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ILUSTRADO
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2021, 06h:23

CINE-CRÍTICA

"Um Crime em Comum" mostra impotência de certas boas intenções

SYLVIA COLOMBO
Folhapress - São Paulo

O garoto se levanta com sono, a empregada da casa fecha carinhosamente seu uniforme e lhe entrega um copo de leite, enquanto ele se apressa para subir no ônibus escolar.
"Um Crime em Comum", em cartaz no cinema e estreia prevista para o dia 28 na Netflix, nos apresenta inicialmente a um grupo familiar simpático e inclusivo. A dona da casa, Cecilia (Elisa Carracajo) é uma professora universitária de sociologia, que leciona na Universidade de Buenos Aires, que tem como característica ser uma instituição bastante politizada.
Cecilia tem 38 anos e está separada, é uma mulher de classe média, responsável e progressista. Já Nebe (Mecha Martínez), sua empregada, parece ser parte da família. As duas passeiam juntas, almoçam na mesma mesa, divertem-se com as histórias de uma e outra e cuidam ambas do garoto Juan, filho de Cecilia.
O filme de Francisco Márquez é um thriller sociológico. A ideia é tirar Cecilia, essa mulher que leva muito a sério suas obrigações como docente e como cidadã, e colocá-la, de fato, diante de uma situação realmente complicada. Tirá-la da sala de aula, em que ensina como lidar com rigor acadêmico com as questões sociais e econômicas, e sentí-las na pele.
Ocorre que, em uma noite de chuvas e trovões, Cecilia se assusta com barulho do lado de fora de sua casa. Abre a cortina e vê, parado em seu jardim, o filho de Nebe (Eliot Otazo), que a observa com olhar de quem pede ajuda. Está claramente em perigo, e quer entrar desesperadamente. Só que sua imagem, ao mesmo tempo, é amedrontadora. Cecilia já tinha certo temor do rapaz de 15 anos, e ela sabia que ele vivia às voltas com problemas com a polícia.
Porém, mesmo tendo um forte vínculo com sua mãe, Cecilia não lhe abre a porta. Tremendo, volta para a cama. No dia seguinte, ao ver o noticiário, fica sabendo que o rapaz foi emboscado pela polícia perto da casa dela e morreu.
É então que a professora, antes tão dedicada, fica completamente transtornada, já não presta atenção em nada, na aula de natação de Juan, em sua vida acadêmica. Chora pelos cantos, se sente afogada. Por que não abriu a porta ao garoto? Como viver com essa imagem, a última que viu de Kevin com vida?
É aí que está o coração do filme. Bastam as boas intenções e o engajamento político, se na hora de agir o que fala mais alto são preconceitos e o medo? Cecilia luta contra uma enorme crise de consciência enquanto se mete nas entranhas do bairro humilde da periferia de Buenos Aires onde vive a empregada. Não tem coragem de contar-lhe seu segredo.
O filme também aponta para um problema latente do país. O relatório anual da Human Rights Watch sobre direitos humanos, lançado na semana passada, mostra que, na Argentina, as questões mais urgentes são a violência da polícia, as fraquezas do sistema carcerário e a violência contra a mulher.
Um dos achados de Márquez é trabalhar com a ideia de um parque de diversões. O filme começa e termina num deles. A princípio, de maneira festiva, quando Cecilia está organizando o aniversário de Juan para ser comemorado aí. Daí adiante, sua vida parece entrar num trem fantasma, em que ela parece se assustar com uma realidade que não via. Sua busca por uma libertação e por uma superação será cheia de altos e baixos, como uma montanha-russa.

UM CRIME EM COMUM
Quando: Em cartaz; 28/1 no streaming
Classificação: 14 anos
Direção: Francisco Márquez
Duração: 96 min.
Avaliação: bom


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