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ARTIGO
Sexta-feira, 08 de Outubro de 2004, 21h:22

PAULO ZAVIASKY

Brasil ajoelhado

Publiquei aqui mesmo, um ano atrás. E, como Arnaldo Jabor também escreveu agora, com quase as mesmas “tiradas”, honrado repito. Eu vi o povo gritando nas ruas, a cozinheira chorando, o rádio dando a notícia: "Getúlio deu um tiro no peito”! Eu, guri, imaginava o peito sangrando: como é que um homem sai da Presidência para o nada? Meninos, eu ouvi, anos depois, no Colégio Estadual de Mato Groso: "O Jânio renunciou!". Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquíni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che, e eu vi a história andando em marcha à ré... Ainda jogou a culpa numas tais “forças ocultas” que todo mundo pensou que era Maçonaria. Entendi ali, com o Jânio saindo, que os bons tempos da utopia, fantasia mesmo de JK, tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um ônibus fantasma andando pra trás. Depois, meninos, eu vi as fotos do fogo queimar a UNE, onde chegaria o “socialismo tropical”, em abril de 64, enquanto o general Mourão Filho tomava o Rio, dizendo: “Não sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!”. Vi o ex-governador daqui, meu grande amigo de infância, Carlos Bezerra junto ao Jota Alves queimando todos os papéis/documentos da velha Rússia e de Cuba da sede da UMES, e despencando lá de cima daquelas janelas do Centro Artístico e Musical de Cuiabá e desaparecendo nos matagais do bairro da Lixeira. Bezerra foi preso e J. Alves foi fazer Direito na Faculdade de Moscou que se chamava, à época, universidade “Patrick Lumumba”. E, Lino Miranda, líder estudantil da esquerda, da direita e do centro, por cima mixtense (com “X”) e, depois, dombosquino, anunciar que sempre teve vocação para padre e que sempre fora operariano. Vi, meninos, tantos comunistas cuiabanos se transformar em dedos-duros da ultradireita num piscar de olhos, e ocuparem até hoje cargos e funções e, como Judas, estarem ainda posando de vítimas dos militares apesar de viver tanto tempo nas sarjetas sociais. Eu vi, dezenas de jovens de cabeças raspadas e com gigantescos mastros com desenhos de dragões dourados e leões vermelhos, com cornetas pelas ruas de Cuiabá anunciando em nome de Plínio Salgado que Deus acabava de anunciar que comunistas comiam criancinhas assadas vivas... E que a Igreja Católica Apostólica Romana estava infestada de comunistas... E, eles eram católicos???!!!... Eu vi, meninos, como num pesadelo, a população festejando a vitória do fascismo, com velas na janela e rosários na mão; vi a capa do “O Cruzeiro" com o novo presidente da República de boné verde, baixinho, feio, quem era? Era o Castelo Branco, general bom e nordestino que anunciava o fim da ditadura do Sul Maravilha e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido como um filme de horror. Eu, que vivera até então de palavras utópicas, como ex-presidente da ACES, Associação Cuiabana de Estudantes Secundários, estava sendo humilhado pela invasão do terrível mundo das coisas reais. Depois, vi a tristeza dos dias militares, “Brasil ame-o ou deixe-o”, vernáculo errado, pois deveria ser “Brasil, ame-o ou o deixe”. Erro vernacular tão grande quanto o do Jânio ao afirmar que “fi-lo porque qui-lo”, quando o correto seria “fi-lo, porque o quis”. A Transamazônica arrombando a floresta, vi o rosto patético de Costa e Silva, a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso. Ouvi Jorge Curi no Rádio, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em câmera lenta, criminosos na própria terra. Depois, vi o rosto terrível do Médici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz, vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pelé, Tostão, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros heróicos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exército com estilingues, fundas e bodoques de nossos bororos. Não vi, mas muitos viram um grande amigo meu de infância, morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelotões, enquanto, em São Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitários enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do “milagre” brasileiro, enquanto as Cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente. Depois, vi os órgãos genitais do general Figueiredo sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo ginástica, nu, para a Nação contemplar. Era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o país falido aos paisanos, para pagarmos a conta da dívida externa. Vi as grandes marchas pelas “diretas” do nosso Dante, herói de verdade que só não é divulgado ainda pela História por não ser como nordestinos que sabem cantar – e bem – os ovos que botam. E vi, estarrecido, um vice Sarney - que não existia, pois nem posse tomara – assumir ilegalmente o poder/destino da Nação, enquanto o covarde Ulysses Guimarães, ao invés de tomar o bastão da legalidade, se escondera no banheiro do congresso da vergonha nacional. E eu vi então a bandeira da democracia hasteada pelo bigodão de Sarney, justamente o homem da ditadura, de jaquetão, posando de oligarca-democrata “esclarecido”. Vi o fracasso do Plano Cruzado, o clientelismo, a corrupção, a impossibilidade de governar o país, a inflação chegando a 80 por cento num único mês. Vi os bancos ganhando bilhões no “over” e no “spread”, dólares no colchão, a sensação de perda diária de valor da vida. Eu vi a decepção com a democracia, pois tudo tinha piorado, eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direção a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otários da Nação, que entraram numa onda política “aveadada”, dizendo: “Ele é macho, bonito e vai nos salvar...”. Eu vi o Collor tascar a grana do país todo e depois a Nação passar dois anos “de quatro”, olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava. Eu vi Zélia dançando o bolero com Cabral em cima de nossa cara, eu vi a guerra dos irmãos Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega, eu vi o câncer corroendo a cabeça deste último. Eu vi o impeachment, eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paixão de Itamar, uma “sem-calcinha” num carnaval desta vida. Vejo a direita se organizando para cooptar a oposição, comendo-a, vejo um exército de oligarcas se preparando para a vingança, vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudança e voltar aos bons tempos da zona geral. Meninos, vocês viram também, mas acho que se esqueceram. * PAULO ZAVIASKY é jornalista em Mato Grosso. Com homenagens ao Arnaldo, pelos enxertos valiosíssimos que devem ser sempre publicados.

Edição edição 16957




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