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ILUSTRADO
Quarta-feira, 25 de Março de 2020, 05h:44

MÚSICA

Morrissey lança seu álbum mais feroz em muitos anos

O controverso cantor dos Smiths volta com forte coleção de canções que trazem críticas à mediocridade dos tempos atuais, em prol de uma ‘verdade’ que os jornais não publicam

SILVIO ESSINGER
Da Agência Globo – Rio

Se há um artista que sempre esteve à beira do cancelamento, esse é Steven Patrick Morrissey. Sua poética cruel, seu veganismo radical e suas posições políticas pró-extrema direita (“No fim das contas, todo mundo prefere sua própria raça — isso torna todos racistas?”, perguntou ele, ano passado, em entrevista conduzida pelo sobrinho e publicada em seu site oficial) tornaram o cantor inglês um daqueles nomes que muitos preferem analisar separadamente como artista e como ser humano. E, enquanto muitos andam sobre ovos em meio ao turbilhão político de 2020, o que faz ele? Lança hoje sua mais feroz coleção de canções em muito tempo: “I am not a dog on a chain”.

Recado claro, de que ninguém vai detê-lo com uma coleira, o 12º álbum solo de inéditas do vocalista dos Smiths espanta a pasmaceira dos discos anteriores “California son” (2019, de covers) e “Low in high school” (2017) em grande — e controverso — estilo. É o velho Morrissey misantropo, em canções incontritas, nas quais exerce uma crítica sem limites do que considera ser a mediocridade dos tempos atuais, em prol de uma “verdade” que os jornais não publicam. Mas ele o faz, em boa parte, com faixas fortes, sedutoras, de sonoridade moderna, com um punhado de achados poéticos em meio à bile e com a segurança de quem está ali como potencial mártir na luta dos artistas pelo direito à autenticidade.

“Se você vai se matar / não diga coisas, apenas siga”, começa ele, metendo o pé na porta, em “Jim Jim Falls”, canção guiada por beats eletrônicos e guitarras, na qual se vale da metáfora da catarata para destilar sua falta de piedade pela humanidade. Morrissey volta ao assunto em “What kind of people live in these houses?” ao mostrar desprezo por uma geração que faz o mesmo que seus pais fizeram e que “olha para a TV como se fosse sua janela para o mundo”. Mas a síntese de seu pensamento está na faixa-título: “Não vejo sentido em ser legal”, canta ele, convocando o seu ouvinte “a ser insano”, a destacar-se das multidões (que “são barulhentas”) e a prezar o individualismo (que é onde está “a verdade”).

Autor, com os Smiths, de algumas das grandes canções de amor do século XX, Morrissey não abandona o tema em “I am not a dog on a chain” — mesmo que seja para falar dos “ricos tristes, caçando elefantes e leões” (em “Love is on its way out”) ou, como em “Darling I hug a pillow”, para expressar a barra que é gostar de alguém quando “tudo mais está no lugar, exceto o amor físico”.

Single do álbum, “Bobby, don’t you think they know?” sugere romance, mas é uma canção com som new wave industrial que prega violentamente contra a hipocrisia, com solos de órgão e de saxofone, conseguindo ser ao mesmo tempo desesperada e dançante.

Numa tradição de duetos femininos do cantor, a boa faixa traz a participação da diva negra da discoteque Thelma Houston (do hit “Don’t leave me this way”, de 1977). Ela, que já havia gravado um cover de uma composição de sucesso de Morrissey (“Suedehead”), disse ao site Pitchfork não acreditar que o astro inglês de 60 anos de idade “seja racista”.

E a parte final do álbum concentra as canções que irão testar a fidelidade do público do cantor. Breakbeats e feios sons de sopros sintetizados embalam a amarga “Knockabout world”, enquanto piano e bandolim dão a base para a operística e ultradramática “The truth about Ruth”.

Mas desafio mesmo é a longa “The secret of music”, em que ele enfileira versos com nomes de instrumentos de orquestra em cima de um longo, repetitivo e ruidoso instrumental, mais indicado para fãs de Velvet Underground do que para seus seguidores dos tempos dos Smiths. Pensando melhor, esses últimos sabem bem o que esperar do ídolo. Pode ser, simplesmente, o inesperado, e está tudo bem, afinal... trata-se de Morrissey, não de um Ed Sheeran qualquer. 


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