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ARTIGO
Terça-feira, 30 de Março de 2010, 20h:21

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Democracia doente na UFMT

Há 46 anos o Brasil era golpeado pelos militares. Prisões, exílios, cerceamento das liberdades e mortes eram rotinas. Pela lógica que movia o regime, as universidades foram um dos espaços que mais sofreram. Por todos os lados, eram “hipócritas, rondando ao redor”, conforme é dito em um dos versos de “Não chores mais”, uma bela versão que Gilberto Gil fez do reaggae “No woman, no cry” de Bob Marley e Vicent Ford. No original da canção é dito que “In this great future, you can’t forguet your past” (“Nesse grande futuro, você não pode esquecer de seu passado”). É por isso que hoje trato de democracia. Há mais de duas décadas nos livramos da ditadura. Desde 88, há uma Constituição que se não é a dos nossos sonhos está longe de ser um pesadelo; portanto, teríamos clima favorável à vigência plena da democracia. Contudo, não é isso que tem prevalecido. Há pouco, eu soube de uma estatística estarrecedora: cerca de 60% dos latino-americanos vêem a democracia com indiferença. Traduzindo: à maioria tanto faz viver numa democracia como numa ditadura. Cheguei a duvidar da pesquisa, tamanho é o absurdo da constatação. Hoje, começo a acreditar nesse infeliz dado. Pior: nem preciso sair dos muros de uma universidade pública para começar a crer no inacreditável. Na universidade brasileira, são poucos os que entendem o que é, de fato, o exercício de uma democracia representativa. Para saber disso, basta acompanhar o (mau) comportamento dos representantes em conselhos das Instituições. Raríssimo é encontrar quem representa o coletivo, embora, pelo coletivo tenha sido eleito; via de regra, as representações são autorrepresentações, quando não são de interesses partidários/governistas. Na UFMT, a adesão ao ENEM foi um exemplo. Não se tinha autorização do coletivo para aquela decisão. Pior do que isso é ver que a maioria aceita passivamente esse comportamento ditatorial dos “representantes”. Assim, aos poucos, perde-se o apreço pela democracia. Nesse sentido, parece-me que as últimas eleições ocorridas no Instituto de Linguagens (IL) da UFMT são outro exemplo pouco enobrecedor para quem se diz democrata. Explico: há alguns dias foram realizadas eleições para chefias de departamentos, coordenações de cursos e representantes em conselhos do IL. A participação do colégio eleitoral foi ínfima. Houve quem fosse eleito por um contingente de eleitores inferior a 10%. Motivo: falta de divulgação adequada. A Comissão Eleitoral usou, por poucos dias, as velhas paredes poluídas para afixar alguns papéis informando sobre o evento. Nenhum e-mail! Eu próprio não soube das eleições do local de meu trabalho. Detalhe: cumpro rigorosamente minha Dedicação Exclusiva! Fiquei estupefato! Como eu, a maioria (docentes, servidores e estudantes) também na sabia. Outro detalhe: pertencemos a um instituto de linguagens que abarca os cursos de Letras, Artes e Comunicação. É claro que a “comunicação” foi feita, mas para não ser vista por muitos. Na comunicação interna, a Instituição já nos “educou” para ler preferencialmente e-mails e não mais as paredes ou ficar vendo uma fumaça que pode indicar algo, até mesmo eleições no IL. Dúvidas: alguém queria esconder as eleições? Há no IL quem não aprecie a democracia? E por que não houve o debate? Será pelo fato de que, no senso comum, isso era desnecessário, pois não havia concorrência a nenhum dos cargos? O intrigante é que ninguém apareceu e tampouco cobrou a inexistência do debate público: nem candidatos, nem eleitores, nem a Comissão. Isso é democrático? Ninguém se constrange? Ninguém se incomoda? Detalhe grave: houve candidatos à reeleição! E sozinhos! A impressão disso é a pior possível. Publicamente, protesto. Diante disso, os docentes de Letras aprovaram uma reunião para tratar exclusivamente do esvaziamento das eleições. Porém, a reunião aprovada não foi convocada por quem de direito. Antevendo o descaso para deliberações do coletivo, protocolizei um documento junto à Congregação do IL: solicitei a suspensão das eleições por falta de ampla divulgação. Meu pedido foi indeferido. É assim que se perde o total apreço à democracia. É assim que nascem ou ressurgem novos hipócritas e ditadores; aos poucos, eles estão voltando a rondar ao redor. É um perigo! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16958




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