NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ILUSTRADO
Sábado, 23 de Maio de 2020, 00h:00

LIVRO

Woody Allen no espelho

Ao fim de “Apropos of nothing”, sua autobiografia recém-lançada nos Estados Unidos, Woody Allen diz que, em vez de viver na mente e nos corações do público, prefere viver no seu apartament

LUIZA BARROS
Da Agência Globo – Rio
Woody Allen

Ao fim de “Apropos of nothing”, sua autobiografia recém-lançada nos Estados Unidos, Woody Allen diz que, em vez de viver na mente e nos corações do público, prefere viver no seu apartamento. A frase — que não poderia ser mais típica dele — surge só depois de 400 páginas em que o diretor americano de 84 anos revisita o passado e tenta dar satisfações sobre sua tumultuada vida. Com os direitos comprados agora pela Globo Livros, a obra chega ao Brasil até o começo de setembro, traduzida pelo escritor paulistano Santiago Nazarian. Terá o nome de “A troco de nada”. E, enquanto não sai por aqui, já desperta um acirrado debate sobre liberdade de expressão, linchamentos e como lidar com grandes artistas acusados de comportamento predatório.

Por anos, o fato de Allen ter se casado com a enteada, Soon-Yi Previn, foi visto como uma excentricidade. E descartou-se a acusação de sua ex-mulher, a atriz Mia Farrow, de que ele teria molestado sexualmente a filha adotiva Dylan, em 1992, quando ela tinha 7 anos e o casal se separava. Uma investigação concluiu, afinal, que a menina não sofrera abuso. Por isso, nada chegou à Justiça, e Allen voltou a fazer filmes como antes. Em 2002 , naúnica vezem que compareceu ao Oscar, o diretor de clássicos como “Manhattan”, “Noivo neurótico, noiva nervosa” e “A rosa púrpura do Cairo” foi ovacionado de pé pelos colegas apenas por estar lá.

O “cancelamento” veio após a explosão do movimento #MeToo. Quando o silêncio sobre casos de assédio e abuso começou a ser quebrado em Hollywood, o tratamento do showbiz a artistas acusados no passado mudou. Já adulta, Dylan falou do assunto publicamente, ao lado da mãe e do irmão Ronan, o jornalista que ajudou a revelar os crimes do megaprodutor Harvey Weinstein, condenado a 23 anos de prisão por estupro e agressão sexual. Já Moses, outro filho do casal, saiu em defesa de Allen e acusa Mia de fazer lavagem cerebral. Há anos, o drama familiar é alimentado com relatos fortes dos dois lados. Para quem está de fora, é impossível saber o que realmente aconteceu.

EXÍLIO CINEMATOGRÁFICO

Na dúvida, Hollywood cortou relações como diretor. Conforme ele mesmo narra no livro, atores que passaram avida esperando por uma ligação de Allen começaram a recusar seus convites. A Amazon rompeu um contrato milionário, e com isso “Um dia de chuva em Nova York” (2019) jamais foi exibido na cidade que homenageia, encontrando distribuidores apenas no exterior. Seu filme mais recente, o inédito “Rifkin’s festival”, encontrou guarida em uma produtora da Espanha, onde foi rodado. Os nomes que encabeçam o elenco também são europeus, como o francês Louis Garrel e o austro-alemão Christoph Waltz.

Mesmo este livro de memórias quase não saiu, diante da desistência de sua primeira editora, a Hachette, após protestos de seus funcionários e da família Farrow — o grupo editorial também publica nos EUA o livro de Ronan sobre a investigação do caso Weinstein. Permaneceu a dúvida se a história veria aluz do dia até que, sem alarde, apequena editora Arcade lançou a obra.

A compra dos direitos brasileiros foi feita em blind offer, tipo de negociação em que os editores não têm acesso ao conteúdo da obra. A única garantia era que Allen falaria de sua vida particular.

“Foi um dos leilões mais secretos de que já participamos. Apostamos na quentura do assunto. Sabíamos que ele falaria da carreira, em que ele é reconhecidamente brilhante, e que teria no mínimo uma parte polêmica, sobre sua vida pessoal”, conta Mauro Palermo..

São duas entregas feitas no livro. Ao compartilhar sua experiência crescendo na Nova York do pós-guerra e ao refletir sobre sua relação com o cinema, Allen recupera o encanto que marcou seus filmes. Há muito do seu humor autodepreciativo: por exemplo, abre o livro com uma referência dupla a J.D. Salinger e Charles Dickens, e depois conta que nunca leu nada do último — seu segredo ao longo da carreira, ele diz, foi saber usar algumas citações de forma que parecesse mais culto do que realmente é. Embora o tempo todo faça referência a seus ídolos, como Ingmar Bergman e Tennessee Williams, Allen também nomeia os muitos filmes que não viu e os vários livros que jamais leu (“Lolita” está na lista, assim como todas as versões de “Nasce uma estrela”). No humor, ele nunca foi um grande fã de Lenny Bruce, comediante que marcou sua geração, e prefere Chaplin a Buster Keaton, algo que “não pega bem entre críticos e estudantes de cinema”, ele diz. E reafirma que não é um intelectual (“acham isso por causa dos óculos”) e se pinta como um medíocre, mas menciona que tem QI alto (sem dar números) e amava discutir filosofia com a primeira mulher, Harlene.

A RELAÇÃO COM AS MULHERES

Mais espinhoso —e ultrajante —é o tratamento que dá às mulheres. Embora tente provar que sempre foi respeitoso com elas, o diretor não se ajuda muito. Afirma que passou a ler apenas para impressionar o que define como “gostosinhas boêmias” de “meias-calçasa pertadas”. Falaque ainda é grande amigo de Louise Lasser, sua segunda mulher e atriz em três de seus filmes. Mas é de se duvidar após o retrato que ele pinta de Louise, muito semelhante ao que faz de Mia Farrow. Nos dois casos, depois de louvara beleza e sensualidade delas, Allen recorre ao histórico de problemas familiares das ex-mulheres, conclui que flertavam coma loucura e se lamenta de não ter percebido as “bandeiras vermelhas”.

Salta aos olhos, no livro “A troco de nada ”, aforma como Woody Allendescreve sua relação com enteados e filhos. Para justificar anormalidade de seu relacionamento com Soon-Yi, que para ele não poderia ser considerado incesto, o cineasta argumenta que nunca morou ou foi casado com Mia, pouco sabia sobre o cotidiano da casa dela e jamais teve uma relação paternal com a atual mulher, oque opai Andre Previn, confirmava. Soon-Yi hoje tem 49 anos e os dois mantém o relacionamento desde 1991, tendo se casado em 1997. Ao acusar Mia de maltratar os filhos adotivos, Allen recorre a relatos da atual mulher e de Moses. Lembra que amoça já era maior de idade quando os dois se envolveram e diz que o relacionamento com Mia estava em frangalhos, embora “entenda a raiva dela”.

Mas, ao falar de Dylan e Moses, tenta dar exemplos de como era um pai dedicado, que frequentava reuniões escolares e não poupava esforços para mimá-los. Conta, ainda, que sempre teve esperanças de Dylan procurá-lo quando ficasse mais velha. Sobre Ronan, diz que o amava e acredita ser seu pai biológico (e não Frank Sinatra, como Mia já insinuou), mas acusa o filho de hipocrisia e de ter tentado abafar uma reportagem com Soon-Yi.

Um leitor de 2020 pode estranhar o argumento de Allen para a pouca presença de atores negros em seus filmes: “cotas podem funcionar com muita coisa, mas não em elencos. Sempre escolho a pessoa que se encaixa de forma crível aos meus olhos”. Em seguida, conta ter batizado os filhos em homenagem a negros que admirava.

Se passagens como essas revelam um homem com dificuldade para enxergar pela perspectiva do outro, Allen tem seus melhores momentos quando olha par asi mesmo e debocha de suas neuroses. É difícil não rir quando ele narra sua quase fuga de uma festa pela janela ou de quando ele e Soon-Yi acharam que estavam na casa de Roman Polanski, mas o verdadeiro anfitrião era o bilionário russo Roman Abramovich.

Como sempre fez ao longo da vida, o diretor é habilidoso em romper com avida real e elevá-la ao absurdo da comédia. Ele também observa, porém: “sempre odiei a realidade, mas é o único lugar onde você encontra boas asinhas de frango.” 


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.





ENQUETE
Você acha que a Prefeitura acertou ao liberar a reabertura de shopings, bares e restaurantes?
É uma decisão acertada
O prefeito foi pressionado por empresários
Quem vai dizer são os consumidores
Tanto faz
PARCIAL