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AMBIENTE
Domingo, 19 de Dezembro de 2021, 05h:17

DESMATAMENTO

Florestas se recuperam em poucas décadas quando desmate para, mostra estudo

Apesar de boa parte das características voltar, regeneração da biodiversidade pode levar mais de um século

REINALDO JOSÉ LOPES
Da Folhapress - São Caetano, SP
Florestas se recuperam em poucas décadas quando desmate para, mostra estudo

Florestas desmatadas nas regiões tropicais das Américas e da África conseguem recuperar boa parte das características que tinham em poucas décadas, mostra o mais amplo estudo já feito sobre o tema.            

Os dados indicam que, em muitos casos, o reflorestamento pode ser um processo bastante simples e natural, sem demandar grandes investimentos —basta interromper o uso agrícola das áreas desmatadas e deixar que a natureza faça o resto do serviço.            

As conclusões estão em artigo na última edição da revista especializada Science. O trabalho é fruto de uma colaboração internacional de grande porte, coordenada por Lourens Poorter, da Universidade de Wageningen, na Holanda, e com participação de cientistas de diversas instituições brasileiras.          

    A equipe acompanhou os processos de regeneração florestal em 77 locais diferentes, que vão do México ao Rio Grande do Sul (no caso do continente americano) e, do outro lado do Atlântico, abrangem a África Ocidental, incluindo países como a Costa do Marfim e a Nigéria.          

Como não era viável fazer um acompanhamento da recuperação da mata ao longo de várias décadas em todos esses locais, os pesquisadores adotaram uma metodologia que, de certa forma, é como simular uma máquina do tempo.            

  Em vez de monitorar os lugares individualmente com o passar do tempo, eles escolheram áreas que sabidamente estavam passando pela regeneração florestal durante períodos diferentes, tanto mais breves quanto mais longos. Isso permitiu que eles estimassem a duração das fases desse processo.              

"É uma medida imperfeita, mas que ajuda a entender o que acontece em cada período", disse à Folha Pedro Brancalion, professor do Departamento de Ciências Florestais da USP de Piracicaba e um dos coautores brasileiros da pesquisa. Ele explica que o trabalho teve como foco áreas desmatadas que sofreram impactos agrícolas entre leves e moderados.        

  "Você pode pensar, no caso da Amazônia, por exemplo, numa área que passou a receber pastagem, mas ainda tem uma memória ecológica do que era a mata. Ainda existe um banco de sementes [as sementes das espécies nativas que ainda ficam no solo mesmo após o desmate], ainda há plântulas [sementes já germinadas]. É diferente quando você faz um preparo intensivo do solo e passa herbicida para não crescer mais nada", diz.          

  A equipe comparou os diferentes estágios de regeneração das florestas secundárias (ou seja, aquelas que ressurgem depois que a terra deixa de ser destinada ao uso agrícola) com o que se vê nas florestas primárias, ou "virgens". Em média, eles verificaram que as matas regeneradas recuperam quase 80% dos atributos das florestas primárias depois de 20 anos.              

Dentro dessa média, porém, diferentes atributos das florestas em recuperação funcionam seguindo ritmos bem diferentes. Curiosamente, o mais fácil é voltar a níveis adequados de nutrientes no solo (medidos pela presença de carbono e nitrogênio), algo que acontece em menos de dez anos.            

Também se recuperaram relativamente rápido —em menos de três décadas— alguns dos chamados aspectos funcionais da vegetação, como a sua capacidade de produzir madeira e folhagem durante o processo de crescimento das árvores, voltando a formar uma floresta propriamente dita.          

  "Já a recuperação da biodiversidade é a mais lenta, lógico", diz o biólogo Fernando Periotto, professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) que comentou a pesquisa a pedido da Folha.          

  Nesse caso, embora a riqueza de espécies de plantas da mata regenerada cresça relativamente rápido, ela demora mais de um século para se tornar semelhante à de uma floresta primária.          

  O que acontece é que, nas primeiras três ou quatro décadas da recuperação florestal, convivem no mesmo lugar tanto espécies de árvores que "gostam" de muita luminosidade, típicas de áreas mais abertas, quanto as que estão adaptadas a crescer em locais mais sombreados.        

  Conforme a nova mata amadurece, porém, as primeiras perdem espaço, enquanto as espécies mais raras, cujas sementes precisam ser trazidas de matas intactas mais distantes, demoram para se estabelecer de novo na floresta regenerada.          

Para Brancalion, os dados indicam que até regiões muito exploradas pela agricultura historicamente, como o Sudeste brasileiro, poderiam recuperar naturalmente ao menos parte de suas áreas de floresta. "A cobertura florestal do vale do Paraíba [interior de São Paulo] dobrou nos últimos 20 anos", exemplifica ele.            

O processo tende a ser mais fácil em áreas mais íngremes e úmidas, segundo ele. Em áreas mais secas, um dos grandes problemas é a presença de gramíneas invasoras de origem africana, originalmente trazidas para formar pastos, que competem agressivamente por água com as plantas nativas e também tendem a aumentar a incidência do fogo.  


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