ARTES CÊNICAS

Inês Galvão dará curso na UFMT

MÍRIAM BOTELHO
Da Reportagem

Fomentar a produção local e melhor utilização do Teatro Universitário são alguns dos objetivos que motivaram a Coordenação de Cultura da UFMT a abrir inscrições para o curso de artes cênicas. O curso será ministrado pela atriz Inês Galvão. Vale lembrar que o curso não tem duração definida, pois o intuito é promover uma formação prolongada para os atores.

O curso, em um primeiro momento vai acontecer no período vespertino, das 14h às 17h. Eles pretendem em um segundo momento abrir uma nova turma à noite. A expectativa é alcançar um maior número de pessoas.

Para o Coordenador de Cultura, Clóvis de Matos, este curso pode ser uma alavanca para um curso permanente de artes cênicas na UFMT. Ele acredita que o mais importante, neste momento, é transformar o Teatro Universitário em um espaço voltado para a comunidade. "Pretendemos que o TU seja mais do que um espaço de aluguel, que fica grande parte do tempo ocioso".

A idéia é que o curso não seja apenas, mais um cursinho relâmpago, sintetiza a atriz Inês Galvão. "A formação dos atores deverá ser completa, pretendemos ensinar técnicas de interpretação, iluminação, palco, produção, cenário, dança, canto".

Formar profissionais para todas as áreas do Teatro, é a meta da atriz que pretende abordar o lado prático e as situações normais na vida de qualquer ator.

Nesta parceria, entre a universidade e a atriz Inês Galvão, a instituição sede o teatro, a carpintaria, material gráfico, enfim, toda a estrutura do curso, incluindo é claro o diploma. A pretensão é formar um grupo de teatro e participar de festivais em outros estados.

Morando há dois anos aqui em Cuiabá a atriz já participou de algumas novelas da Rede Globo. No cinema participou do último filme do comediante Renato Aragão e também do longa "Amor à primeira vista", com o atores Alexandre Borges e Júlia Lemertz. Ela também vai participar da segunda parte da produção. No teatro já dividiu espaço com Bibi Ferreira. Formada em Artes Cênicas, esta será a sua primeira experiência como professora.

Para participar do curso cada aluno terá que desembolsar uma taxa de R$ 30,00, mais o preço das mensalidades. Maiores informações pelo telefone: 615-8373.


MÚSICA

A mais nova onda de Lulu Santos

Da AJB - Rio

  Depois de flertar com a música eletrônica em Ligalá (1997) e de purgar sua persona guitarrista com o power trio Jacaré, Lulu Santos lança o CD Calendário. O músico carioca, nesta entrevista, fala de pagode, jazz, a febre dos discos acústicos e Miles Davis. A seguir, trechos da entrevista:

 

Pergunta – Em Calendário há sambas. Você está disposto a agregar ritmos brasileiros a seu trabalho?

Lulu Santos – Desde 1989, quando fiz um disco chamado Popsambalanço e Outras Levadas, o 2/4 passou a ser um dos ingredientes a enriquecer a massa. No "tecnóide" Ligalá (1997), havia minha leitura do samba Chico Brito, de Wilson Batista. No disco anterior, o "negróide" Anticiclone Tropical, havia Baby Hippie, de Jorge Mautner. O samba em mim não é surpresa.

Pergunta – Você elogia Miles Davis e Weather Report pelas fusões do jazz com o pop. É o que você tenta fazer? Assumir humildemente o papel de cozinheiro de informações?

Lulu – Nem tão humildemente, que é um papel que não faço bem. Pratico uma separação entre bom e péssimo fusion. Os mesmos Miles, Herbie Hancock e John McLaughlin que revolucionaram o jazz em 1969 produziram o pior tipo de chiclete de ouvido pouco depois. O que era a reinvenção do sax soprano pós-Coltrane de Wayne Shorter deu no edulcoramento antiestético do intolerável Kenny G.

Pergunta - Nunca se ouviu tanta música brasileira no rádio. Mas a moda do pagode acabou gerando um modelo. Isso prejudica a renovação da música popular brasileira?

Lulu – Discordo de que não ajude a renovação, até porque é renovação e ponto final. Meu pressuposto em Popsambalanço, na época tido como herético, era que um pop efetivamente brasileiro teria que naturalmente passar pelo samba.

Pergunta – Ainda falando de moda: haverá um "Lulu Acústico"?

Lulu – Não porque seja mandatório. Por outro lado, me desgosta a sonoridade de violões elétricos, que de acústicos nada têm. Fica parecendo bife de soja, imitação da vida. Prefiro registrar o espetáculo como é, full gas. Tenho até um nome: Bugalu.

Pergunta – Como a tecnologia aparece em Calendário?

Lulu – Em estúdio aplicou-se uma tecnologia artesanal, construiu-se os próprios samples e quase sempre se optou por sonoridades mais naturais que parodicamente eletrônicas. Isso já não nos interessa, exceto como piada, como na música Shani.

Pergunta – Você disse que "os solos de guitarra são como o latim, uma língua morta". Você tenta distinguir virtuosismo de originalidade?

Lulu – E mesmo chamar atenção para o desgaste que o idioma atravessa. Qualquer canção vagabunda pode conter um cabeludo solo de guitarra elétrica de sonoridade pseudo-requintada que apenas demole mais um tijolo do que já foi uma pirâmide. Que venham as areias, que cubram a esfinge, que outra gente se deslumbre com o que então parecerá um enigma.

Pergunta – O sucesso Fogo de Palha foi composto em estúdio, em uma hora. Essa facilidade sugere que há um modelo Lulu de sucessos.

Lulu – A canção surgiu da necessidade de existir, porque a vontade era maior que a imobilidade. Existe um jeito pessoal de fazer as coisas. Se é sucesso, é show. Se não é, também.

SAIBA MAIS
O QUE: Calendário, novo CD de Lulu Santos, 10 faixas, produção de Liminha, lançamento BMG
QUANTO: R$ 18


"Calendário" recicla passado

Da AJB - Rio

        A mais nova onda de Lulu Santos é Fogo de Palha, balada com jeito do finado chiclete Ploc, inapelavelmente grudento. E a mais nova onda de Lulu é também fogo de palha, no sentido de que seu novo CD, Calendário, acena com algo impressionante e depois frustra quem o ouve. A diligência verbal de Lulu Santos garantiu ao lançamento do disco bem mais que 15 minutos de glória. Lulu declarou que os heróis da guitarra são uma raça em extinção, prometeu sua conversão ao samba feito sem reverência e, principalmente, disse que o reencontro dele e de Liminha, depois de 15 anos, estava a serviço das composições, que seriam as estrelas. Essa última afirmação explica a limitação de Calendário.

     Quando Lulu fica limitado às composições, abrindo mão das provocações estéticas, ele se reduz a tão-somente um eficiente criador de música pop. Mas ainda com bastante farinha no saco: Fogo de Palha é aquilo, Navegadora é baladona no estilo Certas Coisas (1984), Paraíso Perdido começa com guitarra George Benson On Broadway e se transforma em pop dance de salão, Nau dos Insensatos é um clone de Respeito (1984). Os caminhos que Lulu abriu a facão (muitas vezes sob pesadas críticas) no mato das vinhetas pop, da selva eletrônica, do rockinho oitentista e do sambalanço parece que deram num beco. Calendário está congestionado de autocitações.

     Mas Lulu reage com humor a essa falta de horizontes: Brasil Legal começa soando como Aquarela do Brasil para logo em seguida ganhar uma guitarra havaiana e vocaizinhos de chica-bum/chica-bum. Shani é a única instrumental, com Lulu solando uma guitarra travada, com notas repetidas, uma paródia dos heróis da guitarra que ele, não adianta negar, um dia já foi. Mas é como dizia um compositor: "A vida vem em ondas como um mar / Num indo-e-vindo infinito". Lulu parece estar reunindo fôlego para o próximo mergulho.