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ARTIGO
Sábado, 26 de Julho de 2008, 14h:10

GAUDÊNCIO TORQUATO

Carisma e o lastro da economia

Os registros da história exibem exuberantes capítulos sobre a trajetória dos líderes carismáticos. Quase sempre, batalhavam em defesa da sociedade e dos mais necessitados. Pareciam mesclar santidade com belicosidade. Vejam Jesus Cristo. Mobilizava multidões. Era um símbolo do pacifismo, mas expulsava vendilhões do Templo. Não distribuía dinheiro, mas uma vez multiplicou pães e peixes e os deu à multidão esfomeada. Saciava estômagos famintos. Ghandi odiava o privilégio e o monopólio e pregava: ”tudo o que não pode ser dividido com as multidões é tabu”. Na história moderna, John Kennedy batia a mesma tecla: “se uma sociedade livre não pode ajudar os muito pobres, não poderá salvar os poucos ricos”. Tempos de outrora. Perfis memoráveis, com suas expressões, habitam os cemitérios ou o baú da memória. Nas últimas décadas, os atores políticos, inclusive no Brasil, diminuíram de tamanho, no fluxo da sociedade pós-industrial, recortada por fenômenos como banalização da autoridade, emergência da micro-política, dispersão das multidões, arrefecimento das idéias e progressivo domínio da economia sobre a política. Sob essa moldura, abriga-se a equação que Gilberto Carvalho, assessor mais próximo do presidente da República, apresentou, quando, em entrevista à revista Veja, disse que a popularidade de seu dileto amigo se deve 90% à economia e 10% ao carisma. Foi sincero. Chegou a confessar que a cúpula do governo temeu pelo “impeachment” do presidente durante a crise do mensalão, menos por conta de denúncias sobre parlamentares “comprados” e mais porque a inflação beirava, naquele momento, os 6%. O argumento remete diretamente à hipótese: se a inflação, por volta dos 6% de ontem, se aproximar dos dois dígitos, vai faltar petróleo no barril de Lula. Será possível? Uma coisa é certa. Ao correr de cinco anos e meio, o momento é o que maior risco apresenta para o governo lulo-petista. Recados dados por bancos centrais do mundo aconselham países emergentes a aumentar juros e desvalorizar moedas para deter a onda inflacionária. Ora, esta recomendação não combina com o perfil do nosso mandatário nem com o ambiente eleitoral que se abre no país. Luiz Inácio, por índole, fará o que estiver ao seu alcance para eleger a maior bacia de prefeitos da história brasileira. E, sob aplausos, espera ser o todo-poderoso capaz de ditar os rumos do futuro. Não será fácil ao Brasil remover obstáculos advindos do cenário internacional, mas petistas lembram que o país acumula US$ 200 bilhões de reservas. Alguns bilhões podem ser queimados. Como a política deixou de ser meio para se transformar em fim, o presidente se empenhará para montar uma rede situacionista tão grande quanto a de 1986, quando o PMDB, no governo Sarney, venceu em 21 dos 22 estados de então. Com esta disposição, Lula, olímpico, corre os estados, multiplica palanques, alarga caminhos. Não tira o olho da balança da economia. A estabilidade da moeda, como lembrou Carvalho, é sua principal preocupação. O aumento da inflação poderá ser o começo do fim da grande aprovação ao governo, em torno de 58%, e à sua figura pessoal, que alcança 72%, segundo o Ibope. O presidente do Banco Central teme a volta da indexação. O corte de verbas, por outro lado, tem alto custo político. E assim, tateando sobre o fio na navalha, Sua Excelência procura mexer as peças. A que lhe dá muitos votos, o programa Bolsa-Família, ganha aumento de 8%. É um troco pequeno para os bolsistas poderem enfrentar o aumento da cesta básica em 52%, em 12 meses. Mas, em ano eleitoral, isso funciona como um aperto de mão em 46 milhões de pessoas. Para conter a alta dos alimentos, mais recursos: R$ 78 bilhões para a safra, incluindo R$ 13 bilhões para a agricultura familiar, aquela que abriga pequenos produtores. A base da pirâmide está cooptada. Só um tsunami econômico poderá fazer água neste pacto. Não se pode negar o diferencial de Lula em comparação com antecessores. Sabe mexer com as pedras mais sensíveis do tabuleiro social. Veio lá de baixo, equilibrou-se nos cordões da miséria. Mescla magistralmente os dois instintos que mais incitam os indivíduos: o combativo e o alimentar. Pelo primeiro, apresenta-se como o grande guerreiro lutando pela sobrevivência e conforto dos contingentes desamparados; aciona, a seguir, o impulso alimentar, com os meios materiais para conforto do estômago. No desfecho do processo, vale-se do terceiro instinto dos indivíduos, o paternal, quando emerge como Pai dos Pobres, ativando uma cadeia formada por valores como solidariedade, amizade, proximidade, igualdade, fraternidade. Os pobres fazem a conexão: “ele é um de nós”. Em suma, forja o carisma na têmpera profundamente voltada à alma social. * GAUDÊNCIO TORQUATO, jornalista, é professor titular da USP e consultor político [email protected]

Edição edição 16957




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