto aos órgãos públicos, ou criam uma organização social, as famosas e malfaladas ONGs. Sendo assim, como será o discurso político nas próximas eleições? Parece que estou vendo no horário político obrigatório e gratuito, os candidatos, qual vendedor comercial, pedirem o nosso voto, pois irão trabalhar com os escritórios de consultoria e OSs. Todos sabem que os escritórios de consultoria trabalham com contratos semelhantes aos de técnicos de futebol. Uma parte fixa e um bom percentual por ação ganha, geralmente do setor público ou afins. O último ganho de um escritório particular, divulgado pela imprensa, falou em dois milhões de reais recebidos - só de um cliente que tinha uma pendenga no governo. Na verdade, nas próximas eleições vamos eleger os melhores escritórios de consultoria e as organizações sociais de melhor currículo. Na prática, isso já está sendo implantado no nosso Estado com o silêncio dos nossos políticos e da sociedade. Ao chegar ao trabalho, na porta do hospital estava uma ambulância, que veio de fora substituir um plano de saúde do Estado - o finado MT Saúde. Na ambulância estava escrito o nome da firma que ganhou a licitação - Hospital Samaritano, que tem como um dos donos o nosso capitão do penta: Cafu. Todos os serviços serão terceirizados por grupos que visam, acima de tudo, ao lucro. A experiência iniciada pela saúde não indica um bom prognóstico, mas é recomendável observar esse paciente por mais algum tempo. Hospitais de urgência e emergência terão os seus atendimentos triados. Hospitais de atendimento eletivo funcionarão de portas fechadas. Como ficará o atendimento da população de menor poder aquisitivo? Na saúde pública o desastre será total, tanto que os nossos superespertos gestores de saúde estão entregando e brigando para que as OSSs fiquem administrando esse setor importante para a vida da população. Vamos pensar nas outras terceirizações, como a Justiça. Há proposta no Congresso Nacional para que a conciliação entre as partes seja feita por uma firma de acordos judiciais. E a educação, com as suas escolas improvisadas e, às vezes, com sanitário dentro da sala de aula e falta de janelas em algumas? A segurança pública atual tem um efetivo tão baixo, que os profissionais destacados para nos defender foram os da segurança privada, uma das empresas que mais cresceram em Mato Grosso. Em Cuiabá, todos os dias dinamitam um caixa-eletrônico e assassinatos e estupros são cometidos tão amiúde, que não dá mais para contar. Repassando essas atribuições a terceiros, qual a necessidade de se eleger prefeitos e vereadores? Somos ou não uma nação republicana? Reis, rainhas e a corte do rei são apetrechos da monarquia. Acho que Mato Grosso optou pelas festas e charmes da monarquia, implantando assim o sistema de governo que afasta o povo da família real. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT