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ILUSTRADO
Quarta-feira, 29 de Abril de 2020, 06h:42

QUARENTENA EM CASA

Filmes de pandemia ensinam o que não fazer em casos como o do coronavírus

CLARA BALBI
Da Folhapress - São Paulo
Cena do filme Contágio. com o ator Jude Law

A certa altura do filme "Contágio", de Steven Soderbergh, um homem descreve a sua rotina desde que a pandemia do fictício vírus Mev-1 se alastrou pelo planeta.

Ao chegar em casa, sua mulher o obriga a tirar a roupa ainda na garagem. As peças são postas de molho numa bacia de água quente com sabão. Tudo o que ele tocou nesse meio tempo é desinfectado com álcool em gel.

"Ela está exagerando, né?", pergunta o homem a uma especialista em epidemias vivida por Kate Winslet. "Na verdade, não", ela responde. "E pare de tocar seu rosto, Dave."

O diálogo beirava o cômico na época da estreia do longa, em 2011. Nove anos depois, porém, parece dolorosamente real a espectadores que, trancafiados em casa por conta de uma pandemia, ainda lutam contra o reflexo de pôr as mãos no rosto a cada par de segundos.

Ainda assim, muita gente voltou a assistir o filme nos últimos tempos. Entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano, a busca pelo título em sites de pirataria aumentou 5.609%, segundo um artigo publicado na Forbes. No mês passado, se tornou o sétimo título mais alugado do iTunes americano.

O sucesso de "Contágio" veio acompanhado -enquanto "Epidemia", de 1995, figurou entre os filmes mais assistidos da Netflix brasileira em março, listas e mais listas lembraram de produções como "Ensaio sobre a Cegueira", "Eu Sou a Lenda" e "Os Doze Macacos".

Mas o quanto essas narrativas podem ajudar a enfrentar uma pandemia na vida real?

"Contágio" talvez seja uma exceção nesse sentido. Ao contrário da maioria dos filmes-catástrofe -que não raro, descambam para outro gênero, o dos zumbis-, ele não está preocupado com mostrar um herói que luta contra o sistema, mas a batalha de uma sociedade inteira contra um vírus desconhecido, dos agentes do governo e da Organização Mundial da Saúde, a OMS, aos cientistas em busca de uma vacina.

Além disso, nada ali é tão distante da realidade, segundo os especialistas. O médico infectologista Plínio Trabasso, coordenador de assistência do Hospital das Clínicas da Unicamp, afirma que tanto os índices de mortalidade do vírus inventado -de 25% a 30%, próximos daqueles do ebola- quanto a maneira como ele chega no paciente-zero são viáveis.

A única exceção, diz Trabasso, é o tempo de aprovação da vacina, que na trama é de alguns meses. Ele afirma que esse processo leva de sete a dez anos em média, embora possa ser apressado num caso excepcional. Além disso, no filme, o vírus mata 26 milhões de pessoas. A título de comparação, a Covid-19 matou cerca de 170 mil pessoas até agora.

A verossimilhança se limita, no entanto, aos aspectos técnicos da evolução da doença. Pois mesmo com uma proposta mais realista, ele não deixa de obedecer às convenções narrativas dos filmes de pandemia, afirma Marcio Markendorf, coordenador do programa de pós-graduação de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, a UFSC.

A fórmula é a seguinte: um homem é exposto ao vírus. Tenta alertar a população em relação aos seus perigos, mas ninguém o leva a sério. À medida que a situação fica fora de controle, no entanto, cabe a ele descobrir a cura. Ou, no caso do Matt Damon em "Contágio", agir com um pouco mais de bom senso do que o resto do elenco.

Porque, a essa altura, o caos já se instaurou pelo planeta. Para continuar no exemplo de "Contágio", as pessoas se digladiam por mantimentos nos supermercados, um repórter mau-caráter tenta lucrar com um remédio homeopático sem eficácia comprovada, e agentes oficiais usam as informações sigilosas a que têm acesso para salvar seus parentes antes.

É nessa contradição entre o herói racional e o mundo em chamas, aliás, que reside a moral de grande parte desses filmes, afirma Markendorf. Não à toa, ele diz, o mocinho costuma ser um médico ou um cientista.

Nesse sentido, esses protagonistas seriam, sim, bons exemplos de como agir diante de uma pandemia real.

Afinal, eles se comportam com solidariedade em meio ao egoísmo e à ganância, e tendem a pensar a nos outros antes de em si mesmos.

O problema é o panorama geral apresentado por essas narrativas. "O que elas ensinam é que nossa ideia de civilidade pode ruir muito facilmente na luta pela sobrevivência. É como se propusessem um prazer sádico de ver o fim das formas elaboradas do capitalismo", afirma Markendorf. É isso que explica, por exemplo, a profusão de cenas em que a natureza toma os espaços urbanos em longas do gênero.

Além disso, alerta o professor da UFSC, buscar essas fantasias de catástrofe durante uma pandemia pode aumentar a ansiedade do espectador, e não aliviá-la.

Em especial num momento em que, por causa da rapidez da circulação das mensagens, estamos ávidos por imagens chocantes, sensacionalistas. "A própria velocidade com que elas se propagam pode ser considerada uma espécie de contágio ou de contaminação, mas ideológica", diz Markendorf.

 "Os filmes acabam sendo muito assustadores porque mostram justamente como é fácil contrair qualquer tipo de doença. E por falarem que, não importa quanta tecnologia tenhamos, sempre existirá um evento anômalo que não conseguiremos ultrapassar", continua o professor.

 Aos espectadores, assim, a recomendação é ir com calma na hora de maratonar esses filmes. E não só para digerir o caos que eles retratam, mas também ao usar as atitudes dos protagonistas de exemplo.

 Afinal, nos roteiros de Hollywood esses personagens são imunes à doença, escolhidos para descobrir a sua cura por um vaticínio qualquer.

E, porque essas são ficções, a todo tempo lutando para prender a atenção de quem está do outro lado da tela, seus protagonistas se expõem a uma série de perigos -não só para eles, mas para o resto da humanidade.

Em "Epidemia", Dustin Hoffman arrisca a destruição do soro que cura o vírus mortal Motaba numa explosiva perseguição de helicópteros. Em "Contágio", a cientista que lidera a busca pela vacina vai ver o pai doente sem nenhuma proteção para testar se antídoto, que ela aplicou em si mesma, funciona.

Em tempos de pandemia, talvez seja melhor deixar de lado o mito do herói individual. Ele funciona melhor nos filmes.

 Nove filmes sobre pandemias

 'O Enigma de Andrômeda' (1971)

Considerado um dos primeiros filmes de pandemia da história, acompanha um grupo de cientistas num laboratório para descobrir uma doença alienígena que, quando não mata, enlouquece e leva ao suicídio.

 'Epidemia' (1995)

Dustin Hoffman vive um teimoso pesquisador do centro de doenças infecciosas do exército americano na trama, adaptada do livro de não-ficção "Zona Quente", do jornalista Richard Preston. Ele contraria ordens superiores para controlar o surto do vírus motaba, parecido com o ebola, numa cidadezinha nos Estados Unidos. Um Kevin Spacey ruivo faz uma participação como um cientista mau-humorado.

 'Os Doze Macacos' (1995)

A narrativa se passa em 2035, num planeta devastado por um vírus artificial criado pelo Exército dos Doze Macacos. Bruce Willis é o detento escolhido para viajar para o passado e recolher informações sobre a doença. Ele volta, no entanto, para o ano errado, seis anos antes da disseminação. O filme de Terry Gilliam é inspirado em "La Jetée", de Chris Marker.

 'Ensaio sobre a Cegueira' (2008)

O longa dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles é inspirado no livro homônimo de José Saramago. Nele, os habitantes de uma cidade sem nome perdem a visão um a um, de uma hora para a outra -mas a sua cegueira é branca, leitosa. Os pacientes da doença são transferidos para abrigos para uma quarentena, mas aos poucos a doença contamina a todos e leva a sociedade ao colapso. A única pessoa que vê é a mulher de um médico, interpretada por Juliane Moore.

 'Contágio' (2011)

Inspirado em surtos de vírus como o Sars, no início dos anos 2000, o filme de Steven Soderbergh é considerado um dos mais verossímeis quando se fala do impacto de uma pandemia. O longa mostra como diversos segmentos da sociedade lidam com ela, da população em geral aos agentes governamentais, passando pela mídia e pelos cientistas que tentam desenvolver uma cura para a doença.

 'Sentidos do Amor' (2011)

Eva Green e Ewan McGregor fazem par romântico no longa britânico. Ela é uma médica epidemiologista. Ele, um chef de cozinha. À medida que eles se envolvem, porém, uma misteriosa pandemia que faz com que as pessoas percam o olfato se espalha.

 'A Gripe' (2013)

Uma epidemia se dissemina por Bundang, no subúrbio de Seoul, na Coreia do Sul, depois que um traficante de imigrantes os traz ao país. Uma médica infectologista e um agente de saúde governamental correm contra o tempo para encontrar o paciente zero e desenvolver uma vacina.

 'Os Últimos Dias' (2013)

A humanidade inteira sofre de um tipo fatal de agorafobia, medo irracional de espaços abertos, e se refugia em prédios e casas nesse longa espanhol. Em Barcelona, Marc tenta encontrar Julia, sua namorada, que desapareceu. Mas tem que fazê-lo sem sair ao ar livre.

 'Eu Sou a Lenda' (2007)

Numa Nova York pós-apocalíptica, o único homem que resta é Robert Neville, infectologista do exército americano vivido por Will Smith. Os demais humanos foram ou dizimados por um vírus que deveria curar o câncer, ou transformados em mutantes com hábitos noturnos. Imune à doença, Neville tenta desenvolver uma cura enquanto luta contra esses seres. O longa é baseado num livro homônimo de Richard Matheson que rendeu outras duas adaptações cinematográficas - "Mortos que Matam", de 1964, e "A Última Esperança da Terra", de 1971.

 


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