Diario de Cuiabá

Sábado, 08 de Agosto de 2020, 13h:30

Morre Casaldáliga, o bispo que enfrentou latifundiários e ditadura

O líder católico da Prelazia de São Félix bateu de frente com o regime de 1964 e reis do gado no Araguaia

EDUARDO GOMES
Da Reportagem

Dom Pedro Casaldáliga, o bispo catalão que dedicou e arriscou a vida na defesa dos posseiros e dos indígenas da Amazônia, morreu neste sábado (8), às 9h40, em Batatais (SP), aos 92 anos.

Seu velório acontecerá em três locais. Em Batatais, neste sábado, a partir das 15h, na capela do Claretiano.

Em Ribeirão Cascalheira, onde o corpo será velado no Santuário dos Mártires, a partir de 10 de agosto.

E em São Félix do Araguaia (1.200 km a Nordeste de Cuiabá), sua cidade adotiva, onde o velório será no Centro Comunitário Tia Irene e onde o corpo será sepultado.

A missa de exéquias será celebrada em 9 de agosto, às 15h, em Batatais, e será transmitida pela internet.

Dom Pedro Casaldáliga morreu devido a uma infecção respiratória que evoluiu para embolia pulmonar.

O teste para Covid-19 deu negativo. Ele estava internado há mais de uma semana e foi levado para Batatais na terça-feira (4).

Esquerdistas, reverentes, faziam silêncio para ouvi-lo. Direitistas, contrariados, mas sem um murmúrio sequer, o escutavam.

Sem terra e posseiros de mãos calejadas o aplaudiam. Para os indígenas, era um irmão.

Forte em sua fragilidade física, valente sem armas, corajoso pela força da fé cristã. Um pequeno gigante. Assim era o bispo emérito Dom Pedro Casaldáliga – que dispensa pompa: apenas Pedro.

Esse homem que não se curvou ao regime militar de 1964 e que desafiou poderosos reis do gado no Vale do Araguaia, tropeçou, caiu.

Um acidente doméstico na segunda-feira, 3 de agosto de 2015, em sua casa simples, na cidade de São Félix do Araguaia, tirou sua mobilidade, o prendeu a uma cadeira de rodas. A idade se juntou ao Mal de Parkinson e esse componente o debilitou profundamente. Sua fértil memória se volatilizou.

O tremor das mãos dificultava, até mesmo, que tomasse um copo de água. Não escutava. As palavras teimavam em ficar sufocadas na garganta. Seu quadro de saúde se complicou muito nos últimos dias.

Desde a terça-feira (4), o prelado estava numa unidade de terapia intensiva (UTI) da Santa Casa de Batatais, no interior paulista, para onde foi removido por ordem do superior de sua congregação, padre Mathew Vattamattam.

Mato Grosso é página virada. Se recebesse alta, ele seria acolhido na Clínica Geriátrica Domus Claret, mantida naquela cidade pelos missionários claretianos da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria.

Aos 92 anos Pedro, travou sua maior batalha, essa pela vida. De São Félix do Araguaia Pedro foi removido em UTI aérea para Ribeirão Preto, e de lá, por ambulância, num trajeto de 45 quilômetros, para Batatais.

Boletim médico de ontem informou que o paciente se encontra numa UTI, seu estado de saúde é estável, que faria exames e que recebia tratamento à base de antibióticos.

Em São Félix do Araguaia, uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu aposento, testemunhava sua vida na casa onde morava, sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que fazem a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 foi seu braço direito.

Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – foi o cão de guarda do prelado.

A enfermidade do pastor começou em agosto de 2015, quando fraturou o fêmur da perna esquerda e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO).

“Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revela padre Ivo.

Desde então, a saúde foi definhando. Pedro passou, então, a se manifestar pelo olhar penetrante. Acompanhava tudo ao seu redor, mas imóvel, consciente que o ciclo da vida se fechava.

Escritor, poeta, pensador, contestador e autor de cartas circulares conceituais. O pastor católico, antes de sua enfermidade e mesmo após sua aposentadoria, fazia do apoio aos movimentos sem terra e indigenista o alicerce de sua evangelização.

Bispo em atividade, sorriu para a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa.

Presenciou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira, crime sem conotação política.

Dois de seus posicionamentos se chocaram com a Santa Sé: defendeu a ordenação de mulheres para o sacerdócio e contestou o celibato sacerdotal. Mesmo de esquerda,

Pedro, certa vez, disse que “o governo de Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres“. Nesse quesito, padre Ivo discorda. Segundo ele, nos governos de Lula e Dilma, o prelado tinha mais apoio.

Reticente quanto ao presidente Jair Bolsonaro, o sacerdote avaliou que ele era ruim para a Prelazia.

Na enfermidade de Pedro, em São Félix do Araguaia, se comentava que o chororô se deve ao fechamento da torneira que irrigava os cofres de organizações não governamentais ligadas a Pedro, e que se dizem defensoras dos índios no Araguaia e Xingu.

A comunidade acadêmica o reverenciou. Foi contemplado com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade.

São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.

APOSENTADORIA – Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, em 16 de fevereiro de 1928, Pere Casaldàliga i Pla  – o Pedro - chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazaia de São Félix do Araguaia.

Em 27 de agosto de 1971, foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI, assumiu a Prelazia e a Igreja Nossa Senhora da Assunção, naquela cidade.

Alcançado pela expulsória, aos 70 anos, tirou a batina, sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner.

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é quem responde pela Prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, outros municípios e o distrito de São José do Fontoura (de Campinápolis).         

Antes de se aposentar, Casaldáliga além de sua atuação evangelizadora, se dedicava a escrever livros e poemas, artigos, cartas circulares, manifestos tanto no Brasil quanto no exterior. Era a figura central Igreja Progressista. Nos ditos anos de chumbo, sua voz era um dos símbolos da resistência contra a ditadura.

Com informações da agência Folhapress


Fonte: Diario de Cuiabá

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