TRAGÉDIA

Choque de ônibus mata 42 pessoas

Dos mortos 40 eram turistas argentinos e dois brasileiros. Cerca de 50 pessoas ficaram feridas

CARLOS ALBERTO DE SOUZA
Agência Folha - Porto Alegre

Um acidente ocorrido por volta das 5h30 de ontem, no km 196 da BR-470, em Pouso Redondo (SC), provocou a morte de pelo menos 42 pessoas, das quais 40 turistas argentinos da província (Estado) de Tucumán que viajavam para o Balneário Camboriú.

Cerca de 50 pessoas ficaram feridas, algumas com gravidade, e receberam atendimento em hospitais de Rio do Sul, Lages, Curitibanos e Pouso Redondo.

Envolveram-se no acidente, principalmente, um ônibus de dois andares da empresa Gimenez, da Argentina, e um ônibus da empresa Reunidas, de Santa Catarina, cujo motorista, João Campos, e um passageiro morreram.

O acidente, em um trecho sinuoso conhecido como Serra da Santa, deve ter sido causado, segundo a polícia, por excesso de velocidade do ônibus argentino, que estaria entre 80 km/h e 100 km/h, enquanto a velocidade exigida no local é de 40 km/h.

O motorista do ônibus de dois andares, Jaime Victor Hugo, 26, que foi internado no Hospital Regional de Rio do Sul, disse que tentou desviar de um carro que vinha na contramão.

Havia cerração de madrugada e isso pode ter contribuído para a colisão, que envolveu, com menor gravidade, um microônibus, também da empresa Gimenez, uma van e duas carretas.

O ônibus de dois andares, transportando 52 passageiros, teria tentado fazer um ultrapassagem, mas, provavelmente porque o motorista perdeu o controle da direção, capotou e deslizou de lado na pista.

O ônibus da Reunidas, com 32 ocupantes, viajava no sentido contrário -ia de Florianópolis para São Miguel do Oeste- e bateu de frente no ônibus argentino. A direção da Reunidas disse acreditar que houve imprudência da parte do motorista argentino.

O sargento PM Adilson Panek, que trabalhou no resgate dos corpos, disse que o ônibus de dois andares foi "dividido ao meio" e que alguns dos mortos tiveram a cabeça decepada e o corpo dilacerado. "Foi um quadro de horror", declarou.

O consulado da Argentina na capital catarinense não contestou a versão dominante sobre as causas do acidente e disse que sua preocupação é com as vítimas, deixando a apuração do caso ao encargo da polícia.

A BR-470, sob administração do governo catarinense, de acordo com o Ministério dos Transportes, encontra-se em boas condições, para os padrões brasileiros, tendo sofrido uma recapagem há poucos meses. A assessoria do governo do Estado disse que a concessão da rodovia está pendente no Tribunal de Contas.

O trânsito na BR-470 ficou totalmente interrompido durante a maior parte da manhã. O engarrafamento chegou a 14 km de comprimento.

O governador de Santa Catarina, Esperidião Amin (PPB), que classificou o acidente de "pior desgraça rodoviária já acontecida" no Estado, recebeu telefonema do presidente Fernando Henrique Cardoso e de outras autoridades federais.

Amin foi levar solidariedade aos feridos internados no Hospital Regional de Rio do Sul. Ele mobilizou todos órgãos do seu governo em torno do acidente, especialmente as secretarias de Segurança, Integração ao Mercosul e Saúde.

Um avião destacado pelo governo da Argentina chegou às 21h de ontem a Florianópolis com parentes das vítimas para a identificação e liberação dos corpos. Um Hércules da FAB, colocado à disposição dos argentinos pelo governo brasileiro, desceu à tarde no aeroporto de Navegantes.

Os corpos estavam no IML (Instituto Médico Legal) em Rio do Sul. A temperatura na cidade era de 35º C e foi preciso buscar gelo para evitar a putrefação rápida. O consulado disse que não havia previsão de horário para a liberação dos nomes dos mortos.


Sobreviventes contam como tudo aconteceu

WAGNER OLIVEIRA
Agência Folha - Rio do Sul

A turista argentina Dolores Salsedo Deviruel, 38, ainda não tinha sido informada na tarde de ontem pela direção do Hospital Regional de Rio do Sul (SC) que ela havia perdido três filhos e o sobrinho no acidente. Ela passaria férias com o filho no litoral catarinense.

Provavelmente, ela escapou com vida por estar sentada com a filha, Maria Augusta, 10, na última fileira de poltronas do ônibus, que tinha capacidade para 54 passageiros e saiu no domingo pela manhã da Província de San Miguel de Tucuman, na Argentina.

Os outros três filhos dela, Maria Constança, 15, José Luiz, 11, e Bernardo 13, e o sobrinho, Luiz Moreno, 15, sentados três fileiras de poltronas à frente da sua, não sobreviveram. Os corpos dos quatro adolescentes estavam no IML (Insituto Médico Legal) de Rio do Sul.

A direção do hospital estava aguardando que a algum parente da turista chegasse na cidade ou que ela se recuperasse do efeito de medicamentos para lhe informar sobre a morte dos três filhos e do sobrinho.

Mãe e filha estavam internadas em um mesmo quarto no final da tarde de ontem. "Estava dormindo na hora da colisão. Quando acordei, senti dores e vi sangue pelo corpo. Gritei por socorro. Mas eram muitos os feridos e os caminhoneiros, os primeiros a chegar, ajudavam as pessoas que estavam mais perto deles. Até que alguém chegou e me pegou nos braços", disse Dolores, que teve cortes no rosto e ombro.

A turista disse que os argentinos ficaram um dia em Foz do Iguaçu (PR), antes de se deslocarem para Santa Catarina, onde iriam para a cidade litorânea Balneário Camboriú. "Estava indo tão bem e, de repente, acontece essa desgraça. Só quero saber como estão meus outros filhos", disse, ainda sem saber do pior.

O agricultor Marcos Borgeti, 31, chorava no Hospital Regional. No mesmo quarto, estavam internados ele, a mulher, Algorete Giotto, 33, e os filhos, Mateus Giotto, 8, e o bebê Marcelo, 1. Todos com muitos cortes e hematomas pelo corpo.

"Eu não sei como todos nós conseguimos sobreviver. Só pode ter sido por um milagre", dizia. A única que se feriu mais gravemente foi Algorete Giotto, que é professora e teve o braço esquerdo fraturado.

O agricultor, que passava férias com a família e em Itapema (SC), estava no ônibus da Reunidas voltando para casa. Ele estava na poltrona de número 6 e a mulher e o filho mais novo nos assentos 1 e 2, a parte mais atingida do ônibus no choque.

"Quando acordei estava sozinho e só ouvia gritos. Fiquei desesperado, só pensando na minha família, quando o meu filho mais velho, o Mateus, me puxou pelo braço. Ele se livrou sozinho das ferragens e se agarrou em mim", disse.

"Só encontrei meu marido e o filho mais velho aqui no hospital. O bebê estava no colo de uma mulher chorando. Só me lembro desta cena. Eu sou grata a Deus porque já fiquei sabendo que são 41 mortos e nós podíamos estar entre eles", afirmou a professora. Apesar dos ferimentos, toda a família passava bem e não corria risco de morte.

"Faça-me o favor. Publique meu nome no seu jornal e avise que sobrevivi e estou muito bem", pediu o argentino Franscico De Manes, que estava viajando no microônibus argentino que também se envolveu no acidente.


"Estrada tem boas condições"

ANDRÉ SOLIANI
Agência Folha - Brasília

O Ministério dos Transportes divulgou uma nota comunicando que o trecho da BR-470 no qual aconteceu o acidente que matou 41 pessoas, em Santa Catarina, estava em boas condições.

Baseado em relatório do DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), a nota afirma que a pavimentação e a sinalização eram adequadas. Segundo o documento, no trecho em questão havia placas alertando para curvas perigosas, para a necessidade de redução de velocidade e ocorrência de neblinas.

Segundo o Ministério dos Transportes, a manutenção da estrada é de responsabilidade do Estado de Santa Catarina, que recebeu a concessão do Governo Federal, em dezembro de 98.

O Ministério da Defesa, por intermédio do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, disponibilizou aviões da Aeronáutica para o transporte dos corpos das vítimas, segundo a nota.


CAMPANHA

Maiores de 60 serão vacinados

Agência Folha - Brasília

O Ministério da Saúde vacinará contra a gripe 14 milhões de pessoas a partir de 60 anos -5 milhões a mais do que havia vacinado no ano passado. A campanha nacional de vacinação, que será feita em abril, irá atender a população idosa, pacientes renais crônicos, diabéticos e portadores de doença pulmonar crônica. A Fundação Nacional de Saúde afirma que a vacinação gratuita só atenderá idosos e portadores de doenças crônicas porque eles são o grupo mais vulnerável, além de ser essa a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde).

A vacina contra a gripe não faz parte do esquema básico de imunização, como a do sarampo, porque não evita que ocorra a doença. "O que ela faz é reduzir a probabilidade da ocorrência de complicações. Não há garantia de que ela imuniza 100%, como no sarampo ou na pólio", diz Jarbas Barbosa, diretor do Cenepi (Centro Nacional de Epidemiologia).

Outra limitação da vacina contra a gripe é que ela não garante uma imunidade duradoura, exigindo que a pessoa seja vacinada anualmente. "A ação da vacina dura pouco e, além disso, como o vírus está em constante mutação é preciso modificá-la anualmente."

O diretor do Cenepi afirma que a campanha de vacinação de idosos é suficiente para evitar que o Brasil sofra epidemia semelhante à que está sendo enfrentada na Europa.

"Os países que estão sofrendo mais com essa epidemia de gripe tiveram uma cobertura vacinal muito baixa.


CONGRESSO

Governo prepara um novo projeto para limitar MPs

DENISE MADUENO
e WILLIAM FANÇA
Agência Folha - Brasília

O governo vai elaborar uma nova proposta de emenda constitucional para limitar o uso de medidas provisórias. O projeto servirá de base para a negociação com os partidos que apóiam o presidente Fernando Henrique Cardoso para substituir o projeto já aprovado pelo Senado, mas que não agrada o presidente.

Ontem, o governo conseguiu atrasar em uma semana a votação do projeto na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, primeira etapa de tramitação da proposta.

O PSDB pediu tempo para analisar o parecer do deputado Paulo Magalhães (PFL-BA) -sobrinho do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA)-, favorável ao projeto.

FHC fez uma alusão ao projeto das MPs em discurso ontem, no qual afirmou que "não se podem resolver as questões e conflitos de forma impositiva" e que "as divergências de opinião não podem obstaculizar as soluções necessárias para o país avançar".

Embora não tenha citado explicitamente a discussão que vem tendo com ACM a respeito da limitação do uso das MPs, FHC disse que é preciso "criar os instrumentos que canalizem as negociações e as possibilidades de um entendimento de maneira muito clara".

"Toda gente sabe que democracia não significa ausência de conflitos. Ela é o contrário: é uma opção racional e civilizada para a solução de conflitos. Uma sociedade como a nossa, que se moderniza, que está cada vez mais avançada, não pode acreditar que exista um Estado idílico em que não existam oposições, contradições, conflitos de interesses de classes e mesmo o dissenso. Agora, não se pode resolver essas questões de forma impositiva", afirmou FHC.

O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, confirmou a preparação do substitutivo e afirmou que o governo não abre mão de editar medidas provisórias sobre determinados temas, como legislação tributária e assuntos econômicos e monetários, por exemplo.

Segundo Arnaldo Madeira, o novo texto do governo deverá definir as situações nas quais o presidente poderá editar medidas provisórias, o tempo de duração delas e os procedimentos de votação pelo Congresso.

O governo também é contra o dispositivo que cria uma comissão permanente de deputados e senadores para avaliar as MPs.

O deputado Jutahy Júnior (BA), vice-líder do PSDB na Câmara, afirmou que o partido vai apresentar um voto conjunto contrário ao parecer do relator na próxima semana, quando deverá ser votado o projeto. Segundo ele, o governo teme que a comissão acabe tendo superpoderes dentro do Congresso.

"O projeto é a moralização do Poder Legislativo. Os que tentarem emperrar o projeto vão ficar marcados na história e não podem fazer parte desta Casa. Querem ficar na subserviência", afirmou Paulo Magalhães.


EX-DITADOR

Britânicos podem libertar Pinochet

Exames indicam que o general chileno Augusto Pinochet está sem condições de enfrentar um julgamento

REUTERS - Londres

O anúncio feito pela chancelaria britânica sobre a intenção de libertar o general Augusto Pinochet provocou reações favoráveis e desfavoráveis sobre a possível decisão. Pinochet foi detido em uma clínica de Londres em 16 de outubro de 1998, após o juiz espanhol Baltasar Garzón solicitar a sua extradição para julga-lo genocídio, terrorismo e torturas durante o regime militar (1973/1990).

Os médicos que examinaram o ex-ditador chileno Augusto Pinochet concluíram que ele não tem condições de ser submetido a julgamento. O Ministério do Interior disse que a conclusão "inequívoca e unânime" de uma junta de quatro médicos que examinou Pinochet em 5 de janeiro era de que o ex-general "se encontra incapacitado de assistir a julgamento e que não se pode esperar uma mudança dessa situação".

O comunicado acrescenta que "nas atuais circunstâncias", o ministro do Interior Jack Straw opinava que não deveria extraditar Pinochet, mas sim esperar "as representações", aparentemente das partes envolvidas no caso.

EDUARDO FREI - O presidente chileno, Eduardo Frei, anunciou ontem que o ex-ditador Augusto Pinochet vai enfrentar a ação dos tribunais se regressar ao Chile, liberado pelas autoridades britânicas depois de 15 meses de detenção em Londres.

Em sua primeira reação à decisão da Inglaterra, Frei afirmou que "são os tribunais de justiça do país que devem se pronunciar a respeito do caso". Pinochet enfrenta no Chile 55 denúncias que o responsabilizam por assassinatos, torturas e o desaparecimento de 1.198 opositores à ditadura que chefiou entre 1973 e 1990.

"Os juízes têm a independência e a faculdade para levar adiante sua tarefa", assinalou Frei, falando no palácio presidencial de La Moneda. Depois da detenção de Pinochet em Londres, a 16 de outubro de 1998, o governo de Frei defendeu sua liberação e ignorou a autoridade da justiça espanhola que pediu sua extradição.

Ao fracassar a via jurídica, quando o juiz britânico Ronald Bartle acolheu a extradição a 8 de outubro passado, a chancelaria chilena invocou razões humanitárias para interromper o processo, baseando-se na deterioração da saúde de Pinochet, com 84 anos.

PROTESTOS - Centenas de parentes de vítimas da ditadura chilena (1973-1990) se concentraram ontem diante do palácio presidencial de La Moneda para protestar contra a provável repatriação do general Augusto Pinochet e expressar sua ira contra a atitude do governo do presidente Eduardo Frei de negociar a libertação do ex-ditador.

"Em la Moneda a primeira coisa que se vê são os maus governantes que defendem Pinochet" ou "que vergonha, que horror, Frei defende o ditador", gritavam os manifestantes convocados por grupos de familiares de presos desaparecidos, de políticos executados e de ex-presos políticos.

Ricardo Muñoz, dirigente do Grupo de Presos Desaparecidos, disse que sua organização está em estado de alerta desde o anúncio anteontem da intenção do governo britânico de libertar Pinochet por motivos de saúde.

"Vamos empregar todos os esforços possíveis para impedir que Pinochet regresse ao Chile antes de se apresentar ao juiz espanhol Baltasar Garzón", explicou Muñoz, qwue teve um irmão, Julio, desaparecido em 1987.


Thatcher comemora a possível libertação de general chileno

REUTERS - Londres

A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher comemorou ontem à noite o anúncio de que o ministro britânico do Interior, Jack Straw, estaria disposto a libertar o general chileno Augusto Pinochet. "Confio na decisão do ministro do Interior. É um homem muito justo", declarou Thatcher, que sempre defendeu a libertação de Pinochet.

O ex-ministro conservador das Finanças, Lord Lamont, manifestou a sua satisfação com a decisão, mas estimou que ela "chega muito tarde".

"Se Jack Straw decidiu realmente suspender a extradição do general Pinochet, é uma boa notícia, mas que chega muito tarde".

Para Helen Bamber, diretora da Fundação pelas Vítimas da Tortura, "qualquer decisão de Jack Straw sobre a libertação de Pinochet por razões de saúde deve ser submetida a um novo exame".

Carlos Reyes, porta-voz dos chilenos no exílio, ficou "surpreso com a decisão que deixará este criminoso a ponto de escapar da justiça (....) Vamos apresentar uma apelação urgente a Jack Straw".


Espanha não recorrerá da decisão britânica

REUTERS - Madri

A Espanha não deverá recorrer da decisão britânica de libertar por motivos de saúde o ex-ditador chileno Augusto Pinochet. O ministro espanhol Maraino Rajoy disse ontem de manhã que "não seria normal recorrer. Tínhamos aceitado a decisão de Garzon (juiz espanhol que pediu a extradição do general para a Espanha) e transmitido o pedido de extradição. Agora aceitamos a decisão do governo britânico".

Anteontem à noite, o ministério do Exterior espanhol divulgou um breve comunicado dizendo que a intenção da Espanha era "respeitar a decisão do governo britânico". Porém, o advogado de acusação, Enrique Santiago, anunciou que pedirá um novo exame médico e convidará o juiz Baltazar Garzon - que ainda não pronunciou sobre a decisão - a apresentar um novo recurso.

A advogada dos familiares das vítimas francesas desaparecidas no Chile e na Argentina, Sophie Thonon-Wesfreid, pediu ao governo francês que se oponha à libertação do general, argumentando que o julgamento é uma exigência da justiça, inadmissível de ser paralisada por motivo de política eleitoral chilena".

Imediatamente após o anúncio da possível libertação de Pinochet, o presidente chileno, Eduardo Frei, reuniu-se com ministros para analisar o caso. O Chile realiza domingo o segundo turno da eleição presidencial, e não se sabe o impacto que a decisão britânica terá entre os eleitores.


Exilados chilenos exigem a publicação de laudo médico

REUTERS - Londres

Um grupo de refugiados chilenos em Londres demonstrou cólera e indignação ontem com a disposição do ministro do Interior, Jack Straw, de libertar o ex-ditador chileno Augusto Pinochet baseando-se num laudo médico secreto. E exigiram a publicação desse relatório.

As organizações de parentes dos desaparecidos políticos mobilizaram 20 militantes na entrada da Câmara dos Comuns, onde Straw informou aos deputados sobre o caso Pinochet, e proferiram palavras de ordem: "Não deixem que o assassino vá embora!" e "Exigimos justiça!".

Com cartazes, bandeiras e retratos ampliados das vítimas, os chilenos de Londres exigiram a publicação das conclusões dos médicos. Para Jimmy Bell, do Comitê contra a impunidade, só problemas mentais poderiam impedir o ex-ditador de enfrentar um julgamento. "Se está verdadeiramente enfermo, por que escondem o laudo?"

Ao governo britânico, que defende o direito à privacidade de Pincohet para não tornar público o documento, Bell respondeu com veemência: "O que foi feito da privacidade dos desaparecidos, de sua saúde, de sua vida?"

A litania dos males dos quais Pinochet sofreria não comoveu os opositores. "Nós, os refugiados, dissemos a Straw: não permita a fuga do assassino. Muitos estão em cadeiras de rodas", disse Ana María Pelusa, tentando manter sua bandeirola firme ante o forte e gelado vento.

"Vou explicar para vocês: a doença dele não passa de uma alergia à justiça", disse outra; "ele pode enfrentar um julgamento porque está bem mentalmente, e isso é o que importa".

O porta-voz da organização Chile Democrático, Carlos Reyes, confirmou que os grupos de exilados "contestarão a decisão de Straw por todos os meios possíveis, assim como sua intenção de manter o laudo em segredo".


CHECHÊNIA

Militares russos dizem ter reiniciado outra ofensiva

REUTERS - Moscou

As forças russas retomaram a ofensiva na Chechênia, conquistando estratégicas colinas próximas a uma base rebelde no sul e rechaçando uma tentativa dos guerrilheiros de fugir da capital, Grozny, informaram fontes militares da Rússia.

Embora nos meses em que tentaram assumir o controle da Chechênia as forças russas tenham encontrado pouca resistência, nos últimos dias as tropas se viram na ofensiva, devido aos fortes contra-ataques dos militantes. Durante o fim de semana, por exemplo, os rebeldes atacaram de surpresa a cidade de Shali, bem como Argun e Gudermes.

Mas, os militares russos disseram ontem que mantêm total controle sobre as três cidades, depois de intensos ataques aéreos e de artilharia, e também penetraram mais profundamente na base guerrilheira nas montanhas do sul.


EUA

Justiça confirma retorno de Elián

REUTERS - Miami

A secretária de Justiça americana, Janet Reno, confirmou ontem a decisão do Serviço de Imigração e Naturalização (SIN) de devolver a Cuba o menino cubano Elián González, entendendo que o pai é o único representante legal da criança.

Em carta enviada aos advogados do tio de Elián, que por enquanto cuida do pequeno, Reno explicou que o tribunal local de Miami - que decidiu pela permanência do menino nos EUA - não tem competência para decidir sobre a questão. Segundo Reno, o assunto é de competência exclusiva dos tribunais federais.

O SIN decidiu que o pai de Elián, Juan Miguel González, é o único representante legal. "Nessas circunstâncias, o único caminho apropriado é respeitar a vontade do pai", disse Reno. Elián González, de seis anos, vem sendo o centro de uma batalha entre o pai, que vive em Cuba e parentes do menino em Miami, que contam com o apoio dos exilados cubanos.

Elián sobreviveu dia 25 de novembro passado ao naufrágio da embarcação em que estava, perto da Flórida, com 14 pessoas a bordo. Três morreram, entre elas a mãe e o padrasto do menino.

SUSPEITA

A juíza americana que concedeu a custódia temporária de Elián Gonzalez a seus parentes em Miami pagou, em 1998, US$ 10 mil a um dos principais arquitetos da campanha para que o garoto cubano fique nos Estados Unidos.

A revelação levantou dúvidas quanto à imparcialidade da juíza Rosa Rodriguez, que contrariou uma decisão do governo americano, para quem a custódia do garoto, de seis anos de idade, deveria ser concedida ao pai dele, que mora em Cuba.

Rodriguez, em uma sentença bastante criticada, determinou que Elián permaneça nos EUA ao menos até 6 de março.

Documentos sobre as movimentações financeiras de Rodriguez revelaram que a juíza realizou três pagamentos - de US$ 2,5 mil, US$ 3,5 mil e US$ 4 mil - ao escritório do consultor político Armando Gutierrez entre janeiro e julho de 1998.

Gutierrez tem estado entre os mais destacados defensores dos familiares de Elián em Miami, orquestrando uma intensa campanha publicitária envolvendo o garoto cubano. O estrategista político vem atuando como porta-voz da família que atualmente detém a custódia do menino.


PAPA

João Paulo II diz que não é velho

REUTERS - Vaticano

O papa João Paulo II, de 79 anos, disse ontem que "não é velho" durante uma audiência com Ernesto Olivero, líder de uma organização de jovens. Olivero teria parabenizado o papa "pela forma como encara a sua idade avançada", ao que João Paulo II respondeu: "Mas eu não sou velho".

O pontífice vem sendo objeto de especulações sobre uma possível renúncia do cargo em razão de seu estado de saúde.

No início da semana um bispo alemão causou uma enorme polêmica ao sugerir que João Paulo II, eleito em 1978, poderia se aposentar caso suas condições de saúde o impedissem de cumprir as funções de papa de forma apropriada.

Geralmente o papado é vitalício. O último papa a afastar-se do cargo foi Celestino V, que saiu em 1294. Gregório XII largou o papado a contragosto em 1415. A medida foi tomada para resolver uma disputa, pois na época havia mais de um papa no poder ao mesmo tempo.

VISITA - O papa João Paulo II fará uma visita oficial à Terra Santa de 20 a 26 de março, confirmou ontem oficialmente o Vaticano. A presidência do Conselho israelense havia anunciado em dezembro que a visita do papa à Terra Santa se realizaria de 21 a 26 de março, mas depois se desculpou pelo anúncio prematuro.


SAÚDE

O governo francês tenta diminuir abortos no país

FÁTIMA GIGLIOTTI
Agência Folha - Paris

O governo francês lançou anteontem uma campanha nacional de informação sobre a contracepção, a primeira realizada no país nos últimos 20 anos. Um dos principais objetivos é diminuir o alto número de abortos, 220 mil por ano, um dos mais altos índices entre os países da Europa.

A campanha foi lançada na semana em que a Lei Vein, que regularizou o aborto na França, completa 25 anos (a lei entrou em vigor em 15/1/75). O aborto é permitido até a décima semana de gravidez, para maiores de 18 anos. Menores podem fazer aborto desde que haja autorização dos pais.

Outro objetivo da campanha é diminuir o número de casos de gravidez indesejada entre as adolescentes francesas, cerca de 10 mil por ano, dos quais 6.500 terminam em aborto. Além disso, uma pesquisa realizada entre 97 e 98 pelo Comitê Francês de Educação para a Saúde concluiu que 87% das jovens francesas deixam de utilizar preservativos quando consideram seu relacionamento estável e confiam no parceiro.

É por isso que Martine Aubry, ministra do Trabalho e da Solidariedade, que coordena a campanha, afirma que irá abordar a contracepção como "um espaço de liberdade e de responsabilidade" e vai dirigir-se mais especificamente ao público jovem.

Os métodos de contracepção mais usados no país são a pílula anticoncepcional, o DIU (dispositivo intra-uterino), o preservativo masculino e a pílula do dia seguinte.

Segundo pesquisa realizada pelo Ined (Instituto Nacional de Estudos Demográficos), em 1994, 70,7% das mulheres entre 20 e 44 anos usavam pelo menos um método de contracepção. É um alto índice, mas indica que 29,3% das mulheres que não usam nenhum método contraceptivo. A campanha, além das jovens, visa esse atingir essa faixa da população.

A partir de ontem, e pelas próximas três semanas, TVs e rádios vão veicular informação sobre as várias formas de evitar a gravidez. Serão distribuídas ainda 12 milhões de unidades de um guia de bolso da contracepção, 5 milhões só em escolas.