ROBERTO B. DA S. SÁ
Depois que publiquei o artigo A estupidez está no ar (10/02), no qual, partindo de um poema de cordel de Antônio Barreto, demonstrei minha indignação com o conteúdo do programa BBB/Rede Globo, recebi várias considerações e de diferentes perspectivas. Independentemente do teor de cada mensagem, o importante é que a sociedade não fique paralisada diante de tudo o que vê na mídia; que a crítica seja estimulada. De qualquer forma, destaco três importantes considerações: 1ª) um colega da UFTM, na salutar intenção de fomentar a crítica, repassou internamente aos docentes da Instituição matéria de outrem que valoriza pontos que podem ser vistos naquele dito reality show. Para isso, até especialistas, como um psicólogo, são acionados na matéria; 2ª) um de meus ex-acadêmicos fez semelhante. Repassou um artigo sobre o programa; todavia, o texto condena o BBB, destacando a inexistência de momentos culturais. No lugar de cultura, é dito, há espaço apenas para o banal, o banho de sol, as conversas fúteis e os diálogos vazios, a fomentação de intrigas, as fofocas etc; 3ª) outro colega de profissão, do Rio Grande do Sul, confidencia angustiado que sua filha de vinte anos, embora tenha tido oportunidade de estudar em bons colégios, assiste ao BBB, demonstrando satisfação. Ao final, o colega pede para que eu tente explicar o porquê disso. Difícil. A questão é deveras complexa e envolve muitos pontos. Portanto, não imaginando que nos limites de um artigo isso seja resolvido, espero que minhas considerações, pelo menos, ajude a fomentar a crítica sobre, não só ao BBB, mas ao conjunto da programação cada vez mais medíocre da mídia brasileira. Antes de tudo, é importante registrar que o caso da jovem referenciada não é único. Cada vez mais, a programação da TV parece estar conseguindo igualar o comportamento entre pessoas de distintas classes sociais, quando esses estão na condição passiva de telespectadores. Isso não significa afirmar que o número de telespectadores de diferentes classes que assistem aos programas seja igual. Por conta das absurdas e desumanas desigualdades sócio-econômicas que nenhum programa de TV diluirá nem por reza braba os pobres serão sempre em maior número. Elementar! Seja como for, a tendência de igualar desiguais que as transmissões esportivas, eivadas de nacionalismo estúpido, conseguem sem grande esforço a meu ver, teve o ponto auge, há alguns anos, em programa humorístico de Regina Casé. Nele, a atriz tentava mostrar como era legal morar em lugares inadequados para isso. Assim, buscava apresentar a felicidade da pobreza, principalmente, por meio de suas músicas. Não foi sem motivação, pois, que o funk, p. ex., saiu da periferia, engrossou a vulgaridade em várias de suas manifestações, e alcançou espaços de jovens de classes remediadas. Na mesma perspectiva, caminharam as músicas ditas sertanejas, que redundaram em deslocados cowboys e cowgirls urbanos fazendo lembrar as festas juninas em forrós universitários ou coisas parecidas. Nisso também havia, e há, a intenção preliminar dos idealizadores de neutralizar a violência entre diferentes classes sociais. Claro que se objetivava, com isso, poupar muitas vidas de jovens de classe média; afinal, a desigualdade social tem provocado uma verdadeira guerra civil em várias cidades do País. Todavia, esse conjunto de intenções de ideólogos da mídia não pára por aí. Ele encontra terreno fértil para futilidades mil, de tal forma que é raro o estímulo ao uso do raciocínio, da inteligência, tanto dos jovens pobres quanto dos ricos. Esse terreno se expande pela educação (escolas e universidades) cada vez mais empobrecida e desautorizada do rigor acadêmico; cada vez mais permissiva e conivente com a mediocridade. Logo, os bens culturais mais refinados no processo de criação artística têm sido afastados da maioria de nosso povo, restando apenas uma montanha de lixo cultural nunca antes vista neste País; aliás, neste Brasil em que o reality show é bem outro desmentindo propagandas governamentais muita coisa que se vê, de fato, não se via antes! É a vitória da pós-modernidade, tão enaltecida até mesmo nos meios acadêmicos. É o império da miséria cultural. Uma lástima. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É prof. de Literatura da UFMT
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