Diario de Cuiabá

Sexta-feira, 11 de Maio de 2018, 19h:14

Motivo

No mundo que combato morro no mundo por que luto nasço (Mia Couto)

Meu filho chegou da escola mais contente hoje. Não tem sido assim. Desde que mudamos de cidade e de escola, é uma queixa atrás da outra. Um colega empurra, outro debocha, outro se junta com outro e brinca de repórter de TV pra gravar a fala dele. Coração de mãe, você já sabe. Tenho vontade de ir lá e rufar a mão na cara da molecada. Falo com a diretora, entendo que as crianças são danadas, que revidar não é o melhor caminho, que é preciso uma orientação adequada. Em casa faço o que posso. Escuto meu filho, aconselho, digo que o melhor a fazer é não dar tanta bola pra isso. Vai saber o motivo de esses meninos serem tão agressivos. Vai ver são maltratados em casa. Conto que minha mãe, no meu tempo, nem me escutava. Eu tentava dizer alguma coisa e ela: “não me venha com queixa”. Não repito o procedimento. Acredito que muita coisa pode melhorar com a força de uma boa palavra. Depois de algum tempo, de muita conversa e idas e vindas à escola, finalmente chegou o dia em que ele se sentiu mais ambientado, mais feliz. Reparei, no final da tarde, naquele intervalo em que ficam brincando antes de virem pra casa, que o grupinho de uns três se fortalecia. Falei. Eu já sei por que você acabou tendo mais afinidade com o Vinícius e o Julio. Porque, coincidentemente, vocês três são filhos únicos, a falta de um irmãozinho a gente acaba compensando com o colega, não é mesmo? A reposta que veio a seguir me arrebentou por dentro. Ainda teria muito por fazer. — Não, mamãe, nós três ficamos amigos porque somos os três da sala que têm defeito. — Como assim, defeito? — Sim, o Vinícius é gordo, o Julio é negro e eu sou gago. *Marta Cocco é escritora e professora de Literatura.

Fonte: Diario de Cuiabá

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