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Quarta-feira, 25 de Março de 2020, 05h:42

LIVRO

Escritora americana branca é criticada por escrever livro sobre mexicanos, que é lançado no Brasil

SYLVIA COLOMBO
Da Folhapress - São Paulo

Amor e ódio. São esses os dois sentimentos gerados pelo romance "Terra Americana", da autora Jeanine Cummins, que chega agora ao Brasil. Antes de mais nada, é preciso dizer que, como literatura, a obra não supera o nível médio. Nem em termos de narrativa nem de formato.

Mas trata de temas delicados, do ponto de vista político, social e humano e, ao fazer isso, acabou irritando autores e intelectuais latinos nos Estados Unidos, apesar dos elogios de personalidades como Stephen King e Oprah Winfrey e de resenhas positivas no jornal The New York Times e outras publicações de prestígio. Isso acabou pondo nuvens na relação entre leitor e obra, que são impossíveis de ignorar.

"Há uma parte boa, a das avaliações positivas, e uma má, a reação de escritores latino-americanos, mas que eu acho que merece reflexão, porque, no fundo, o que questionam é que direito tenho eu, mulher branca e americana, de falar sobre um tema mexicano, um tema centro-americano, de um drama da fronteira. É uma discussão sobre liberdade de expressão. Por que eu não poderia falar disso?", diz Cummins, em entrevista por telefone.

"Terra Americana" é a história de uma mãe e de um filho, Lydia e Luca, que têm toda a família morta num ataque de cartel em Acapulco, no estado de Guerrero, um dos mais violentos e pobres do México.

Lydia resolve que o melhor para ambos é fugir para Denver, nos Estados Unidos, mas precisam fazer isso de modo ilegal. Para tal, escolhem subir a bordo da Bestia, famoso trem de carga no qual muitos imigrantes ilegais sobem e viajam de modo tremendamente inseguro.

Eles têm de se agarrar como podem na parte de cima dos vagões ou se acomodar nas ferragens entre um vagão e outro, correndo o risco de cair ou de se machucar em cada uma das curvas.

É fato que existem livros excelentes de reportagem sobre o trem, um deles escrito pelo salvadorenho Óscar Martínez, que de fato realizou a viagem e a descreve em toda sua dureza e crueldade em "La Bestia". E há outros livros de ficção que se concentram no modo como vivem os que cruzam e os que veem passar os imigrantes. São histórias dolorosas, mas que também buscam retratar os atos de solidariedade humana que se dão nesse ambiente.

Já o livro de Cummins, mesmo que mencione muitas das dificuldades enfrentadas ao longo do trajeto e vividas no momento de atravessar a fronteira, meio que as deixa de lado para criar um enredo amoroso aí, em que Lydia tem um "crush" com o chefe do cartel de Acapulco.

É de se imaginar que escritores que são especializados em fronteira, que estão vivendo ou trabalhando aí o tempo todo, tratando de forma ficcional ou não ficcional seus temas, se incomodem muito com esse tipo de abordagem.

É o caso, por exemplo, da mexicana Valeria Luiselli, que, em entrevista recente a esta repórter, no Hay Festival de Cartagena, disse que estava criticando publicamente esse livro por jogar contra o esforço que todos esses autores fazem para alertar, reportar, ficcionalizar um drama "que precisa ser visto com mais empatia, por mexicanos, americanos e pelo mundo". Luiselli já lançou romances e agora trabalha num projeto multimídia sobre os povoados da fronteira, de ambos os lados.

Cummins afirma que há injustiça em muitos dos que criticaram a obra "pelo simples fato de ter sido escrita por alguém que não é da comunidade". Conta que tem uma avó porto-riquenha, mas seus críticos dizem que esse personagem apenas surgiu como defesa quando a autora já estava sob ataque.

"Há um debate aqui, que se levarmos pelo lado sério, é importante que se dê, que é o da apropriação. A fronteira hoje é um território dos dois países. Por causa da minha avó, eu cresci ouvindo 'spanglish' [mistura de inglês com espanhol], e assim é a fronteira também", diz.

E acrescenta: "Depois, existem os que me acusam de não poder contar uma história do ponto de vista de um imigrante. E por que não?". Ela conta, por exemplo, que entrevistou imigrantes, que visitou orfanatos para construir o personagem de Luca e que esteve em abrigos para imigrantes. "Falaram de mim como se eu não conhecesse a realidade, mas parece que o único problema é eu ter escrito um romance sobre latinos sendo eu branca", afirma.

Cummins conta também que começou a escrever a obra a poucos meses da eleição de Trump, em 2016, embora viesse fazendo pesquisas para o livro havia mais de cinco anos. E que o publicou depois que o pai morreu. "O episódio me deu coragem, e também percebi que o país estava mudando e que esse relato era importante. Que meu pai gostaria que eu o escrevesse."

Ela crê que a ideia de que escreveu um livro açucarado vem de gente que não leu a obra. E que há, como o dela, outras obras, inclusive documentários, sobre o tema da compaixão e dos laços afetivos e de solidariedade que existem na fronteira.

"Por que mostrar só o lado feio? Acompanhei essas mulheres que acordam às quatro da manhã para fazer comida para levar ao trem, no momento em que ele passa por sua cidade, e atirar as refeições aos imigrantes", conta, lembrando as chamadas "Las Patronas".

"Se gostam ou não do livro como literatura, eu deixo para cada um. O que creio que deve ser público é esse debate sobre liberdade de expressão, sobre a ideia de que há um grupo de gente que é de algum modo dona de um relato. Isso não pode existir. Não se vêm para os Estados Unidos por causa, entre outras coisas, da liberdade de expressão? Pois, que eu lance este livro é uma demonstração de que aqui se pode falar e escrever a respeito do que se escolher."

 TERRA AMERICANA

Preço: R$ 49,90 (416 págs.)

Autor: Jeanine Cummins

Editora :Intrínseca

Tradução: Flávia Rössler, Cassia Zanon e Maria Carmelita Dias 


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