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Cuiabá MT, Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
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Sábado, 20 de Janeiro de 2018, 06h:41

LIVRO

Sueco faz de vida de Alan Turing trama 'noir'

A atormentada vida do matemático que decifrou códigos nazistas na 2ª Guerra é recontada como reflexão sobre preconceito contra homossexuais

REINALDO JOSÉ LOPES
Da Folhapress
Os detalhes improváveis da vida do matemático Alan Turing (1912-1954) parecem ter saído de uma narrativa "noir": o gênio excêntrico cuja mente fora do comum ajudou a derrotar os nazistas, perseguido por sua homossexualidade; o suicida que, inspirado em "Branca de Neve e Os Sete Anões", morreu ao comer uma maçã envenenada que ele próprio fabricara. O escritor sueco David Lagercrantz - continuador da saga Millennium após a morte prematura de seu conterrâneo Stieg Larsson (1954-2004)- resolveu levar a sério as semelhanças entre a realidade e o gênero de ficção ao escrever um romance policial sobre o suicídio de Turing. Suicídio? Bem, essa é a conclusão mais comum entre os biógrafos do pesquisador britânico, considerado um dos pais da ideia de inteligência artificial (a analogia deliberada com "Branca de Neve" é um pouco mais incerta). Mas a ambiguidade é um dos nutrientes indispensáveis às narrativas "noir", e Lagercrantz, ex-repórter policial da revista "Expressen", emprega doses consideráveis de incerteza e duplicidade ao longo de "A Morte e a Vida de Alan Turing", romance publicado originalmente em 2009. (O livro é de cinco anos antes, portanto, de "O Jogo da Imitação", filme vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado e indicado a outras sete estatuetas na premiação, inclusive a de melhor ator para o britânico Benedict Cumberbatch no papel de Turing). Não é que Lagercrantz tente subverter a hipótese do suicídio e transformar a morte de Turing numa queima de arquivo conduzida pelo governo britânico. O que o autor sueco faz é recriar o clima de preconceito e paranoia dos anos 1950. À época, funcionários públicos gays eram considerados, além de criminosos, um problema de segurança nacional no Reino Unido; acreditava-se que poderiam sofrer chantagens por parte de agentes comunistas ou de outros inimigos do Estado. Num ambiente como esse, seria a coisa mais fácil do mundo associar o silêncio governamental sobre a participação do matemático no esforço de guerra (Turing ajudou a decifrar os códigos de comunicação da Alemanha nazista) com sua homossexualidade e seu fim trágico. ESPELHO - Quem tenta ligar os pontos é um personagem ficcional, o detetive Leonard Corell, da pequena cidade de Wilmslow. Corell é o primeiro a examinar o corpo inerte do matemático e, daquele momento em diante, Turing se transforma numa espécie de espelho para aspectos soterrados da sexualidade e das ambições intelectuais do policial, membro de uma família aristocrática que perdera quase tudo. Mesmo depois que a investigação oficial sobre a morte do gênio se encerra, Corell não cessa de tentar entender os estranhos efeitos da terapia hormonal contra a homossexualidade que Turing foi forçado pela Justiça britânica a adotar ou as repercussões filosóficas e práticas da ideia de que máquinas também poderiam ser capazes de pensar. Em conversas com amigos do pesquisador, o detetive, a contragosto, transforma-se num admirador de Turing. É nesse ponto que o romance, além da recriação habilidosa da atmosfera opressiva da Guerra Fria, adquire ares de uma história narrativa das ideias, surpreendentemente instigante e precisa. Se por vezes o texto resvala em alguns esquematismos -como o estereótipo de que haveria uma associação natural entre homossexualidade e ideias brilhantes e pouco convencionais-, o conjunto do livro é mais do que compensador. O livro, lançado pela Cia das Letras com 408 páginas, está sendo vendido a R$ 35,90.

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