| TRAGÉDIA Choque de ônibus mata 42 pessoas
Dos mortos 40 eram turistas argentinos e
dois brasileiros. Cerca de 50 pessoas ficaram feridas
CARLOS ALBERTO DE SOUZA
Agência Folha - Porto Alegre
Um acidente ocorrido por volta das 5h30 de ontem, no
km 196 da BR-470, em Pouso Redondo (SC), provocou a morte
de pelo menos 42 pessoas, das quais 40 turistas
argentinos da província (Estado) de Tucumán que
viajavam para o Balneário Camboriú.
Cerca de 50 pessoas ficaram feridas, algumas com
gravidade, e receberam atendimento em hospitais de Rio do
Sul, Lages, Curitibanos e Pouso Redondo.
Envolveram-se no acidente, principalmente, um ônibus
de dois andares da empresa Gimenez, da Argentina, e um
ônibus da empresa Reunidas, de Santa Catarina, cujo
motorista, João Campos, e um passageiro morreram.
O acidente, em um trecho sinuoso conhecido como Serra
da Santa, deve ter sido causado, segundo a polícia, por
excesso de velocidade do ônibus argentino, que estaria
entre 80 km/h e 100 km/h, enquanto a velocidade exigida
no local é de 40 km/h.
O motorista do ônibus de dois andares, Jaime Victor
Hugo, 26, que foi internado no Hospital Regional de Rio
do Sul, disse que tentou desviar de um carro que vinha na
contramão.
Havia cerração de madrugada e isso pode ter
contribuído para a colisão, que envolveu, com menor
gravidade, um microônibus, também da empresa Gimenez,
uma van e duas carretas.
O ônibus de dois andares, transportando 52
passageiros, teria tentado fazer um ultrapassagem, mas,
provavelmente porque o motorista perdeu o controle da
direção, capotou e deslizou de lado na pista.
O ônibus da Reunidas, com 32 ocupantes, viajava no
sentido contrário -ia de Florianópolis para São Miguel
do Oeste- e bateu de frente no ônibus argentino. A
direção da Reunidas disse acreditar que houve
imprudência da parte do motorista argentino.
O sargento PM Adilson Panek, que trabalhou no resgate
dos corpos, disse que o ônibus de dois andares foi
"dividido ao meio" e que alguns dos mortos
tiveram a cabeça decepada e o corpo dilacerado.
"Foi um quadro de horror", declarou.
O consulado da Argentina na capital catarinense não
contestou a versão dominante sobre as causas do acidente
e disse que sua preocupação é com as vítimas,
deixando a apuração do caso ao encargo da polícia.
A BR-470, sob administração do governo catarinense,
de acordo com o Ministério dos Transportes, encontra-se
em boas condições, para os padrões brasileiros, tendo
sofrido uma recapagem há poucos meses. A assessoria do
governo do Estado disse que a concessão da rodovia está
pendente no Tribunal de Contas.
O trânsito na BR-470 ficou totalmente interrompido
durante a maior parte da manhã. O engarrafamento chegou
a 14 km de comprimento.
O governador de Santa Catarina, Esperidião Amin
(PPB), que classificou o acidente de "pior desgraça
rodoviária já acontecida" no Estado, recebeu
telefonema do presidente Fernando Henrique Cardoso e de
outras autoridades federais.
Amin foi levar solidariedade aos feridos internados no
Hospital Regional de Rio do Sul. Ele mobilizou todos
órgãos do seu governo em torno do acidente,
especialmente as secretarias de Segurança, Integração
ao Mercosul e Saúde.
Um avião destacado pelo governo da Argentina chegou
às 21h de ontem a Florianópolis com parentes das
vítimas para a identificação e liberação dos corpos.
Um Hércules da FAB, colocado à disposição dos
argentinos pelo governo brasileiro, desceu à tarde no
aeroporto de Navegantes.
Os corpos estavam no IML (Instituto Médico Legal) em
Rio do Sul. A temperatura na cidade era de 35º C e foi
preciso buscar gelo para evitar a putrefação rápida. O
consulado disse que não havia previsão de horário para
a liberação dos nomes dos mortos.
Sobreviventes
contam como tudo aconteceu
WAGNER OLIVEIRA
Agência Folha - Rio do Sul
A turista argentina Dolores Salsedo Deviruel, 38,
ainda não tinha sido informada na tarde de ontem pela
direção do Hospital Regional de Rio do Sul (SC) que ela
havia perdido três filhos e o sobrinho no acidente. Ela
passaria férias com o filho no litoral catarinense.
Provavelmente, ela escapou com vida por estar sentada
com a filha, Maria Augusta, 10, na última fileira de
poltronas do ônibus, que tinha capacidade para 54
passageiros e saiu no domingo pela manhã da Província
de San Miguel de Tucuman, na Argentina.
Os outros três filhos dela, Maria Constança, 15,
José Luiz, 11, e Bernardo 13, e o sobrinho, Luiz Moreno,
15, sentados três fileiras de poltronas à frente da
sua, não sobreviveram. Os corpos dos quatro adolescentes
estavam no IML (Insituto Médico Legal) de Rio do Sul.
A direção do hospital estava aguardando que a algum
parente da turista chegasse na cidade ou que ela se
recuperasse do efeito de medicamentos para lhe informar
sobre a morte dos três filhos e do sobrinho.
Mãe e filha estavam internadas em um mesmo quarto no
final da tarde de ontem. "Estava dormindo na hora da
colisão. Quando acordei, senti dores e vi sangue pelo
corpo. Gritei por socorro. Mas eram muitos os feridos e
os caminhoneiros, os primeiros a chegar, ajudavam as
pessoas que estavam mais perto deles. Até que alguém
chegou e me pegou nos braços", disse Dolores, que
teve cortes no rosto e ombro.
A turista disse que os argentinos ficaram um dia em
Foz do Iguaçu (PR), antes de se deslocarem para Santa
Catarina, onde iriam para a cidade litorânea Balneário
Camboriú. "Estava indo tão bem e, de repente,
acontece essa desgraça. Só quero saber como estão meus
outros filhos", disse, ainda sem saber do pior.
O agricultor Marcos Borgeti, 31, chorava no Hospital
Regional. No mesmo quarto, estavam internados ele, a
mulher, Algorete Giotto, 33, e os filhos, Mateus Giotto,
8, e o bebê Marcelo, 1. Todos com muitos cortes e
hematomas pelo corpo.
"Eu não sei como todos nós conseguimos
sobreviver. Só pode ter sido por um milagre",
dizia. A única que se feriu mais gravemente foi Algorete
Giotto, que é professora e teve o braço esquerdo
fraturado.
O agricultor, que passava férias com a família e em
Itapema (SC), estava no ônibus da Reunidas voltando para
casa. Ele estava na poltrona de número 6 e a mulher e o
filho mais novo nos assentos 1 e 2, a parte mais atingida
do ônibus no choque.
"Quando acordei estava sozinho e só ouvia
gritos. Fiquei desesperado, só pensando na minha
família, quando o meu filho mais velho, o Mateus, me
puxou pelo braço. Ele se livrou sozinho das ferragens e
se agarrou em mim", disse.
"Só encontrei meu marido e o filho mais velho
aqui no hospital. O bebê estava no colo de uma mulher
chorando. Só me lembro desta cena. Eu sou grata a Deus
porque já fiquei sabendo que são 41 mortos e nós
podíamos estar entre eles", afirmou a professora.
Apesar dos ferimentos, toda a família passava bem e não
corria risco de morte.
"Faça-me o favor. Publique meu nome no seu
jornal e avise que sobrevivi e estou muito bem",
pediu o argentino Franscico De Manes, que estava viajando
no microônibus argentino que também se envolveu no
acidente.
"Estrada tem boas
condições"
ANDRÉ SOLIANI
Agência Folha - Brasília
O Ministério dos Transportes divulgou uma nota
comunicando que o trecho da BR-470 no qual aconteceu o
acidente que matou 41 pessoas, em Santa Catarina, estava
em boas condições.
Baseado em relatório do DNER (Departamento Nacional
de Estradas de Rodagem), a nota afirma que a
pavimentação e a sinalização eram adequadas. Segundo
o documento, no trecho em questão havia placas alertando
para curvas perigosas, para a necessidade de redução de
velocidade e ocorrência de neblinas.
Segundo o Ministério dos Transportes, a manutenção
da estrada é de responsabilidade do Estado de Santa
Catarina, que recebeu a concessão do Governo Federal, em
dezembro de 98.
O Ministério da Defesa, por intermédio do ministro
dos Transportes, Eliseu Padilha, disponibilizou aviões
da Aeronáutica para o transporte dos corpos das
vítimas, segundo a nota.
CAMPANHA
Maiores de 60 serão vacinados
Agência Folha -
Brasília
O Ministério da Saúde vacinará contra a gripe 14
milhões de pessoas a partir de 60 anos -5 milhões a
mais do que havia vacinado no ano passado. A campanha
nacional de vacinação, que será feita em abril, irá
atender a população idosa, pacientes renais crônicos,
diabéticos e portadores de doença pulmonar crônica. A
Fundação Nacional de Saúde afirma que a vacinação
gratuita só atenderá idosos e portadores de doenças
crônicas porque eles são o grupo mais vulnerável,
além de ser essa a recomendação da OMS (Organização
Mundial da Saúde).
A vacina contra a gripe não faz parte do esquema
básico de imunização, como a do sarampo, porque não
evita que ocorra a doença. "O que ela faz é
reduzir a probabilidade da ocorrência de complicações.
Não há garantia de que ela imuniza 100%, como no
sarampo ou na pólio", diz Jarbas Barbosa, diretor
do Cenepi (Centro Nacional de Epidemiologia).
Outra limitação da vacina contra a gripe é que ela
não garante uma imunidade duradoura, exigindo que a
pessoa seja vacinada anualmente. "A ação da vacina
dura pouco e, além disso, como o vírus está em
constante mutação é preciso modificá-la
anualmente."
O diretor do Cenepi afirma que a campanha de
vacinação de idosos é suficiente para evitar que o
Brasil sofra epidemia semelhante à que está sendo
enfrentada na Europa.
"Os países que estão sofrendo mais com essa
epidemia de gripe tiveram uma cobertura vacinal muito
baixa.
CONGRESSO
Governo prepara um novo projeto para
limitar MPs
DENISE MADUENO
e WILLIAM FANÇA
Agência Folha - Brasília
O governo vai elaborar uma nova proposta de emenda
constitucional para limitar o uso de medidas
provisórias. O projeto servirá de base para a
negociação com os partidos que apóiam o presidente
Fernando Henrique Cardoso para substituir o projeto já
aprovado pelo Senado, mas que não agrada o presidente.
Ontem, o governo conseguiu atrasar em uma semana a
votação do projeto na CCJ (Comissão de Constituição
e Justiça) da Câmara, primeira etapa de tramitação da
proposta.
O PSDB pediu tempo para analisar o parecer do deputado
Paulo Magalhães (PFL-BA) -sobrinho do presidente do
Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA)-, favorável
ao projeto.
FHC fez uma alusão ao projeto das MPs em discurso
ontem, no qual afirmou que "não se podem resolver
as questões e conflitos de forma impositiva" e que
"as divergências de opinião não podem
obstaculizar as soluções necessárias para o país
avançar".
Embora não tenha citado explicitamente a discussão
que vem tendo com ACM a respeito da limitação do uso
das MPs, FHC disse que é preciso "criar os
instrumentos que canalizem as negociações e as
possibilidades de um entendimento de maneira muito
clara".
"Toda gente sabe que democracia não significa
ausência de conflitos. Ela é o contrário: é uma
opção racional e civilizada para a solução de
conflitos. Uma sociedade como a nossa, que se moderniza,
que está cada vez mais avançada, não pode acreditar
que exista um Estado idílico em que não existam
oposições, contradições, conflitos de interesses de
classes e mesmo o dissenso. Agora, não se pode resolver
essas questões de forma impositiva", afirmou FHC.
O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente,
confirmou a preparação do substitutivo e afirmou que o
governo não abre mão de editar medidas provisórias
sobre determinados temas, como legislação tributária e
assuntos econômicos e monetários, por exemplo.
Segundo Arnaldo Madeira, o novo texto do governo
deverá definir as situações nas quais o presidente
poderá editar medidas provisórias, o tempo de duração
delas e os procedimentos de votação pelo Congresso.
O governo também é contra o dispositivo que cria uma
comissão permanente de deputados e senadores para
avaliar as MPs.
O deputado Jutahy Júnior (BA), vice-líder do PSDB na
Câmara, afirmou que o partido vai apresentar um voto
conjunto contrário ao parecer do relator na próxima
semana, quando deverá ser votado o projeto. Segundo ele,
o governo teme que a comissão acabe tendo superpoderes
dentro do Congresso.
"O projeto é a moralização do Poder
Legislativo. Os que tentarem emperrar o projeto vão
ficar marcados na história e não podem fazer parte
desta Casa. Querem ficar na subserviência", afirmou
Paulo Magalhães.
EX-DITADOR
Britânicos podem libertar Pinochet
Exames indicam que o general chileno
Augusto Pinochet está sem condições de enfrentar um
julgamento
REUTERS - Londres
O anúncio feito pela chancelaria britânica sobre a
intenção de libertar o general Augusto Pinochet
provocou reações favoráveis e desfavoráveis sobre a
possível decisão. Pinochet foi detido em uma clínica
de Londres em 16 de outubro de 1998, após o juiz
espanhol Baltasar Garzón solicitar a sua extradição
para julga-lo genocídio, terrorismo e torturas durante o
regime militar (1973/1990).
Os médicos que examinaram o ex-ditador chileno
Augusto Pinochet concluíram que ele não tem condições
de ser submetido a julgamento. O Ministério do Interior
disse que a conclusão "inequívoca e unânime"
de uma junta de quatro médicos que examinou Pinochet em
5 de janeiro era de que o ex-general "se encontra
incapacitado de assistir a julgamento e que não se pode
esperar uma mudança dessa situação".
O comunicado acrescenta que "nas atuais
circunstâncias", o ministro do Interior Jack Straw
opinava que não deveria extraditar Pinochet, mas sim
esperar "as representações", aparentemente
das partes envolvidas no caso.
EDUARDO FREI - O presidente chileno, Eduardo Frei,
anunciou ontem que o ex-ditador Augusto Pinochet vai
enfrentar a ação dos tribunais se regressar ao Chile,
liberado pelas autoridades britânicas depois de 15 meses
de detenção em Londres.
Em sua primeira reação à decisão da Inglaterra,
Frei afirmou que "são os tribunais de justiça do
país que devem se pronunciar a respeito do caso".
Pinochet enfrenta no Chile 55 denúncias que o
responsabilizam por assassinatos, torturas e o
desaparecimento de 1.198 opositores à ditadura que
chefiou entre 1973 e 1990.
"Os juízes têm a independência e a faculdade
para levar adiante sua tarefa", assinalou Frei,
falando no palácio presidencial de La Moneda. Depois da
detenção de Pinochet em Londres, a 16 de outubro de
1998, o governo de Frei defendeu sua liberação e
ignorou a autoridade da justiça espanhola que pediu sua
extradição.
Ao fracassar a via jurídica, quando o juiz britânico
Ronald Bartle acolheu a extradição a 8 de outubro
passado, a chancelaria chilena invocou razões
humanitárias para interromper o processo, baseando-se na
deterioração da saúde de Pinochet, com 84 anos.
PROTESTOS - Centenas de parentes de vítimas da
ditadura chilena (1973-1990) se concentraram ontem diante
do palácio presidencial de La Moneda para protestar
contra a provável repatriação do general Augusto
Pinochet e expressar sua ira contra a atitude do governo
do presidente Eduardo Frei de negociar a libertação do
ex-ditador.
"Em la Moneda a primeira coisa que se vê são os
maus governantes que defendem Pinochet" ou "que
vergonha, que horror, Frei defende o ditador",
gritavam os manifestantes convocados por grupos de
familiares de presos desaparecidos, de políticos
executados e de ex-presos políticos.
Ricardo Muñoz, dirigente do Grupo de Presos
Desaparecidos, disse que sua organização está em
estado de alerta desde o anúncio anteontem da intenção
do governo britânico de libertar Pinochet por motivos de
saúde.
"Vamos empregar todos os esforços possíveis
para impedir que Pinochet regresse ao Chile antes de se
apresentar ao juiz espanhol Baltasar Garzón",
explicou Muñoz, qwue teve um irmão, Julio, desaparecido
em 1987.
Thatcher comemora a possível
libertação de general chileno
REUTERS - Londres
A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher
comemorou ontem à noite o anúncio de que o ministro
britânico do Interior, Jack Straw, estaria disposto a
libertar o general chileno Augusto Pinochet. "Confio
na decisão do ministro do Interior. É um homem muito
justo", declarou Thatcher, que sempre defendeu a
libertação de Pinochet.
O ex-ministro conservador das Finanças, Lord Lamont,
manifestou a sua satisfação com a decisão, mas estimou
que ela "chega muito tarde".
"Se Jack Straw decidiu realmente suspender a
extradição do general Pinochet, é uma boa notícia,
mas que chega muito tarde".
Para Helen Bamber, diretora da Fundação pelas
Vítimas da Tortura, "qualquer decisão de Jack
Straw sobre a libertação de Pinochet por razões de
saúde deve ser submetida a um novo exame".
Carlos Reyes, porta-voz dos chilenos no exílio, ficou
"surpreso com a decisão que deixará este criminoso
a ponto de escapar da justiça (....) Vamos apresentar
uma apelação urgente a Jack Straw".
Espanha
não recorrerá da decisão britânica
REUTERS - Madri
A Espanha não deverá recorrer da decisão britânica
de libertar por motivos de saúde o ex-ditador chileno
Augusto Pinochet. O ministro espanhol Maraino Rajoy disse
ontem de manhã que "não seria normal recorrer.
Tínhamos aceitado a decisão de Garzon (juiz espanhol
que pediu a extradição do general para a Espanha) e
transmitido o pedido de extradição. Agora aceitamos a
decisão do governo britânico".
Anteontem à noite, o ministério do Exterior espanhol
divulgou um breve comunicado dizendo que a intenção da
Espanha era "respeitar a decisão do governo
britânico". Porém, o advogado de acusação,
Enrique Santiago, anunciou que pedirá um novo exame
médico e convidará o juiz Baltazar Garzon - que ainda
não pronunciou sobre a decisão - a apresentar um novo
recurso.
A advogada dos familiares das vítimas francesas
desaparecidas no Chile e na Argentina, Sophie
Thonon-Wesfreid, pediu ao governo francês que se oponha
à libertação do general, argumentando que o julgamento
é uma exigência da justiça, inadmissível de ser
paralisada por motivo de política eleitoral
chilena".
Imediatamente após o anúncio da possível
libertação de Pinochet, o presidente chileno, Eduardo
Frei, reuniu-se com ministros para analisar o caso. O
Chile realiza domingo o segundo turno da eleição
presidencial, e não se sabe o impacto que a decisão
britânica terá entre os eleitores.
Exilados
chilenos exigem a publicação de laudo médico
REUTERS - Londres
Um grupo de refugiados chilenos em Londres demonstrou
cólera e indignação ontem com a disposição do
ministro do Interior, Jack Straw, de libertar o
ex-ditador chileno Augusto Pinochet baseando-se num laudo
médico secreto. E exigiram a publicação desse
relatório.
As organizações de parentes dos desaparecidos
políticos mobilizaram 20 militantes na entrada da
Câmara dos Comuns, onde Straw informou aos deputados
sobre o caso Pinochet, e proferiram palavras de ordem:
"Não deixem que o assassino vá embora!" e
"Exigimos justiça!".
Com cartazes, bandeiras e retratos ampliados das
vítimas, os chilenos de Londres exigiram a publicação
das conclusões dos médicos. Para Jimmy Bell, do Comitê
contra a impunidade, só problemas mentais poderiam
impedir o ex-ditador de enfrentar um julgamento. "Se
está verdadeiramente enfermo, por que escondem o
laudo?"
Ao governo britânico, que defende o direito à
privacidade de Pincohet para não tornar público o
documento, Bell respondeu com veemência: "O que foi
feito da privacidade dos desaparecidos, de sua saúde, de
sua vida?"
A litania dos males dos quais Pinochet sofreria não
comoveu os opositores. "Nós, os refugiados,
dissemos a Straw: não permita a fuga do assassino.
Muitos estão em cadeiras de rodas", disse Ana
María Pelusa, tentando manter sua bandeirola firme ante
o forte e gelado vento.
"Vou explicar para vocês: a doença dele não
passa de uma alergia à justiça", disse outra;
"ele pode enfrentar um julgamento porque está bem
mentalmente, e isso é o que importa".
O porta-voz da organização Chile Democrático,
Carlos Reyes, confirmou que os grupos de exilados
"contestarão a decisão de Straw por todos os meios
possíveis, assim como sua intenção de manter o laudo
em segredo".
CHECHÊNIA
Militares russos dizem ter reiniciado
outra ofensiva
REUTERS - Moscou
As forças russas retomaram a ofensiva na Chechênia,
conquistando estratégicas colinas próximas a uma base
rebelde no sul e rechaçando uma tentativa dos
guerrilheiros de fugir da capital, Grozny, informaram
fontes militares da Rússia.
Embora nos meses em que tentaram assumir o controle da
Chechênia as forças russas tenham encontrado pouca
resistência, nos últimos dias as tropas se viram na
ofensiva, devido aos fortes contra-ataques dos
militantes. Durante o fim de semana, por exemplo, os
rebeldes atacaram de surpresa a cidade de Shali, bem como
Argun e Gudermes.
Mas, os militares russos disseram ontem que mantêm
total controle sobre as três cidades, depois de intensos
ataques aéreos e de artilharia, e também penetraram
mais profundamente na base guerrilheira nas montanhas do
sul.
EUA
Justiça confirma retorno de Elián
REUTERS - Miami
A secretária de Justiça americana, Janet Reno,
confirmou ontem a decisão do Serviço de Imigração e
Naturalização (SIN) de devolver a Cuba o menino cubano
Elián González, entendendo que o pai é o único
representante legal da criança.
Em carta enviada aos advogados do tio de Elián, que
por enquanto cuida do pequeno, Reno explicou que o
tribunal local de Miami - que decidiu pela permanência
do menino nos EUA - não tem competência para decidir
sobre a questão. Segundo Reno, o assunto é de
competência exclusiva dos tribunais federais.
O SIN decidiu que o pai de Elián, Juan Miguel
González, é o único representante legal. "Nessas
circunstâncias, o único caminho apropriado é respeitar
a vontade do pai", disse Reno. Elián González, de
seis anos, vem sendo o centro de uma batalha entre o pai,
que vive em Cuba e parentes do menino em Miami, que
contam com o apoio dos exilados cubanos.
Elián sobreviveu dia 25 de novembro passado ao
naufrágio da embarcação em que estava, perto da
Flórida, com 14 pessoas a bordo. Três morreram, entre
elas a mãe e o padrasto do menino.
SUSPEITA
A juíza americana que concedeu a custódia
temporária de Elián Gonzalez a seus parentes em Miami
pagou, em 1998, US$ 10 mil a um dos principais arquitetos
da campanha para que o garoto cubano fique nos Estados
Unidos.
A revelação levantou dúvidas quanto à
imparcialidade da juíza Rosa Rodriguez, que contrariou
uma decisão do governo americano, para quem a custódia
do garoto, de seis anos de idade, deveria ser concedida
ao pai dele, que mora em Cuba.
Rodriguez, em uma sentença bastante criticada,
determinou que Elián permaneça nos EUA ao menos até 6
de março.
Documentos sobre as movimentações financeiras de
Rodriguez revelaram que a juíza realizou três
pagamentos - de US$ 2,5 mil, US$ 3,5 mil e US$ 4 mil - ao
escritório do consultor político Armando Gutierrez
entre janeiro e julho de 1998.
Gutierrez tem estado entre os mais destacados
defensores dos familiares de Elián em Miami,
orquestrando uma intensa campanha publicitária
envolvendo o garoto cubano. O estrategista político vem
atuando como porta-voz da família que atualmente detém
a custódia do menino.
PAPA
João Paulo II diz que não é velho
REUTERS - Vaticano
O papa João Paulo II, de 79 anos, disse ontem que
"não é velho" durante uma audiência com
Ernesto Olivero, líder de uma organização de jovens.
Olivero teria parabenizado o papa "pela forma como
encara a sua idade avançada", ao que João Paulo II
respondeu: "Mas eu não sou velho".
O pontífice vem sendo objeto de especulações sobre
uma possível renúncia do cargo em razão de seu estado
de saúde.
No início da semana um bispo alemão causou uma
enorme polêmica ao sugerir que João Paulo II, eleito em
1978, poderia se aposentar caso suas condições de
saúde o impedissem de cumprir as funções de papa de
forma apropriada.
Geralmente o papado é vitalício. O último papa a
afastar-se do cargo foi Celestino V, que saiu em 1294.
Gregório XII largou o papado a contragosto em 1415. A
medida foi tomada para resolver uma disputa, pois na
época havia mais de um papa no poder ao mesmo tempo.
VISITA - O papa João Paulo II fará uma visita
oficial à Terra Santa de 20 a 26 de março, confirmou
ontem oficialmente o Vaticano. A presidência do Conselho
israelense havia anunciado em dezembro que a visita do
papa à Terra Santa se realizaria de 21 a 26 de março,
mas depois se desculpou pelo anúncio prematuro.
SAÚDE
O governo francês tenta diminuir
abortos no país
FÁTIMA GIGLIOTTI
Agência Folha - Paris
O governo francês lançou anteontem uma campanha
nacional de informação sobre a contracepção, a
primeira realizada no país nos últimos 20 anos. Um dos
principais objetivos é diminuir o alto número de
abortos, 220 mil por ano, um dos mais altos índices
entre os países da Europa.
A campanha foi lançada na semana em que a Lei Vein,
que regularizou o aborto na França, completa 25 anos (a
lei entrou em vigor em 15/1/75). O aborto é permitido
até a décima semana de gravidez, para maiores de 18
anos. Menores podem fazer aborto desde que haja
autorização dos pais.
Outro objetivo da campanha é diminuir o número de
casos de gravidez indesejada entre as adolescentes
francesas, cerca de 10 mil por ano, dos quais 6.500
terminam em aborto. Além disso, uma pesquisa realizada
entre 97 e 98 pelo Comitê Francês de Educação para a
Saúde concluiu que 87% das jovens francesas deixam de
utilizar preservativos quando consideram seu
relacionamento estável e confiam no parceiro.
É por isso que Martine Aubry, ministra do Trabalho e
da Solidariedade, que coordena a campanha, afirma que
irá abordar a contracepção como "um espaço de
liberdade e de responsabilidade" e vai dirigir-se
mais especificamente ao público jovem.
Os métodos de contracepção mais usados no país
são a pílula anticoncepcional, o DIU (dispositivo
intra-uterino), o preservativo masculino e a pílula do
dia seguinte.
Segundo pesquisa realizada pelo Ined (Instituto
Nacional de Estudos Demográficos), em 1994, 70,7% das
mulheres entre 20 e 44 anos usavam pelo menos um método
de contracepção. É um alto índice, mas indica que
29,3% das mulheres que não usam nenhum método
contraceptivo. A campanha, além das jovens, visa esse
atingir essa faixa da população.
A partir de ontem, e pelas próximas três semanas,
TVs e rádios vão veicular informação sobre as várias
formas de evitar a gravidez. Serão distribuídas ainda
12 milhões de unidades de um guia de bolso da
contracepção, 5 milhões só em escolas.
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