| PRIVATIZAÇÃO Governo vende Telebrás por R$ 22 bi no 2º
maior leilão da história
Isabel Dias de Aguiar e
Cley Scholz
Da Agência Estado Rio
Depois de uma véspera conturbada, com uma guerrilha
jurídica que punha em risco a última grande
privatização do País, as 12 empresas do Sistema
Telebrás foram vendidas ontem de forma surpreendente. O
maior leilão já realizado no Brasil transformou-se na
segunda maior privatização do mundo no setor de
telecomunicações ao proporcionar ao governo receita de
R$ 22,057 bilhões, um ágio espetacular, muito acima de
qualquer projeção, mesmo as oficiais, de 63,74%.
A gigante japonesa NTT, vendida em três blocos entre
fevereiro de 1986 e novembro de 87, arrecadou US$ 70,44
bilhões. Até ontem, a alemã Deutsche Telekom ocupava o
segundo lugar no ranking das maiores privatizações do
setor, tendo levantado US$ 13,36 bilhões em novembro de
96, com a venda de 26% de suas ações. Ontem, perdeu a
posição para a Telebrás.
O governo vendeu 19,26% das ações do Sistema
Telebrás que controlava, o equivalente a 51,79% do
capital votante das 12 holdings em que a estatal foi
dividida. O preço mínimo de R$ 13,47 bilhões fixado
pelo Ministério das Comunicações e pelo Banco Nacional
do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi
superado já no primeiro bloco.
Esses recursos não chegarão aos cofres do governo de
uma só vez. Para concretizar as operações, os
investidores terão de depositar à vista, até
terça-feira, 40% do total dos lances oferecidos pelas
operadoras arrematadas. O restante será pago em dois
anos, o que permite que os compradores financiem seus
investimentos. Apenas as empresas de capital nacional
poderão recorrer a empréstimos do BNDES.
A Telemat, empresa de telefonia de Mato Grosso, foi
vendida no bloco da Tele Centro-Sul, que foi arrematado
pelo consórcio liderado pela Telecom Itália, que pagou
R$ 2,070 bilhões para Ter as empresas de telefonia fixa
dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre,
Rondônia, Goiás, Tocantis, Paraná, Santa Catarina e
Distrito Federal. Foi o segundo pior ágio do leilão,
apenas 6,15%.
Algumas empresas foram muito disputadas, como a
Embratel, cujo destino havia sido motivo de preocupação
por parte do ministro das Comunicações, Luiz Carlos
Mendonça de Barros. A empresa de telefonia de longa
distância foi vendida com ágio de 47,22% para a
companhia norte-americana MCI, por R$ 2,65 bilhões.
O maior ágio foi alcançado pela Tele Leste Celular,
que abrange os Estados da Bahia e Sergipe. O consórcio
liderado pelas empresas espanholas Iberdrola Investimento
e Telefónica de España ofereceu valor 242,4% acima do
mínimo para obter o comando da empresa, o que elevou o
seu preço para pouco mais de R$ 428 milhões.
O maior valor foi pago pela Telesp, a empresa de
telefonia fixa do Estado de São Paulo: R$ 5,78 bilhões,
com ágio 64,29% em relação ao preço mínimo de R$
3,52 bilhões. O controle da Telesp ficou com a
Telefónica, empresa de capital espanhol que controla a
antiga CRT, a operadora estadual já privatizada pelo
governo do Rio Grande do Sul, hoje denominada
TeleBrasil-Sul. A Telefónica também ficou com a Tele
Sudeste Celular por R$ 1,36 bilhão, o que correspondeu a
um ágio de 138,6%. Com a participação na Tele Leste
Celular, a Telefónica é a empresa que passa a ter maior
presença nos serviços de telecomunicações do País.
Somente no leilão de ontem, as ofertas feitas pela
empresa espanhola somaram R$ 7,020 bilhões. Foi o maior
investimento feito por uma única empresa em todo o
processo de privatização do País. A empresa terá,
porém, num prazo de 18 meses, de reduzir a sua
participação na CRT para atender as normas definidas
pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Com a privatização das empresas do Sistema
Telebrás, o governo agora mobiliza-se para criar as
chamadas empresas-espelho, que vão concorrer com as
operadoras de telefonia fixa. A Anatel distribuiu ontem
as normas para as licitações das concessões para a
exploração do serviços de telefonia comutado.
As empresas que comprarão essas concessões vão
competir nos mesmos mercados que as operadoras vendidas
no leilão de ontem. Com isso, o governo espera instituir
um sistema de duopólio, para permitir que a população
escolha a operadora que vai utilizar, num regime de
concorrênia. A Anatel marcou para o dia 13 a audiência
pública destinada aos interessados em obter
informações sobre a exploração desses serviços.
Consórcio
da Telecom Italia é o novo dono da Telemat
Suzana Santos
Da Agência Estado Rio
Uma única proposta de compra foi apresentada pela
holding Tele Centro Sul Participações, que controla um
conjunto de nove operadoras de telefonia fixa no
Centro-Oeste e Sul do Brasil, entre as quais a Telemat. A
empresa foi vendida por R$ 2,070 bilhões para o
consórcio Solpart Participações, que uniu o Grupo
Telecom Italia, o banco Opportunity, investidores
financeiros internacionais, via fundo de investimentos, e
fundos de pensão. O ágio registrado, sobre o preço
mínimo foi de 6,15%.
Os italianos também participaram, através da Bitel
Participações, do grupo União Globopar Bradesco (UGB
Participações) na compra da Tele Celular Sul e da Tele
Nordeste Celular, que saíram por R$ 700 milhões (ágio
de 204,35%) e R$ 225 milhões (ágio de 193,33%).
O diretor geral da Stet International - coligada
italiana responsável pelo desenvolvimento de novas
oportunidades de negócios -, Aldo Sario, disse ter
ficado surpreso com a falta de concorrentes e comemorou o
"bom" preço pago. A Telecom Italia será a
operadora técnica da holding, que presta serviço para
cerca de 27 milhões de pessoas, assinantes de telefone
na região e usuários de telefone público.
A empresa italiana tem 19,9% no consórcio. O
Opportunity, segundo a consultora do banco, Elena Landau,
como sócio ficou com 19,9% e o restante da partcipação
acionária ficou entre fundos de pensão, como os dos
funcionários da Telebrás, Embratel e Banco do Brasil, e
investidores estrangeiros, via fundo de investimentos.
Landau destacou que alguns parceiros
"tradicionais" do Opportunity tiveram interesse
em entrar no consórcio como investidores, o caso do
Citibank.
Sario disse que a holding é estratégica para o
grupo, que opera na Argentina, no Chile e Equador. Ou
seja, a holding atende uma região próxima do mercado
já explorado pela Telecom Italia. Ele destacou que o
objetivo do grupo italiano é ampliar as atividades na
América Latina, que representa um posicionamento
estratégico frente ao mercado mundial.
No Brasil, o grupo já opera a banda B de telefonia
celular da Bahia, de Sergipe e de Minas Gerais. Sario
disse que a idéia é crescer no Brasil e aumentar a
capacidade de competição, já que ele acredita que a
disputa por mercado crescerá no País. O executivo
informou que a Telecom Itália já tem interesse em
aumentar sua participação acionária no consórcio
Solpart.
FHC
admite usar parte dos recursos em outros projetos
Tânia Monteiro e Doca
de Oliveira
Da Agência Estado Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso admitiu ontem
que poderá utilizar parte dos recursos obtidos com a
privatização do Sistema Telebrás para outros fins,
além do abatimento do dívida pública. Fernando
Henrique não informou em que o dinheiro será aplicado e
disse que ainda discutirá o assunto com o ministro da
Fazenda, Pedro Malan. De acordo com o presidente, embora
"o grosso dos recursos" seja destinado ao
pagamento da dívida, será possível conversar sobre
outras destinações porque a arrecadação com a venda
da Telebrás "superou, em muito, o que se
imaginava".
O presidente não quis associar os resultados da
privatização, que considerou "extremamente
positivos", com a redução das taxas de juros. Para
ele, o efeito imediato da venda da Telebrás é a
diminuição do estoque da dívida pública. "A
queda dos juros não depende só disso, mas de outros
fatores", disse o presidente, explicando que com o
abate da dívida, o governo vai economizar no pagamento
de juros, no futuro.
As afirmações do presidente foram feitas ontem à
tarde, cerca de duas horas após o encerramento do
leilão que vendeu a Telebrás. Satisfeito, Fernando
Henrique descartou que o resultado da privatização
favoreça a sua reeleição. "Isso conta a favor do
Brasil, do povo brasileiro e reeleição é outro
assunto, que não tem essa envergadura", comentou. O
presidente lamentou os distúrbios ocorridos no Rio de
Janeiro, onde houve confronto entre manifestantes e
policiais, classificando-os como "pequenos e
lamentáveis". "Acontecimentos dessa natureza
deslustram a convivência democrática."
Resposta - Em uma resposta velada à oposição, que
vinha questionando a lisura do processo de privatização
da Telebrás, o presidente elogiou a equipe que conduziu
a venda, alegando que tudo foi feito "com clareza,
com honestidade a toda prova e com muita
competência". Fernando Henrique usou o resultado do
leilão de ontem para mostrar que a empresa não foi
subavaliada. "Se pudéssemos multiplicar as ações
controladoras pelo conjunto das ações, que não é bem
assim, o patrimônio da Telebrás seria de R$ 100
bilhões", raciocinou.
O presidente fez questão de ressaltar que os preços
de venda da estatal foram definidos "com muita
propriedade" pelas empresas consultoras e pelo
governo. "A maior preocupação do governo era
trazer o maior número de participantes porque, desta
forma, os preços se ajustariam", comentou Fernando
Henrique, lembrando que é "esse ágio que faz com
que o mercado reaja de maneira positiva". Para o
presidente, hoje "ficou claro para todos os
brasileiros" que é preciso que haja
"competência e credibilidade para que as empresas
venham e o preço suba de forma natural".
"Quanta gente falou de preço sem ter noção do
que estava falando", desabafou o presidente.
"Quanta gente apostou que ia fazer uma crítica
irresponsável e teria como consequência desmoralizar o
governo", prosseguiu, em um recado direto à
oposição. Na verdade, para o presidente, a suspensão
da privatização impediria a modernização do sistema
de telefonia brasileiro prejudicando o usuário. "O
que havia de mais competente nesta área veio para a
privatização", afirmou. "Isso só vai
beneficiar os usuários", repetiu.
Tumulto
deixa 44 feridos, causa pânico e provoca correria
Da Agência Estado
Rio
Pânico, correria, lojas fechadas e apedrejadas,
bombas de gás lacrimogêneo e tiros. O centro do Rio
viveu ontem um dos dias mais tumultuados de sua
história. Foram cinco horas e meia de confronto entre
4,5 mil policiais militares e cerca de 3 mil estudantes e
militantes do PT, PSTU, PC do B, Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Central Única dos
Trabalhadores (CUT), contrários à privatização da
Telebrás, que deixou um rastro de destruição por oito
ruas.
Pelo menos 44 manifestantes ficaram feridos _ entre os
quais 9 jornalistas e 15 policiais. De acordo com a
direção da CUT, três manifestantes foram baleados. A
polícia prendeu 32 militantes, liberados após o
pagamento de fiança. O Hospital Souza Aguiar atendeu 12
manifestantes até às 14h30, e apenas quatro deles
receberam alta. O presidente nacional do PT, José
Dirceu, que participou das manifestações, condenou a
atitude dos policiais. "Isso é falta de
democracia."
A Avenida Rio Branco, a principal da cidade, foi
fechada duas vezes por sindicalistas da CUT, estudantes e
integrantes do MST. A sede regional do PSDB teve a
fachada parcialmente destruída e pivetes aproveitaram-se
do tumulto para furtos e tentativas de saques. Uma
agência do Banco Itaú e uma lanchonete do McDonalds
foram apedrejadas e vários prédios comerciais também
foram atingidos. No tumulto, policiais espancaram e
aplicaram choques elétricos em manifestantes e pedestres
que passavam pelo local do conflito.
A confusão teve início às 9h20, quando o
secretário de Segurança Pública, coronel Noaldo Alves,
chegou à Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), na Rua
Primeiro de Março, e determinou a retirada dos 300
manifestantes que bloqueavam o local. No momento,
políticos e dirigentes sindicais e estudantis
discursavam sobre um carro de som do Sindicato dos
Trabalhadores em Telecomunicações do Rio (Sinttel), em
frente da Alerj. Às 9h45, o comandante do 5º Batalhão
da PM, coronel Pedro Patrício Filho, ordenou que a tropa
de choque expulsasse o grupo.
Os policiais agiram com rigor e lançaram bombas de
gás lacrimogêneo e de efeito moral contra os
manifestantes. Um dos artefatos atingiu o acampamento dos
sem-terra, ferindo cinco crianças, segundo a direção
do movimento. Em resposta, líderes do ato e estudantes
atiraram pedras portuguesas nos policiais que avançavam
pelas Ruas da Assembléia e Sete de Setembro. O conflito
espalhou-se por outras ruas e a polícia perdeu o
controle da situação. Com medo, comerciantes fecharam
as lojas e seguranças de agências bancárias deixaram
os prédios para, armados, evitar invasões.
Camelôs guardaram as mercadorias e abrigaram-se no
Terminal Rodoviário Menezes Cortes. Alguns deles se
juntaram aos manifestantes para jogar pedras e morteiros
contra os policiais. "Isso parece os anos 60",
disse o comerciante Itamar Osório, de 48 anos, obrigado
a fechar a loja por temer um saque. Desesperados,
pedestres buscavam refúgio em centros comerciais, mas
eram impedidos de entrar. "A polícia está atirando
sem ver e pode acabar atingindo pessoas inocentes",
observou a secretária Rosane Silva, de 23 anos, que
pretendia atravessar a Rua do Carmo, mas foi impedida por
causa do gás lacrimogêneo.
Numa tentativa de acuar os manifestantes, a Tropa de
Choque da PM percorreu as ruas próximas à Bolsa de
Valores do Rio de Janeiro (BVRJ). Pouco antes do
meio-dia, um grupo ateou fogo em madeiras na esquina da
Rua do Carmo com Assembléia e houve novo confronto. O
carro de combate Brucutu entrou em ação e lançou jatos
de água para dispersar a multidão. No mesmo instante,
um grupo de estudantes bloqueou um trecho da Rio Branco
por 15 minutos. A PM fez um novo cerco e retirou os
manifestantes da avenida.
Na Avenida Nilo Peçanha, outro foco de tensão, dois
militantes da CUT foram perseguidos até o Menezes Cortes
e agredidos com golpes de cassetetes e socos. Vários PMs
que ocupavam dois carros da corporação deram tiros para
o alto, enquanto crianças de uma escola municipal
saltavam de um ônibus, na esquina da Nilo Peçanha com
Graça Aranha.
Houve novamente correria e gritos. O diretor da CUT do
Rio Paulo Roberto Novaes, de 41 anos, mostrou quatro
cápsulas deflagradas de pistolas 9 milímetros, que
teriam sido disparadas por policiais do 13º Batalhão
(Praça Tiradentes, centro), do alto do Menezes Cortes.
Uma banca de jornal na esquina das Ruas São José e
Quitanda tinha várias marcas de bala.
Liderados pela CUT e por parlamentares, os
manifestantes recuaram até a Praça da Cinelândia, onde
ocuparam as escadarias do Teatro Municipal do Rio. Às
12h50, o grupo voltou em passeata até o Buraco do Lume,
a 500 metros da Bolsa de Valores. No local, alguns mais
exaltados atiraram pedras e ovos na sede regional do
PSDB, quebrando as vidraças de três janelas. Em vão,
os líderes sindicais tentaram manter a calma, mas
estudantes saíram em direção às Ruas da Assembléia e
São José para provocar os policiais da Tropa de Choque.
Foi o estopim para que o conflito entre policiais e
manifestantes recomeçasse, depois de uma hora de
trégua. No mesmo instante, uma equipe da Rede Globo de
Televisão, que estava na Rua Primeiro de Março, foi
vaiada e obrigada a se afastar.
Meia hora depois, o grupo que estava no Buraco do Lume
voltou a jogar pedras na sede do PSDB. Do alto do Menezes
Cortes, a polícia respondia com bombas de gás
lacrimogêneo. Acuados, os manifestantes correram,
novamente, para a Avenida Rio Branco, onde protagonizaram
um novo choque com a PM. O soldado Gutemberg, do 5º
Batalhão (Harmonia) deu três tiros para o alto e foi
vaiado pela multidão. Os estudantes Emerson Dias e João
Carlos de Carvalho foram gravemente espancados pelos
policiais, antes de serem detidos. A PM ocupou as
calçadas da Rio Branco, dispersando alguns manifestantes
que ainda insistiam em protestar. Às 15 horas, o centro
do Rio voltava à tranqüilidade.
Ágio
surpreende consórcio que elaborou modelagem de venda
Irany Tereza
Da Agência Estado Rio
O ágio total de 63,74% no leilão do Sistema
Telebrás surpreendeu os representantes do consórcio
Brasilcom, responsável pela elaboração da modelagem de
venda das teles. Luiz Chrysostomo, um dos coordenadores
do trabalho de avaliação das telefônicas para venda,
garante que o preço mínimo de R$ 13,47 bilhões já era
um valor alto. "Os preços que os investidores
estão pagando aqui são os mais caros por linha no
mundo", afirmou.
Além do ágio, a grande surpresa do leilão, segundo
ele, foi a participação de tradings como a japonesa
Itochu, que sequer consultou o data-room de
privatização do sistema. A Itochu compôs o consórcio
que arrematou a empresa mais disputada do sistema, a
Telesp Celular, junto com a também japonesa NTT, a
Telefónica de España e a Iberdrola. A participação de
grandes operadoras européias associadas a grupos
nacionais era esperada, mas a americana MCI descartou
qualquer associação. "Temos capacidade de tocar a
empresa sozinhos", resumiu o vice-presidente da
companhia, Gerry Demartino.
"A grande atratividade do Sistema Telebrás é
que a operação no Brasil representa uma plataforma de
negócios na América Latina", analisa Chrysostomo.
Para ele, a ausência de disputa na Tele Norte Leste, que
congrega 16 operadoras de telefonia fixa e foi arrematada
por lance único, praticamente pelo preço mínimo, não
pode ser avaliada como o único fracasso num leilão que
registrou ágios de mais de 200%, como na caso das
empresas celulares Telesp, Telemig e Tele Sul.
"A Tele Norte Leste é a mais complexa das
empresas, tem o menor índice de ocupação do País e
atende a 80 milhões de consumidores", comentou.
"Não tínhamos expectativa de ágio para ela, até
porque o governo já havia embutido um prêmio no preço
mínimo." O que, segundo ele, estimulou o ágio na
disputa pelas celulares foi o interesse das empresas que
já haviam entrado no mercado das fixas. "Elas
entraram naquele estágio de sinergia no qual um mais um
é igual a cinco e decidiram elevar suas propostas."
EMBRATEL
Embratel surpreende e acaba tendo a
disputa mais acirrada
Da Agência Estado
Rio
O leilão da Embratel foi o mais disputado entre todos
os das 12 holdings do Sistema Telebrás. A empresa foi
arrematada pelo grupo norteamericano MCI - por R$ 2,650
bilhões, preço 47,22% acima do mínimo -, que teve de
brigar pela estatal até em leilão a viva voz. Nas
propostas apresentadas em envelope fechado, a MCI deu um
lance de R$ 2,473 bilhões, inferior ao da sua única
concorrente, a Longdist (a igualmente norteamericana
Sprint com a empresa Opportunity e fundos de pensão
capitaneados pela Previ, dos funcionários do Banco do
Brasil), que se propôs a pagar R$ 2,499 bilhões.
Como a diferença entre as ofertas era inferior a 5%,
seguindo as regras do leilão a disputa passou a ser
feita em lances a viva voz. A Longdist rebateu as ofertas
da MCI, mas chegou só até R$ 2,620 bilhões. Quando a
oponente apregoou R$ 2,650 bilhões, a Longdist jogou a
toalha.
Outro momento de excitação foi o arremate da Telesp
de telefonia fixa pela Telefónica de España e seus
sócios - a maioria igualmente constituída de
espanhóis. A disputa com os italianos da Stet e do Grupo
União Globopar Bradesco (UGB) terminou arrancando gritos
no pregão da Bolsa do Rio. Com a oferta de R$ 5,783
bilhões, a Telefónica jogou por terra as esperanças
dos concorrentes, que haviam oferecido R$ 3,965 bilhões.
MCI
não quer demissões na Embratel e aposta em futuras
parcerias
Rodney Vergili e Renato
Andrade
Da Agência Estado - São Paulo
O presidente da MCI do Brasil, Luiz Fernando
Rodrigues, disse ontem que os funcionários da Embratel
não precisam se preocupar quanto a cortes no quadro de
pessoal. Segundo Rodrigues, um dos motivos da aquisição
foi o excelente corpo técnico da companhia, arrematada
ontem pela MCI no leilão do Sistema Telebrás.
O que deve mudar na empresa, disse ele, é apenas o
fato dela passar de uma condição monopolista para atuar
em um mercado de competição. Rodrigues afirmou também
que a empresa vai atuar fazendo conexões entre regiões,
como Campinas (SP) e São Paulo, e pode até haver
parcerias com empresas elétricas.
A empresa adquiriu a Embratel por R$ 2,65 bilhões,
pagando ágio de 47% sobre o preço mínimo. O
vice-presidente sênior de estratégia global da MCI,
Jerry DeMarchino, voltou a frisar que sua empresa está
entrando no negócio sozinha e não pretende se associar
a nenhum outro parceiro para tocar a Embratel.
Com relação a investimentos na empresa, o
vice-presidente afirmou que manterá os compromissos
assumidos pela diretoria da Embratel. "Se for
necessário, esses investimentos poderão ser
incrementados, mas não há nada definido. Esta decisão
será tomada à medida em que formos sentindo a
necessidade deles", afirmou DeMarchino.
Segundo ele, a Embratel é hoje o maior investimento
internacional da MCI, representando cerca de 10 a 12% do
total que o grupo investe fora dos EUA. A estratégia
financeira para adquirir a Embratel ainda não está
definida. Há várias alternativas em estudo para o
pagamento inicial dos 40% e o financiamento dos 60%
restantes em dois anos. DeMarchino acredita que a
sinergia entre a MCI, Worldcom, e Embratel será
perfeita.
Espanhóis
são os grandes vencedores do leilão
Da Agência Estado -
São Paulo
Telefónica de España, um dos maiores grupos de
telecomunicações do mundo, foi a grande vencedora do
leilão de ontem, ao levar a Telesp fixa e a Tele Sudeste
Celular. A empresa espanhola, que já controla a
Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), pode
estar ainda por trás da aquisição da Embratel, que foi
arrematada pelo grupo da norteamericano MCI. No início
deste ano, a Telefónica assinou um acordo estratégico
com a WorldCom/MCI para operações na América Latina.
A companhia espanhola, que consolidou sua presença na
Argentina, Chile e Peru, também deve participar da
Telesp Celular, que foi vendida com ágio de 226% para a
Portugal Telecom, com a qual tem acordo de parceria desde
o começo do ano. O diretor da Portugal Telecom
Internacional (PTI), Antônio Gomes de Azevedo, confirmou
que se estuda também a entrada da MCI americana na
Telesp Celular. "Estamos negociando com parceiros
para ver que outras empresas poderão se associar a nós
no novo empreendimento", disse Azevedo.
Um analista estrangeiro que cobre o setor de
telecomunicações no Brasil para investidores europeus e
norteamericanos disse que a participação de Telefónica
na Embratel, por exemplo, seria estratégica. Em
relação à Telesp fixa, disse o analista, o que mais
chamou a atenção da Telefónica foi a demanda
reprimida, mas o aspecto mais positivo é o fato de São
Paulo ser o estado com maior renda per capita do País.
"Isso significa que a companhia que ficou com a
Telesp poderá oferecer serviços com maior valor
agregado.
Fora isso, a Telesp é uma empresa que já atua com
gestão independente e única, além de contar com
pessoal preparado para enfrentar a concorrência de
outras operadoras." Para o analista, a Telefónica
ja conhece o mercado brasileiro, sabe como funciona a
legislação nessa área e sabe muito sobre o papel que a
Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel)
desempenha. Isso, com certeza, dá uma vantagem
comparativa sobre os outros", disse o analista.
JUSTIÇA
Governo comemora vitória na
"batalha judicial"
Liliana Enriqueta
Lavoratti
Da Agência Estado Brasília
O sucesso do governo na batalha jurídica travada em
torno da privatização do sistema Telebrás foi fruto de
um longo trabalho iniciado há vários meses.
"Antecipamos tudo o que era possível para criar o
máximo de sustentação jurídica para este
leilão", afirmou ontem à Agência Estado o
advogado-geral da União, Geraldo Quintão, ao final da
venda das quatro estatais do primeiro bloco. Quintão
acompanhou o leilão junto com o ministro das
Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, em
Brasília, onde também estiveram os ministros Paulo
Renato (Educação), Paulo Paiva (Planejamento), Cláudia
Costin (Administração e Reforma do Estado) e a viúva
do ex-ministro Sérgio Motta, Wilma Motta.
Os acertos da área jurídica na privatização da
Telebrás - considerada como a maior do ano em todo o
mundo - ganhou rasgados elogios de Mendonça de Barros
durante a primeira entrevista concedida pelo ministro,
às 10h30, ao término da venda do primeiro bloco.
"Esse resultado positivo do leilão se deve à
Advocacia-Geral da União (AGU), que comandou a batalha
jurídica", afirmou o ministro. Quintão, que se
encontrava ao lado de Mendonça de Barros, devolveu a
gentileza: "Mas foi o Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quem pilotou
a batalha da venda".
O baixo número de liminares concedida pela Justiça
contra a venda da Telebrás -- 7 liminares de um total de
89 ações, o equivalente a menos de 10% - também foi
comemorado pelo consultor jurídico do Ministério das
Comunicações, Antônio Bedran. "Desta vez
estávamos preparados para o embate. Avaliamos com
antecedência todas as hipóteses de ações que poderiam
ser apresentadas na Justiça contra o leilão",
afirmou.
Bedran ressaltou que o setor jurídico do governo
federal atuou de forma integrada. "Foi um trabalho
em equipe realizado na privatização da Vale do Rio
Doce, mas que vem sendo cada vez mais
aperfeiçoado", completou o consultor jurídico das
Comunicações.
O entusiasmo de Quintão era tão grande que durante o
leilão ele trocou R$ 20 bilhões por R$ 200 bilhões ao
tomar conhecimento que a Telesp Celular acabava de ser
vendida por um ágio de 226%. "Nossa mãe, ao final
vai dar mais de R$ 200 bilhões". O total arrecadado
com o leilão das 12 holdings foi de R$ 22,057 bilhões.
Na opinião dele, ao contrário da Vale do Rio Doce, a
venda da Telebrás teve menos resistência da opinião
pública porque as empresas de telefonia atingem
diretamente o consumidor. "Milhões de brasileiros
devem estar na mesma situação que eu. Há dois anos
estou na fila para comprar uma linha de telefonia fixa em
São Paulo e há um ano espero por um celular",
contou.
Junto com a estratégia de obter junto à Justiça o
aval para a privatização, toda a estrutura jurídica da
AGU -- que possui procuradorias em Brasília, São Paulo,
Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Sul --, do
Ministério das Comunicações, da Telebrás e do BNDES
foi mobilizado para garantir uma atuação eficaz com o
objetivo de cassar as possíveis liminares concedidas
pelos juízes de primeira instância.
Ao mesmo tempo, o processo também foi legitimado pelo
Tribunal de Contas da União (TCU), órgão do Congresso
Nacional. Segundo Quintão, ao contrário do
"mito" da existência de um batalhão de
advogados, foi mobilizado um "grupo não muito
grande de advogados". A AGU possui 200 advogados
para atuar em todo o País e em todos os assuntos de
interesse da União.
A primeira vitória do governo foi ter eliminado os
argumentos de ordem jurídico-constitucionais contrários
à venda da Telebrás, no balanço feito por Quintão.
Neste sentido, foi fundamental a manifestação do
Supremo Tribunal Federal (STF) dois meses antes do
leilão, em decorrência de um pedido apresentado pela
AGU. O STF declarou que o governo estava autorizado, pela
Lei Geral das Telecomunicações (LGT), a realizar a
privatização do sistema público de telefonia e, em
consequência, legitimou os demais atos decorrentes, como
a cisão da empresa em 12 holdings.
Outro passo importante foi o Superior Tribunal de
Justiça (STJ) ter aceito o pedido da AGU para
estabelecer o conflito de competência no julgamento das
ações judiciais que objetivavam impedir o leilão. Isso
permitiu a centralização das ações populares na
primeira Vara Federal em Manaus e das ações civis
públicas na oitava Vara Federal em Brasília, agilizando
a ação dos advogados nos pedidos de cassação das sete
liminares concedidas por juízes que não acataram a
decisão do STJ -- não se consideraram incompetentes
para julgar as ações.
COMO FOI VENDIDO O SISTEMA
TELEBRÁS
TELEFONIA FIXA
ÁREA 1 - TELESP
Comprador......................Telefônica de España
Valor..........................R$ 5,783 bilhões
Preço mínimo...................R$ 3,52 bilhões
Ágio...........................64,28%
ÁREA 2 - TELE NORTE LESTE
Comprador......................Andrade Gutierrez
Valor..........................R$ 3,434 bilhões
Preço mínimo...................R$ 3,4 bilhões
Ágio...........................1%
ÁREA 3 - TELE CENTRO SUL
Comprador......................Telecom Italia
Valor..........................R$ 2,070 bilhões
Preço mínimo...................R$ 1,950 bilhão
Ágio...........................6,15%
EMBRATEL
Comprador.....................MCI
Valor..........................R$ 2,650 bilhões
Preço mínimo...................R$ 1,8 bilhão
Ágio...........................47,22%
TELEFONIA CELULAR Banda A
ÁREA 1 - TELESP CELULAR
Comprador......................Portugal Telecom
Valor..........................R$ 3,588 bilhões
Preço mínimo...................R$ 1,1 bilhão
Ágio...........................226,18%
ÁREA 2 - TELE SUDESTE CELULAR
Comprador......................Telefónica de
España/Iberdrola Valor..........................R$ 1,360
bilhão
Preço mínimo...................R$ 570 milhões
Ágio...........................138,60%
ÁREA 3 - TELEMIG CELULAR
Comprador......................Telesystem/Opportunity
Valor..........................R$ 756 milhões
Preço mínimo...................R$ 230 milhões
Ágio...........................228,70%
ÁREA 4 - TELE CELULAR SUL
Comprador......................Bradesco/UGB
Valor..........................R$ 700 milhões
Preço mínimo...................R$ 230 milhõ os
Ágio...........................204,35%
ÁREA 5 - TELE CENTRO OESTE CELULAR
Comprador......................Splice/Bellsouth
Valor..........................R$ 440 milhões
Preço mínimo...................R$ 230 milhões
Ágio...........................91,3%
ÁREA 6 - TELE NORTE CELULAR
Comprador......................Telesystem/Opportunity
Valor..........................R$ 188 milhões
Preço mínimo...................R$ 90 milhões
Ágio...........................108,89%
ÁREA 7 - TELE LESTE CELULAR
Comprador......................Iberdrola
Valor..........................R$ 428,8 milhões
Preço mínimo...................R$ 125 milhões
Ágio...........................243,04%
ÁREA 8 - TELE NORDESTE CELULAR
Comprador......................UGB/Italia Telecom
Valor..........................R$ 660 milhões
Preço mínimo...................R$ 225 milhões
Ágio...........................193,33%
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