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Cuiabá MT, Sábado, 04 de Abril de 2020
ILUSTRADO
Terça-feira, 24 de Março de 2020, 00h:00

PANDEMIA

Enquanto 'A peste' vira best-seller, editor de Albert Camus está num navio sem saber se poderá sair

Maior especialista no autor, Raymond Gay-Croiser explica por que obra é fundamental em tempos de coronavírus

No livro mais citado desde a explosão da pandemia de covid-19, os habitantes de Orã, na Argélia, começam a morrer após alguns dias de febre e gânglios inflamados. Em “A peste”, escrito em 1947 pelo franco-argelino Alberto Camus, o prefeito bota a cidade toda de quarentena. E ninguém mais pode entrar ou sair.
Enquanto o coronavírus se espalha pelo mundo, Raymond Gay-Crosier, um dos maiores especialistas na obra de Camus, encontra-se a bordo de um cruzeiro, atravessando a costa da América do Sul, sem saber onde irá desembarcar. Suíço radicado nos Estados Unidos, onde dá aulas na Universidade da Flórida, ele está a caminho de Buenos Aires. Para conter a expansão da doença, o governo argentino também fechou suas fronteiras. Como em Orã.
“As autoridades argentinas ainda não decidiram se vão permitir o nosso desembarque”, diz Gay-Crosier.
O livro, “A peste” voltou à lista de mais vendidos em países severamente castigados pelo coronavírus, como a Itália e França, onde a procura pelo romance quadruplicou em uma semana. No Brasil, a procura pelo livro na Amazon triplicou na primeira quinzena de março. O Grupo Editorial Record, que publica Camus no país, informa que as vendas do livro aumentaram 65%. Nem todos fazem coro, porém. Em um artigo publicado no jornal espanhol “El País”, o Nobel de Literatura peruano Mario Vargas Llosa disse que “A peste” é “o pior romance de Camus” e lamentou que esse livro “medíocre” tenha voltado à lista de best-sellers.
Apesar da conexão instável no navio, Gay-Croiser, que coordenou a edição da obra completa de Camus na França, conversou com a reportagem, por e-mail. E diz por que ler “A peste” neste momento, além de indicar outras leituras para a quarentena.

P - Como a pandemia está afetando sua viagem? Já sabe se poderão desembarcar em Buenos Aires?
GAY-CROSIER - Ainda estamos um pouco longe da costa. As autoridades argentinas ainda não decidiram se vão permitir o nosso desembarque. O navio zarpou no dia 5 de março, em Santiago, no Chile. Todos aqui continuam saudáveis. Não fomos advertidos a permanecer nas cabines e, sendo um cruzeiro de luxo, estamos sendo mimados como de costume.

P - “A peste” voltou à lista de best-sellers de países como França e Itália. Por que ler este romance em meio à epidemia de coronavírus?
GAY-CROSIER - As pessoas costumam voltar para grandes textos de ficção para lidar com a realidade, para formular boas perguntas e elaborar respostas concretas baseadas no comportamento dos personagens. “A peste” ainda está vivo na memória de muitos leitores, não só na França, que se recordam de como o livro apresentou um retrato ficcional, porém realista, de como as pessoas reagem ao enfrentar um inimigo mortal.

P - O senhor se refere à interpretação de que “A peste” seria uma metáfora da França ocupada pelos nazistas, correto?
GAY-CROSIER - Sim. Quando publicado, o livro foi imediatamente considerado uma referência mal disfarçada à ocupação alemã e às dificuldades da Resistência França. No livro, a primeira reação dos cidadãos à peste é se isolar ou cair em depressão. As autoridades instintivamente se negam a tomar medidas adequadas e colocam interesses políticos e econômicos acima da saúde pública. Um dos personagens do romance, Raymond Rambert, é um jornalista que acaba desistindo de deixar a cidade e, por isso, não reencontra a mulher amada. Ele se junta ao Dr. Rieux na luta contra a peste e simboliza as difíceis escolhas que os membros da Resistência Francesa precisavam fazer.

P - Camus também desenvolveu um pensamento filosófico em diálogo com o existencialismo, resistiu aos nazistas e denunciou o autoritarismo soviético. O que podemos aprender com ele em tempos de epidemia e ascensão de regimes autoritários?
GAY-CROSIER - O contexto filosófico, essencialmente ético, de “A peste” fica mais claro quando Camus publica o ensaio “O homem revoltado”, em 1951. Somente a recusa metódica da morte, do absurdo, explica as motivações de Rambert e Rieux. A rebelião contra a ameaça iminente traz esperança que, embora temporária, restabelece a dignidade humana. “A peste” exemplifica as teses dos dois grandes ensaios filosóficos de Camus, “O homem revoltado” e “O mito de Sísifo” (personagem da mitologia grega condenado pelos deuses a, todos os dias, empurrar uma pedra de mármore morro acima antes que ela caísse novamente). Aliás, em “A peste”, Sísifo é representado por Joseph Grand, um aspirante a escritor que reescreve inúmeras vezes a mesma frase.

P - Antes de Camus, outro autor recuperado em tempos de crise foi George Orwell, que voltou à lista de best-sellers depois da eleição de Donald Trump e outros populistas. Por que voltamos aos clássicos em tempos de incerteza?
GAY-CROSIER - Grandes artistas oferecem respostas e retratos exemplares. Pense em “Guernica”, de Picasso. Por meio da ficção (ou até da pintura), eles provocam reações cujo efeito às vezes é nos reassegurar de que nem tudo está perdido.

P - O que mais o senhor recomenda ler na quarentena?
GAY-CROSIER - “Guerra e paz”, de Tolstói, e os romances de Dostoiévski, que influenciaram muito Camus.


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