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Cuiabá MT, Segunda-feira, 16 de Maio de 2022
AMBIENTE
Domingo, 21 de Novembro de 2021, 08h:22

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Pressão financeira da Europa contra desmatamento deve aumentar, diz eurodeputado

Para membro de comitê ambiental do Parlamento Europeu, se governo não agir contra desmatamento, dano será irreversível

ANA ESTELA DE SOUZA PINTO
Da Folhapress - Glasgow, Escócia
Pär Holmgren, eurodeputado sueco pelo grupo dos Verdes

A pressão sobre o Brasil de clientes e financiadores preocupados com a falta de políticas ambientais deve crescer, afirma o eurodeputado sueco Pär Holmgren, que integrou a delegação do Parlamento Europeu na COP26, em Glasgow.

 Holmgren, que faz parte dos comitês de ambiente e de agricultura no parlamento, foi um dos cerca de 15 eurodeputados que participaram de uma reunião com o ministro brasileiro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, durante a conferência climática, que terminou no último sábado (13).

Ele diz que a definição pela União Europeia de seu taxonomia verde, que determina quais investimentos e projetos são considerados sustentáveis ---e portanto serão incentivados--- deve tornar ainda mais frequente a reticência de fundos e clientes em relação a produtos que tenham risco de estar relacionados a desmatamento ou outros danos ambientais e sociais.

 

 Holmgren afirmou considerar positivo que o governo brasileiro tenha apresentado metas durante a COP26, mas disse que faltam ações concretas e que os números sobre desmatamento revelam uma realidade preocupante.  

  Ele também não considerou satisfatória a resposta de Leite sobre o compromisso do governo Bolsonaro com povos indígenas, e lamentou que projetos considerados prejudiciais ao ambiente e a questões fundiárias continuem em pauta.  

Sobre o acordo da UE com o Mercosul, porém, o integrante do bloco dos Verdes diz que seu futuro vai depender de quanto apoio os grupos liberal e social-democrata darão ao bloco conservador PPE, o maior do Parlamento, que, segundo ele, prioriza os resultados comerciais sobre os ambientais ou de direitos humanos.

 
 

Sobre o que foi a reunião dos europarlamentares com o ministro brasileiro? O principal assunto climático com  com o Brasil é sempre o desmatamento. Ouvimos que o país pretende acabar com ele até 2030, o que é bom, mas não sabemos como será até lá. Muitos governos falam do futuro, mas dão pouca atenção ao que acontece no presente. E os números recém-divulgados de desmatamento na Amazônia não são bons [na véspera, dados do Inpe mostraram desmatamento recorde para um mês de outubro]. 

O governo Bolsonaro anunciou que anteciparia para 2028 o fim do desmatamento ilegal É bom que haja planos de acabar com o desmate ilegal, mas, se o governo pode decidir o que ou não é legal, mantém-se um problema sério em relação ao clima.

A exposição feita pelo ministro convenceu os eurodeputados de que o governo Bolsonaro tem intenção de proteger a floresta? Não usaria o verbo convencer. É importante que Brasil, Índia e China tenham metas de longo prazo. Todos os países entendem que temos um problema sério e temos que agir. Mas, como meteorologista e deputado, sei que entre a ciência e a política há ainda um abismo. A distância entre medidas de mitigação [prevenção do desmatamento] e adaptação [redução de danos] me preocupa muito, porque sabemos o quão vulnerável é a floresta amazônica.

Na Suécia, de onde venho, também há muitas florestas e teme-se um impacto negativo da corrente do Golfo, que intensifique o frio. Mas, do ponto climático, a vulnerabilidade da Amazônia é muito maior. Uma pequena elevação de temperatura ou perda de umidade pode prejudicar toda a floresta, deixá-la mais seca, elevar o risco de incêndios, criando um círculo vicioso que pode se retroalimentar muito rápido, ainda neste século.

Considera que as políticas brasileiras não são suficientes para impedir esse risco? Essa é uma das principais preocupações. No Brasil, se não adotarmos muito rapidamente medidas de mitigação, infelizmente logo estaremos tendo que discutir o país em termos de perdas e danos, como uma das áreas do mundo em que o desastre é irreversível e nem se adaptar mais é possível. Seriamente, espero que isso não ocorra, para o bem dos brasileiros e do resto do mundo. O destino da floresta amazônica afeta todo o planeta.

O sr. levantou esse risco de perda irreversível na reunião com o ministro? Não. Como a delegação do Parlamento Europeu tem cerca de 15 membros, meus colegas perguntaram sobre outros pontos e foquei a questão indígena. Sabemos que no geral, e no Brasil, eles são muito afetados pelas políticas que envolvem a floresta. Não considerei satisfatória a resposta que recebi do ministro. Minha impressão é que o governo brasileiro não assume sua responsabilidade por essas comunidades.

Projetos de lei que tramitam no Congresso brasileiro e são considerados prejudiciais a questões ambientais e de direitos humanos na Amazônia foram assunto de uma carta enviada por eurodeputados aos legisladores brasileiros. Apesar das críticas, o governo Bolsonaro manteve seu apoio a eles. Isso afeta a relação entre a UE e o Brasil, ao avaliar temas como o acordo comercial com o Mercosul, por exemplo? Sou do bloco dos Verdes no Parlamento, que defende que o comércio exterior da UE se baseie em justiça social, respeito a comunidades indígenas e ao ambiente. Mas para o bloco conservador PPE [Partido do Povo Europeu], o maior do parlamento, o comércio é mais importante, ainda que não seja justo.

Somos 10% dos eurodeputados, e eles passam de 30%. Se se unirem aos liberais e aos sociais-democratas, obtêm vasta maioria.

 

O que o governo brasileiro precisa fazer para mostrar aos europeus um compromisso aceitável com a Amazônia? Zerar o desmatamento. A floresta brasileira é diferente da sueca, em que a biodiversidade é pequena, poucas espécies gostam de crescer por lá. A floresta amazônica tem uma das maiores biodiversidades do mundo, começou a se desenvolver há mais de 3 milhões de anos, enquanto as matas suecas têm no máximo 5.000 anos. Se na Suécia temos metas de reflorestamento, no Brasil a situação é incomparável. O governo brasileiro precisa entender o quão precioso e vulnerável é esse ecossistema e fazer tudo para protegê-lo.

O ministro afirmou em Glasgow que a preservação da Amazônia é cara e requer investimento. Falta dinheiro ou falta vontade política? As duas perspectivas não são excludentes. É fato que historicamente a Europa e os Estados Unidos são responsáveis pela crise climática e temos que assumir essa responsabilidade. Parte disso passa pelo financiamento.

Corporações, fundos soberanos e fundos de investimento fizeram pressão e até interromperam transações com o Brasil por causa da falta de políticas ambientais. A pressão comercial e financeira é uma boa estratégia? Acredito que sim. Espero que sim. Faz parte do Acordo de Paris que o financiamento esteja alinhado com as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. Essa pressão deve ficar ainda maior agora que a União Europeia está definindo sua taxonomia verde, que vai determinar que tipo de financiamento é sustentável e qual não é.

RAIO-X | PÄR HOLMGREN, 66,

eurodeputado pelo grupo dos Verdes. Sueco, é doutor pela Universidade de Uppsala em meteorologia, área na qual trabalhou como especialista em danos ecológicos para o grupo de seguros Länsförsäkringar. Foi conselheiro da Sociedade Sueca para a Conservação da Natureza e do Instituto Sueco de Meteorologia e Hidrologia. No Parlamento Europeu, integra o comitê de Meio Ambiente e é membro substituto do comitê de Agricultura.


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