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Cuiabá MT, Sábado, 08 de Agosto de 2020
ILUSTRADO
Sábado, 11 de Julho de 2020, 05h:47

ENTREVISTA

Letícia Colin: "Nos colocamos politicamente, e as pessoas ficaram bravas"

Atriz de ‘Cine Holliúdy’, que reestreou esta semana, fala sobre a demonização dos artistas e lembra que pandemia mostrou como a cultura é fundamental

MARIA FORTUNA
Da Agência Globo – Rio
Letícia Colin

Letícia Colin ainda se adaptava à maternidade quando veio a pandemia. Uri, filho dela e do ator Michel Melamed, vai fazer oito meses e passou metade de sua breve vida no isolamento social. É nele, no entanto, que mora a força motriz da família para encarar o momento.

“É uma injeção de devir o tempo inteiro. Vejo a esperança engatinhando na minha frente”, diz Letícia.

Dentro das lições que a maternidade real joga na cara, a atriz de 30 anos pouco tem encontrado tempo para si mesma (“vejo as pessoas fazendo curso de inglês e francês na quarentena... não consigo fazer nada e já me sinto exausta”, diz). Ouvir experiências de mulheres dizendo verdades sobre ter filhos a ajuda.

“Eu imaginava que poderia cair na depressão pós-parto, já que tive depressão. Mas foi suave, porque fui amparada pelo Michel e pela rede feminina de trocas de informação. Quando fiquei grávida, fiz o pacto de ser uma mãe que abandonaria estruturas antigas de quem está sujeita a aprovações”, conta.

No ar na reprise da novela “Novo mundo”, Letícia reestreou como a Marylin da série “Cine Holliúdy”, exibida às terças, na Globo. E já trabalha em um novo projeto com Melamed.

 

P - “Cine Holliúdy’’ traz o lúdico, o sonho, a poesia. Qual é a importância de a série voltar ao ar agora?

LETÍCIA COLIN - Não deixar o sonho morrer nunca foi tão fundamental. Mesmo quando parece que nada vai dar certo, o Francisgleydisson (personagem principal da história) insiste. O projeto vem de um curta-metragem, que virou um filme e série de TV. É um diálogo inteligente, porque a gente tem que dialogar, fazer concessões. Gosto desse olhar do filme, me identifico com o personagem. Além disso, o Brasil popular e plural se vê na tela. É lindo entrar em contato com esse berço artístico, com o humor cearense. Sem falar que, quando a série foi lançada, era época das eleições, os artistas tiveram que se colocar politicamente, e as pessoas ficaram bravas com a gente. Agora, está todo mundo percebendo como é possível se deleitar com a produção dos artistas. Quantas séries as pessoas estão podendo ver por causa do nosso trabalho? É uma homenagem aos trabalhadores dessa indústria.

 

 

P - A série fala da resistência do cinema. Enxerga um paralelo com esse momento em que a arte está tendo que se reinventar para sobreviver?

LC - A gente brinca com gêneros, tem alienígena, vampiro... Cada episódio é um gênero diferente. O que acontece na cidade em que se passa o filme entra no longa que eles produzem. E é um pouco o que está acontecendo agora. De alguma maneira,estamos nos apropriando dessas restrições e da tragédia da pandemia para continuar investigando caminhos artísticos. É um jeito de elaborar através da arte. A criação artística propicia uma reflexão sobre o que as palavras não estão dando conta.

 

P - Você também está na reprise de “Novo mundo”, interpretando a princesa Leopoldina. Como é se ver depois de tanto tempo após a conclusão do trabalho?

LC - Emocionante. Essa novela tem ingredientes de que gosto muito. Novelas de capas e espada sempre foram as que me encantavam mais. Eu tinha uma excitação em poder habitar aquele ambiente antigo, as roupas, a caracterização, fizemos aulas de piano, o jeito de se portar... Um universo muito instigante pra mim. Foi transformador falar de Leopoldina de uma maneira que nunca tivemos oportunidade de ouvir. A História sempre foi protagonizada pelos homens. Leopoldina mexe com inconsciente feminino. Ela foi silenciada, esteve sempre no lugar da subserviência. De repente, teve espaço. É um serviço público para que gente possa investigar nossa própria história. Agora, estou podendo curtir mais... É claro que gostaria de refazer algumas cenas (risos).

 

P - Você estaria rodado o filme "Porta ao lado", dirigido pela Julia Rezende, se não fosse a pandemia, né? Sobre o que ele fala?

LC - É a história do encontro de dois casais: um monogâmico, o outro, que tem uma relação aberta. Aquilo mexe com eles e os faz pensar delicadamente nesse convívio, se questionar. É um espelhamento dessas relações diferentes que, na verdade, estão sempre buscando dar conta do amor.

 

P - Você também se questiona sobre monogamia?

LC - Mexe com a gente. Eu, por enquanto, não estou me questionando. Tô amando ter construído isso. Relacionamento é uma obra que você vai construindo. Estou vivendo esse orgulho de ter dito "sim" quatro anos atrás e, agora, estar aqui com o Uri. O mundo do avesso e a gente podendo contar um com outro. Estou orgulhosa porque a gente sabe o quanto é raro ter um encontro e ele se frutificar.

 

P - Vocês devem viver uma troca intelecutal e artística de muita contribuição para ambos. Pensam em projeto juntos?

LC - Dizem que ter filho separa, mas a gente está ainda mais unido. Estamos começando a desenvolver experimentos. Deve ser um programa de episódios, com poesia e experiências visuais. É desafiador voltar a trabalhar em casa com um bebê, mas a gente se admira e estamos juntos na mesma casa. Então, temos que aproveitar a equipe na mesma locação (risos), né?

 

P - Como foi viver uma médica dependente de crack, na série ainda inédita “Onde está meu coração”, estando grávida?

LC - Estar vivendo a intensidade da gravidez me deu mais ferramentas. É tão vertiginosa a relação da Amanda com a vida, a família, a adicção. Gerar um filho também é dessa ordem. Perguntei à minha psiquiatra se via problema nas cenas de choro. Ela disse: “É seu filho, filho de um casal de atores, de uma pessoa que se relaciona com as emoções sem medo de passar por elas. Isso está contido na vida e está tudo bem”. Isso me acalmou. Fui livre no meu processo por causa dessa conversa e por ter me comprometido a aceitar as coisas da vida fazendo meu trabalho. Estou contando uma história que vale, amparada por uma diretora mulher, parceira (Luisa Lima). A gente fica numa sensibilidade e intuição profundas grávida. Esse vai ser um trabalho especial por causa disso. Eu estava com superpoderes (risos).

 

P - No que a sua experiência com a depressão te aproximou da médica Amanda?

LC - A depressão é o lugar do descontrole, do desamparo, da solidão, do “despertencimento”. Você se isola e não tem forças para quebrar o ciclo. O lugar da dependência química tem essa raiz: algo que se dá internamente, você tenta romper e não consegue. Precisa de tratamento, análise, internação sem ser compulsória. Fiquei escandalizada ao descobrir como esse mercado de internações é lucrativo. Você pode trancafiar uma pessoa e não dar alta nunca só para continuar recebendo a mensalidade da família. E as pessoas que sofrem são minimizadas. O discurso desinformado é cruel. É uma questão de saúde pública. Ter convivido com a depressão me fez olhar com mais compaixão, pelo lugar da dor. Você se sente fora do ciclo da vida de quem sente prazer e é leve. O adicto também se sente assim, como se não fizesse parte. Acho que agora estamos tendo mais liberdade para falar sobre isso. Débora Falabella falou sobre síndrome do pânico em filme (“Depois a louca sou eu”). Estamos muito afetados pelo mundo contemporâneo, pelo excesso de informação. A gente tem que debater nossas doenças, nossos pontos fracos. É uma grande escola, uma maneira de eu pode lidar com meu passado e minhas dores, ter certeza de que viajo por esse sentimento de uma maneira menos hipócrita.

 

P - Diretores que te dirigem dizem que se entrega completamente. Como é trabalhar assim, à flor da pele?

LC - É uma odisseia quando a gente entra numa personagem, um caminho tão profundo... É ano da nossa vida, às vezes. Matheus Nachtergaele diz que somos cavalos do personagem, e somos mesmo. Todo mundo tem muitos lados, inclusive um lado difícil de ser compreendido e habitado. Tem a ver com esse vazio do ser humano de a gente não tem coragem de dizer que sente. Essas personagens me fazem companhia no meu ítimo. Existem coisas que só a arte para a dar conta, desejos, vazios, coisas que a gente não nomeia. O personagem entra ali e me leva para passear.

 

P - Quais os seus principais desejos no sentido da atuação? Você sente quando atravessa o portal nesse exercício de alteridade?

LC - Tem alguma coisa que reverbera no corpo. Com o passar do tempo, fui afinando essa escuta para trabalhar a partir dos limites e dessas vibrações. A gente sente quando se encaixa, sente uma alegria, um preenchimento. Mas, às vezes, você sente e depois perde. E aí, chega na sala de ensaio e não tem nada.

 

P - Como está sendo ser mãe em tempo integral nessa quarentena?

LC - Uma loucura! Uri tinha dois meses quando começou a quarentena e estávamos nos adaptando à chegada dele. Tudo acontece com muita intensidade, tanto na relação familiar que se transforma cada vez mais pela interação com ele e como por pessoa que vai deixando de ser um bebê e tendo características individuais. Quatro meses para um neném que vai fazer oito é quase a vida toda dele.

 

P - Sobra tempo para você?

LC - Vejo as pessoas fazendo curso de inglês, francês. Eu não consigo fazer nada e me sinto exausta. Ainda estamos sob a nuvem tenebrosa dessa política, o que nos deixa angustiados, infelizes e revoltados. Mas os filhos ocupam o lugar, a gente está a serviço deles. Aos poucos, vou retomando um lugar que é meu com o budismo, que pratico há seis anos.

 

P - A maternidade retratada em filmes e novelas é bem diferente da realidade. O que tem te ajudado nessa jornada?

LC - Leio e sigo mulheres reais contemporâneas que falam sobre o tema. Fui me aproximando do discurso mais corajoso de falar a verdade sobre esse período, atravessada pelos hormônios. Todos nós estamos passando pelo movimento de quem não era muito politizado, passar a ser, e isso é bom. Ter embasamento político para compreender o racismo, o feminismo. Já vinha me aprofundando em grupos. E esse espaço é muito formado por essas mães reais. Eu imaginava que poderia cair em depressão pós-parto, já que tive depressão. Fui me precavendo. Acabou que foi suave, fui amparada pelo Michel. Nosso relacionamento é um encontro profundo e feliz, que me dá estrutura e ferramentas. Tive dificuldade de amamentação, é dolorido, cansativo. Mas na primeira semana que voltei para casa após o parto normal, voltei para a análise e falei sobre isso. Fernanda Lima mudou minha vida, me escrevia sobre choque inicial das primeiras semanas, da privação do sono que desnorteia. Escutei palavras de pessoas na hora certa que me fizeram chorar, viver intensamente as emoções e me aliviar. Para ser luminoso tem que aceitar as sombras. A rede feminina de troca de informação ajuda demais, graças a essas mulheres que vieram antes: Mariana Lima, Maíra Azevedo, Flavia Oliveira... É tão libertador ver alguém que você admira falando a verdade.

 

P - E culpa materna, carrega?

LC - Trabalho muito isso, mas percebo que ainda caio nesse lugar. Sempre me cobrei muito desde que pequena, sou acostumada a ter um nível alto de exigência e responsabilidade. Estou querendo me libertar. Quando fiquei grávida, fiz o pacto de ser uma mãe que avançaria no sentido de abandonar estruturas antigas de quem está sujeita a aprovações. Se piscar, você entra num modo contínuo antigo, se comparando, vai se diminuindo ou se cobrando uma produtividade que não existe. Me identifico no budismo com um rigor sem ser rigoroso. Encontrei a pureza e o valor humano, a dignidade e a subjetividade do indivíduo.

 


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