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Cuiabá MT, Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020
ILUSTRADO
Domingo, 01 de Março de 2020, 14h:38

CARNAVAL 2020

De "alma lavada", Viradouro leva o ouro

Ó mãe! Ensaboa mãe! Ensaboa pra depois quarar...

VALÉRIA DEL CUETO
Especial para o DIÁRIO
Divulgação
A Viradouro levou o título de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro neste ano

A Viradouro levou o título de campeã do Grupo Especial do carnaval carioca de 2020 correndo por fora durante a maior parte da apuração. Foi a segunda agremiação a desfilar no domingo de carnaval (nunca uma escola nessa posição havia conquistado o título). Desde "É Segredo", da Unidos da Tijuca, há dez anos, ninguém chegava ao campeonato no primeiro dia de desfile! O primeiro e único título da escola de Niterói havia sido em 1997 com o enredo "Trevas! Luz! A Explosão do Universo". Depois de passar por um rebaixamento, ano passado e vermelho e branca quase chegou lá, sendo vice-campeã.

Impossível se mensurar em 2020 uma unanimidade entre as preferidas para chegar ao título. Claro que o quesito verbas públicas pesou - e muito - na balança da finalização dos projetos. Entre o primeiro e o quarto lugar, três escolas eram de municípios da região metropolitana do Rio que subvencionaram suas "filhas". A campeã, Viradouro, de Niterói, a vice Grande Rio, de Duque Caxias, e a quarta colocada, a Beija-Flor, de Nilópolis.

Outro ponto interessante é que a campeã, com Marcos Ferreira e Tarcísio Zanon, e a vice, com Leonardo Bora e Gabriel Haddad, apostaram em carnavalescos vindos do Grupo de Acesso. A iniciativa indica a renovação dos criadores e gestores e, também, uma questão econômica se considerarmos que seus valores não eram tão elevados quanto os do mainstrean da categoria. E onde esses foram parar? Em São Paulo...

Foi por isso que Paulo Barros, depois de chegar ao vice-campeonato na Viradouro em 2019, não continuou no projeto esse ano. Para fazer a Gaviões da Fiel, em São Paulo, trocou a escola de Niterói pela Unidos da Tijuca. Se deu mal lá quase sendo rebaixado. E aqui amargou um 9ªlugar.

DESFILE DAS CAMPEÃS

O "Jesus da Gente" da Mangueira por pouco não volta nas campeãs. Ficou em sexto e é a primeira agremiação a se apresentar. Apesar do excelente ensaio técnico no teste de som e luz o samba não empolgou na avenida. A verde e rosa volta disposta virar o fio de sua performance e mostrar aos 70 mil espectadores na Sapucaí (os ingressos já se esgotaram), que "A verdade vos fará Livre". Em tempo: o carnavalesco Leandro Vieira está em busca da sua "verdade" nos próximos dias. Precisa escolher entre continuar na Mangueira onde já tem 2 títulos nos últimos 4 anos no Especial, ou "subir" com a Imperatriz Leopoldinense com quem foi campeão do grupo de Acesso esse ano.

O circo do Salgueiro tão lindo, pouco falava de Benjamin de Oliveira, o palhaço negro homenageado. Mas nos quesitos plásticos foi imbatível. Com o quinto lugar será a segunda escola a se apresentar. Destaque para Marcela Alves e Sidcley, casal que alcançou os 50 pontos no difícil quesito de mestre-sala e porta-bandeira. Também chegaram a nota máxima os casais da Viradouro e da Grande Rio.

Em quarto lugar a Beija-Flor é a terceira a entrar na Sapucaí. Destaque para a comissão de frente Mad Max ambientada num ferro velho numa esquina qualquer da baixada fluminense em que reina a entidade da rua no enredo "Se essa rua fosse minha". E, também, suas maravilhosas baianas.

A homenagem à Elza Soares da Mocidade Independente de Padre Miguel, por incrível que pareça, perdeu pontos no quesito bateria. Algo no desenho da "Não Existe Mais Quente" tirou a escola da briga pelo campeonato. A comissão de frente que retrata a vida da cantora e utiliza holografia chamou a atenção, além do samba, um dos preferidos pelo público. Em terceiro lugar, desfilará na quarta posição da noite.

O mítico babalorixá Joãozinho da Goméia quase levou o título inédito para a Grande Rio, de Duque de Caxias. Penúltima a desfilar, a vice campeã embalará os versos "eu respeito seu amém e você respeita meu axé", pedindo tolerância religiosa. A escola, que vinha liderando a apuração, perdeu o título nos dois últimos quesitos, evolução e harmonia. Diz a lenda que foram penalizados por um enorme buraco provocado por um destaque que chegou atrasado e exigiu ser colocado em posição pelo Carvalhão, o sistema de elevador/guindaste, em vez de subir de escada. É a síndrome do ou da "quem", em excesso na agremiação.

A noite termina embalada pelas Ganhadeiras de Itapuã, interpretadas por Zé Paulo Sierra. Devagar, devagarinho, a escola deu uma pernada nas co-irmãs justamente nos quesitos finais, fluindo na Sapucaí abençoada por Oxum e a sereia de seu abre-alas. De alma lavada, seus componentes ensaboarão a Marques de Sapucaí em mais um enredo que fala de mulheres excepcionais. As que, com seu suor e cantando suas histórias, ganhavam dinheiro para libertar os escravos na Bahia.

Sem grandes patrocínios, o carnaval de 2020 chamou a atenção para diversas questões intimamente ligadas ao povo do samba. A intolerância religiosa, a violência, as necessidades populares, como habitação. Tudo isso coroado pela força das mulheres, as Elzas e Ganhadeiras de Itapuã que estão no meio de nós.

 *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval. Da série "É carnaval", do SEM FIM... delcueto.wordpress.com

 


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