Diario de Cuiabá

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020, 00h:00

Como a pandemia mudou o modo de beijar no cinema e na TV

Manequins, maridos, tela de acrílico, confinamento: as estratégias das produções para manter a magia do romance nas telas

RICARDO CALAZANS
Da Agência Globo – Rio

Beijar é humano. Beijos selam casamentos e contratos, celebram amizades, incendeiam paixões e lotam cinemas há mais de um século. Eles também levam atrizes e atores de TV ao estrelato e elevam a audiência de uma novela, fazem plateias suspirarem e enchem os cofres dos estúdios. A representação da intimidade nas telas sempre foi uma peça-chave da indústria audiovisual — até agora. Em 2020, fomos obrigados a dividir o planeta com um vírus mortal e ainda sem cura. O beijo foi interrompido e os limites da intimidade encenada voltaram a ser regidos por rigorosos códigos, como há 90 anos. Se antes eles tinham a ver com os costumes morais, agora são protocolos sanitários.

Nem quando o famigerado Código Hays norte-americano estava em seu auge, entre as décadas de 1930 e 1960, foi tão difícil beijar como agora. Os ultraconservadores que impediam a distribuição de filmes “imorais” nos EUA não temiam doenças, mas o poder subversivo das imagens. E o beijo era (é) uma das mais poderosas.

"O beijo é, ao mesmo tempo, um símbolo romântico e erótico", explica Pedro Butcher, crítico de cinema e professor da ESPM. "Ele tem essa dupla atração para as plateias: tanto o beijo do ideal romântico e do final feliz, como o beijo erótico, proibido, que tem um apelo grande também".

Mas, apesar da regra conservadora ter tido impacto, ela foi amplamente burlada, porque os donos dos estúdios sabiam que essas cenas enchiam os cinemas. Beijos como os de Ingrid Bergman e Cary Grant em “Interlúdio” (Alfred Hitchcock, 1946), ou de Burt Lancaster e Debora Kerr em “A um passo da eternidade” (Fred Zinneman, 1954), escandalizaram e, até por isso, seguem icônicos.

Hoje não há o que burlar. Numa pandemia, a intimidade é a fronteira da saúde das pessoas. O show vai continuar, mas com novos códigos de conduta, dessa vez guiados por profissionais como Lizzy Talbot, coordenadora de intimidade e fundadora da rede britânica “Intimacy for Stage and Screen”. Consultores de intimidade como ela já atuam há anos nos sets para ajudar a coreografar cenas íntimas e evitar abusos ou violações. Agora, seu trabalho ganha nova dimensão. “O padrão está sendo elevado em termos de segurança, e acho que o consentimento será destacado de uma forma que não era antes, porque as pessoas adquiriram uma consciência elevada dos limites e do seu espaço pessoal”, disse Lizzy à BBC .

Nos últimos meses, foram criados protocolos especiais para a retomada das produções em todo o mundo. Todos enfatizam o cuidado com as cenas onde há contato físico entre atores. Bollywood, a poderosa indústria cinematográfica da Índia, suspendeu as cenas de amor até segunda ordem. O cinema tailandês seguiu o mesmo caminho. Nos Estados Unidos, a equipe de “Riverdale”, uma série da CW Television repleta de pares românticos em constante movimento, está escrevendo episódios que focam em menos personagens, para gerenciar melhor o número de pessoas no set. Terá mais insinuação do que ação romântica. Vai ser mais “Mary Tyler Moore” e menos “Normal People”.

Ações insinuadas

Em junho, trabalhadores do audiovisual americano elaboraram um documento conjunto de 37 páginas com diretrizes de cuidados para as produções dentro e fora dos locais de gravação. Na mesma época, a British Film Commission distribuiu não um, mais dois guias, o maior deles com 52 páginas de recomendações. No caso das cenas que envolvem contato corporal e nudez, os documentos pedem que se priorizem truques de câmera e ações insinuadas. Também recomendam que atores que filmam cenas íntimas se isolem por 14 dias antes de entrar no set.

Esse rigor também tem guiado a retomada das produções no Brasil. Na volta das gravações da novela “Amor de mãe”, da TV Globo, em agosto, as dificuldades impostas pela pandemia têm exigido dedicação extra de toda a equipe. Quando há uma cena “de contato”, o esforço é ainda maior.

"Avalio o texto e elejo as cenas em que considero o contato físico imprescindível", conta José Luiz Villamarim, diretor artístico da novela. "A partir daí, o elenco envolvido faz o teste e fica em isolamento alguns dias. Antes da gravação, testam de novo para enfim fazer a cena.

Em “Salve-se quem puder”, as soluções encontradas foram diferentes, ainda que igualmente comprometidas com o distanciamento social. Placas de acrílico, tela verde e efeitos de pós-produção ajudam a manter o clima romântico da novela das 19h.

"O uso do chroma key e do acrílico entre os atores para as cenas de beijo têm apresentado um ótimo resultado. É um processo lento e cuidadoso para retirar todos os reflexos na hora do close. Assistir a algumas cenas editadas também traz um conforto maior para o elenco, quando eles veem o resultado daquele beijo que foi gravado respeitando o distanciamento. É um aprimoramento diário dos caminhos e possibilidades", conta Fred Mayrink, diretor artístico da novela.

Mas, afinal de contas, vale a pena tanto esforço por um beijo? Com a autoridade de quem contabiliza 128 personagens e incontáveis beijos ao longo da carreira, o ator Tony Ramos não tem a menor dúvida:

"O beijo é o momento definitivo e mais esperado em dramaturgia. E quanto mais simples for essa expectativa, mais o público se emociona".

No mundo todo, cada produção parece estar encontrando suas soluções logísticas para resolver as limitações artísticas. Em julho, quando voltou a gravar a popular série “The bold and the beautiful”, no ar desde 1987 nos Estados Unidos, a atriz americana Denise Richards tinha uma rota para entrar e outra para sair do set, e estava o tempo todo sob a vigilância de um “oficial de Covid”, responsável por garantir que todos no estúdio estivessem sempre a 2,5 metros de distância uns dos outros.

Como sua personagem vive um triângulo amoroso, havia cenas íntimas a rodar. Ela recebeu duas opções: beijar um manequim ou levar seu marido (que não é ator) para o set. Richards escolheu usar o marido como dublê de beijo, e não foi a única: havia outros dois maridos no estúdio ajudando, o que ela considerou “muito fofo”.

Mesmo com toda a segurança oferecida, a atriz Maria Bopp, protagonista da série “Me chama de Bruna” e a Blogueirinha do Fim do Mundo nas redes sociais, ainda não tem a confiança de Denise Richards para encarar um set de filmagem.

"Eu nem chego a pensar em cenas de beijo ou contato físico: estar num set já é algo difícil de visualizar. Estou louca pra voltar a trabalhar, mas reconheço que talvez eu não conseguisse fazer isso tão tranquila agora", diz.

O que não significa que ela esteja fechada a propostas de trabalho: "Sair de casa é algo que ainda me aflige, mas eu também acredito na ciência. Uma coisa que entra no meu critério de avaliação agora é se a produção está tomando todos os cuidados. Set de audiovisual é uma loucura, a gente filma durante 12 horas, [em lugares] fechados, muitas vezes. A segurança é agora um dos critérios mais importantes para eu me decidir por um projeto".

Paulo Schmidt, diretor da produtora paulistana Academia de Filmes, também não consegue vislumbrar o futuro próximo com clareza. Por via das dúvidas, já tomou precauções.

"Neste momento, não vamos priorizar desenvolvimento de projetos com cenas românticas, íntimas ou com grandes aglomerações. Estas premissas estão fazendo parte da seleção de novos projetos ou da revisão de planejamento de filmagens de projetos existentes, deixando cenas mencionadas acima para o mais tarde possível em 2021", explica.

Será, então, que as limitações sanitárias vão significar produções com cenas mais caretas no tal futuro próximo?

"É difícil saber se vai ter algum retrocesso moral pós-pandemia", diz o crítico Pedro Butcher. "Antes já vinha acontecendo isso, uma visão ultraconservadora que reage às novas demandas de gênero e sexualidade que ganharam visibilidade nos últimos anos. Isso já estava afetando a produção, como forma de confronto, e que talvez com a pandemia se acentue. Vamos ver".

Butcher lembra que, após um relativamente curto — e marcante — período de liberdade artística entre os anos 1960 e 1980, o cinema hoje está novamente mais pudico.

"Muitas das cenas mais explícitas estão hoje na TV fechada e nos canais de streaming, que têm uma liberdade maior do que o cinema industrial."

De um jeito ou de outro, as mudanças provocadas pela pandemia não vão impedir o público de continuar a ter o romance nas telas. Para isso, há todo um novo jeito de escrever, filmar e atuar sendo inventado.

"Como diretor, eu precisei reinventar a maneira como trabalho" diz o diretor José Luiz Villamarim. "Por outro lado, o meu trabalho envolve pensar novas formas de dirigir. Nesse sentido, o limite pode ser algo a favor, pode fazer com que criemos uma nova linguagem".

 

Foto:

Beijo de Burt Lancaster e Debora Kerr em “A um passo da eternidade”

 


Fonte: Diario de Cuiabá

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