NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Terça-feira, 09 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 05 de Fevereiro de 2005, 13h:52

NIDES ALVES DE FREITAS

Cultura é a mãe

Fiquei todo o mês de janeiro me alimentando novamente da cultura maravilhosa de minha mãe. Foi na digestão do pequi que cheguei à reflexão de que um dos urgentes desafios para as gestões públicas, em todo o Brasil, é transformar e fortalecer a sua indústria cultural. Dito assim parece pomposo, ou chato, mas o fato é que tão rico quanto o petróleo, a soja e o aço é o patrimônio imaterial de um povo. É certo que o estudo das cadeias produtivas da cultura (o quanto gera de emprego e renda o teatro, o cinema, etc) no Brasil é muito recente, mas já é possível afirmar que a preservação dos saberes, das vivências, do imaginário e da oralidade de um povo pode empregar muita gente, gerar muito dinheiro e qualidade de vida para todos os moradores. No Mato Grosso, cidades que já foram importantes centros de difusão cultural estão perdidas no tempo, à mercê de gestores que possam vir a compreender a necessidade de preservação e a importância das tradições para a auto-estima de sua gente. Isso acontece em cidades ribeirinhas que perderam o encanto das águas, ou cidades de garimpo que perderam o atrativo milionário de suas riquezas naturais. Um exemplo bem claro disso acontece em Poxoréo. Durante décadas a cidade foi a terra prometida para brasileiros e estrangeiros que viram ali a possibilidade de um futuro melhor. As famílias que chegavam iam formando um raro mosaico de tradições culturais, saberes, fazeres, comeres e vivências que impressionaram e marcaram a vida de muitas gerações, conforme registrou Michael Baxter, numa tese de pós-doutorado para a Universidade de Columbia, nos EUA. As cidades que surgiram em terras poxoreenses foram vocacionadas para o crescimento. Primavera é a filha caçula e semente de um modelo de progresso exemplar para o Brasil. Rondonópolis há décadas é de uma economia “animal”. Enquanto isso, Poxoréo ainda busca formas e meios de rotacionar o seu ciclo econômico para uma fase pós-garimpo. Neste período, de indefinições no quadro político e econômico, o que se percebe naquela que foi a Capital dos Diamantes é um descaso com todo o caldeirão cultural que ali fervia, unindo indígenas, negros, nordestinos, pantaneiros e gaúchos, sem cerimônias. As danças de índio, de catira, os folguedos populares, as alvoradas, as serestas, os pratos típicos como moqueca de jaú, galinhada com pequi, os jogos, os contadores de histórias e todo um riquíssimo patrimônio, que outrora foi motivo de orgulho são tradições que correm risco de extinção. Isso poderia ser preservado numa dinâmica de turismo cultural. Sem falar dos casarões antigos, cheios de possibilidades, e diversas casinhas de uma arquitetura bela e simples, que hoje despencam seus tijolinhos sob tortas calçadas de paralelepípedos. Compreender a cultura como o mais rico patrimônio de um povo, como a matriz de uma “sabença”, não é urgente somente em Poxoréo, uma cidade que já foi lendária pela magia do diamante, pela paisagem exuberante e pela alegria de sua gente. Há muitas outras cidades que estão se povoando sem se dar conta de que a sua alegria e o seu jeito de cultivar o encantamento brotam de uma celebrização idiotizante do estrangeiro, de uma artificialidade televisiva e de uma musicalidade e oralidade que não lhes pertencem e muito menos lhes conferem senso de pertencimento, de identidade. Há muitas currutelas com patrimônio deteriorado, quase perdido. Há muitas pessoas que poderiam viver desta “muntuêra de coisaradas” que somente elas sabem fazer, contar e preparar para as futuras gerações. Atrelar o fazer cultural à cidadania, de forma determinante, é uma maneira inteligente de estimular a evolução lúdica da sociedade, preparando o cidadão para uma fase mais interativa de nossa convivência. Além de fomentar outros setores importantes da economia. É por isso que o desafio para os gestores municipais é grandioso e necessário. Construir redes de agentes culturais, promover a inclusão digital e dar suporte para que os artistas possam ter acesso a mídia para expressar idéias e movimentos, de forma livre e lucrativa é possível. É digno. Perceber a cultura como mãe do progresso é o começo de uma mudança, que o Ministro Gilberto Gil vem chamando de revolução silenciosa na engenharia de nossa indústria cultural. * NIDES ALVES DE FREITAS Jornalista e gestor de cultura no ES e RJ www.nides.blogger.com.br [email protected]

Edição edição 16957




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL