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Cuiabá MT, Sábado, 25 de Junho de 2022

AMBIENTE
Terça-feira, 13 de Abril de 2021, 07h:35

DEPOIS DAS QUEIMADAS

Rodovia Transpantaneira revela agonia do Pantanal de Mato Grosso

Município mais atingido pelos grandes incêndios em 2020, Poconé sofre agressão ambiental com a poluição das águas

EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Eduardo Gomes
“Aqui acabou, xô mano!”, diz fiscal Osvair Miranda, da Sema-MT, na entrada da Rodovia Transpantaneira

“Aqui acabou, xô mano!”.

Nessa curta definição, no mais puro linguajar pantaneiro personificado pelo falar cuiabano, o fiscal Osvair Miranda, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema),  resume a movimentação de veículos na Transpantaneira e a redução das chuvas às margens da rodovia.

Lotado no posto fiscal da Sema, no Km 17, Miranda e seus colegas monitoram o quantitativo e o perfil dos que cruzam o portal de entrada ao Pantanal.

Mais que uma rodovia, a Transpantaneira é a melhor maneira para observar mudanças ocorridas no Pantanal nos últimos anos, e que, no pior dos cenários, poderia resultar em desertificação daquela que é a maior área alagável do planeta, segundo pesquisadores, ambientalistas e políticos.

Essas mudanças se tornaram mais expostas após os grandes incêndios que devastaram parte do Pantanal em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no segundo semestre de 2020.

Por duas razões, atualmente, a rodovia registra pequeno fluxo de veículos: a pescaria está seriamente comprometida pela escassez do peixe e a pandemia joga a pá de cal afugentando turistas.

Eduardo Gomes

Pantanal - ponte

As pontes são bons exemplos para se avaliar as mudanças em curso no Pantanal

O DIÁRIO percorreu a Transpantaneira no sábado (10).

A viagem de Poconé a Porto Jofre demorou quatro horas, em razão de cinco paradas para ouvir moradores.

Nesse período, 17 veículos transitaram em sentido contrário e cinco ultrapassaram o carro da reportagem.

Nenhum desses carros era ônibus com turistas.

No trajeto, não havia nenhum trecho com atoleiro, água sobre a pista ou poças d’água.

A poeira foi constante, como no período da estiagem.

Ao menos, 74 corixos que cruzam a rodovia secaram e nos demais é pequeno o volume de água.

A Transpantaneira tem 147 quilômetros de extensão e atravessa o município de Poconé, da cidade (distante 100 km de Cuiabá, no Alto Pantanal) a Porto Jofre, na divisa com Mato Grosso do Sul e próximo à Bolívia.

Tão plana quanto a extensão que cruza, a rodovia descortina em suas margens uma vastidão que some na linha do horizonte, sem nenhum morro ou elevação que reduza o alcance da visão de seus usuários.

Desde 1972, quando foi concluída e até 2018, a Transpantaneira tinha sazonalidades.

Eduardo Gomes

Pantanal - Capivara

Desertificação é uma palavra muito dura para definir o Pantanal do amanhã, mas a situação preocupa

De maio a novembro, era um canudo de poeira pelo vaivém dos carros e boiadas.

De dezembro a abril, que é período de águas altas no Pantanal, a rodovia era inundada em muitos trechos, principalmente nos mais próximos a Porto Jofre; os corixos transbordavam e inundavam a pista encascalhada.

Em 2019, as chuvas foram menos intensas e, no ano seguinte, choveu abaixo da média e ainda ocorreram grandes incêndios que consumiram a vegetação matando animais.

O aguaceiro foi generoso nos primeiros meses desde ano de 2021, mas insuficiente para devolver a cota mais alta às baías, aos cursos internos d’água e aos poucos rios que deságuam no Paraguai e Cuiabá, que são os principais formadores do Pantanal Mato-grossense.

Desertificação é uma palavra muito dura para definir o Pantanal do amanhã, mesmo quando se trata apenas de perspectiva com alguns indicadores científicos, conforme cita Gustavo Figueiroa, do Instituto SOS Pantanal, em Campo Grande (MS), e práticos, a exemplo do senador liberal Wellington Fagundes e do deputado estadual sul-mato-grossense Laerte Tetila (PT).

Antes de mostrar o que ora acontece e o que poderá ocorrer na região, é preciso focalizar a Transpantaneira, a rodovia idealizada pelo então ministro dos Transportes, Mário Andreazza, não somente pela logística com a qual esperava criar, mas para incluir o Pantanal ao chamado “Milagre Brasileiro”. 

TRANSPANTANEIRA – Esta rodovia seria parte do primeiro modal rodo-hidro-ferroviário brasileiro, mas somente avançou 147 km pelo município de Poconé, chegando à margem direita do rio Cuiabá.

Eduardo Gomes

Pantanal - canoa

Sem peixe não há pescaria, que é a grande motivação ao turismo nacional e internacional na região

Pelo caminho, 124 pontes pequenas e médias sobre corixos e rios mostram o grau de dificuldade que foi sua construção.

A obra foi cumprida na parte que seria remanescente mato-grossense, após a divisão territorial para a criação de Mato Grosso do Sul, instalado em 1977, mas não foi executada no trecho no vizinho Estado.

No primeiro momento, a meta com a Transpantaneira era a criação do multimodal pioneiro de transporte no Brasil interior, com três matrizes: ferroviária, da Capítal de São Paulo a Corumbá (MS); hidroviária, de Corumbá a Porto Jofre, no Baixo Pantanal, pelos rios Paraguai e seu afluente Cuiabá; e rodoviária, de Poconé a Cuiabá.

Num segundo passo, a ligação rodoviária se estenderia de Poconé a Corumbá, sendo alternativa para o transporte fluvial no trajeto.

O plano da construção era parte do Programa de Integração Nacional, idealizado pelo governo militar instalado em 1964.

Porém, por falta de visão do Governo Federal - financiador do projeto -, Brasília o inviabilizou.

Transpantaneira é a MT-060 entre Poconé e Porto Jofre, rodovia construída sobre aterro e que cruza incontáveis corixos.

Nesse trajeto, ela é Estrada-Parque e recebeu a denominação de Rodovia José Vicente Dorileo - Zelito Dorileo, por uma lei de autoria do deputado estadual Paulo Moura, sancionada em 21 de janeiro de 1999, pelo governador Dante de Oliveira.

A construção da Transpantaneira começou em 5 de setembro de 1972, quando Mato Grosso era governado por José Fragelli.

A obra foi executada pela Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (Codemat), uma estatal presidida por Gabriel Müller e que, mais tarde, foi extinta.

Trabalharam sob a liderança de Gabriel Müller os engenheiros Enzo Perri, Hilton Campos (foi deputado estadual e prefeito de Juína), Kikuo Ninomiya Miguel (foi deputado estadual) e outros.

Eduardo Gomes

Pantanal - Fragelli

Com Fragelli governador, a construção da Transpantaneira começou em 5 de setembro de 1972

Em 1974, o Governo Federal inaugurou a ligação asfáltica de Cuiabá e Campo Grande (BR-163) e Goiânia (BR-364), via Rondonópolis.

Paralelamente a isso, a Transpantaneira foi concluída, mas perdeu importância pela natural opção pelo transporte rodoviário nas rodovias federais recém-construídas.

Ou seja, o Milagre Brasileiro aconteceu parcialmente no Pantanal.

Ao contrário das rodovias brasileiras, nas margens das quais surgem vilas e cidades, a Transpantaneira cruza uma área de grande vazio demográfico, por conta de seu mosaico fundiário formado por grandes fazendas voltadas à pecuária, que geram poucos empregos da porteira para dentro.

Não há uma vila sequer em seu trajeto.

Até 2018, à noite era intensa a movimentação de turistas na Transpantaneira, em carrocerias de caminhões de pousadas da região, para contemplação com potentes lanternas que, focadas nos jacarés espalhados pelos corixos e baías, proporcionavam um belo espetáculo, refletindo o brilho dos olhos daqueles répteis, como se formassem a iluminação de uma cidade.

Com a redução das chuvas e após os grandes incêndios florestais de 2020, as águas minguaram e sua fauna desapareceram.

SABEDORIA – Até 2015, havia apenas duas pontes de concreto, e agora elas chegam a um terço do total.

Usuários da rodovia colaboravam com a conservação dessas pontes.

Nas águas altas a usavam, mas nas águas baixas, quando alguns corixos secam, se desviavam por uma passagem paralela.

Com essa prática, a vida útil da ponte era maior.

As pontes são bons exemplos para se avaliar as mudanças em curso no Pantanal.

Abril é período das águas altas e, até recentemente, nessa época, os veículos cruzavam as pontes de madeira.

Agora, na maioria delas, é possível optar pelas passagens paralelas que ou estão secas ou se transformaram em filetes d’água.

A estiagem se aproxima. Não é preciso estudo científico para saber que, de agora até o final do ano, a tendência é a diminuição das águas no Pantanal.

Sem água não há peixe, o que causa o desequilíbrio ecológico, na medida em que quebra a cadeia alimentar dos jacarés, lontras, ariranhas, alguns pássaros e, até mesmo, da onça.

Sem peixe não há pescaria, que é a grande motivação ao turismo nacional e internacional, pelo fato de o Pantanal ser um dos principais destinos do turismo de pesca.

Sem regularidade de chuva, aumenta o risco de novos incêndios florestais, e isso assusta o presidente do Sindicato Rural de Poconé, Raul Santos Costa Neto, que ainda cura as cicatrizes de centenas de criadores que perderam bovinos, cercas, pastagens e currais no fogaréu de 2020.

Aparentemente, o ano de 2021 será de intensa seca no Pantanal, o que levará muitas propriedades a recorreram a perfuração de postos artesianos e a utilização de carro-pipa para garantir a água dos animais.

Possibilidade de enchentes neste ano está totalmente descartada.

Sem enchente, não haverá reposição das baías, corixos e do volume de água dos rios, porém, essa situação evitará que o Pantanal receba cargas poluidoras dos esgotos em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e outras cidades, resíduos das lavouras mecanizadas no chapadão e rejeitos de mineração.

Destino natural das águas de dezenas de municípios mato-grossenses, o Pantanal convive com o dilema: se a estiagem for prolongada, o fogo se torna perigoso inimigo; caso chova muito, sua superfície será contaminada com o esgoto e o agrotóxico arrastados pelos rios que o banham; e se a chuvarada for fraca, permanece a penúria de agora, no limbo ambiental em que se encontra.


4 COMENTÁRIOS:







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José Carlos de Moraes  16-04-2021 11:21:34
Bom dia, Ao ler essa matéria senti que é muito triste ver o que está acontecendo com o bioma do pantanal? Os governantes, juntamente com as ONGs irá achar uma saída para que o pantanal volte a ser realmente a planície mais linda do mundo. O poder público tem que divulgar mais nas redes sociais sobre os cuidados sobre o possível foco de fogo nessa área pantaneira.

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Francisco Trigueiro  15-04-2021 19:03:34
Se esse ano repetir as queimadas que houve em 2020, o Pantanal poderá não se recuperar.

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Maria Eduarda oliveira   13-04-2021 17:55:46
Parabéns ao diário de Cuiabá pela excelente matéria sobre o nosso pantanal. Temos que cuidar desse patrimônio mundial.

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Dulce Labio   13-04-2021 08:33:27
A desertificação desse bioma seria uma catástrofe de dimensão incalculável. Assustador.

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