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Cuiabá MT, Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ILUSTRADO
Quarta-feira, 01 de Julho de 2020, 05h:32

HQ

Coletânea mostra por que Will Eisner é mestre da HQ, mesmo longe do auge

Nova coleção de histórias do quadrinista americano, "O milagre da vida" reúne três narrativas já publicadas e uma inédita no Brasil

ERICO ASSIS
Da Agência Globo - Rio
Will Eisner

Will Eisner (1917-2005) foi, entre muitas coisas, professor. No sentido figurado, todo colega dos quadrinhos estudou e estuda suas páginas. No sentido literal, ele trabalhou anos diante do quadro negro. Suas aulas de HQ viraram os manuais “Quadrinhos & Arte sequencial” e “Narrativas gráficas”.

Nos livros, Eisner martelou a clareza narrativa. Traço, enquadramento, ângulos, tudo tem que telegrafar ao leitor, de relance, o que o personagem sente e a história pede. Entre os exemplos, há uma versão de Hamlet em que um hippie declama Shakespeare no alto de um prédio. Rosto e corpo do personagem se dobram, se amassam e se esticam para impactar cada fala.

Eisner nunca parou de ensinar. Na última fase da carreira, a partir dos anos 1970, quis ensinar que os quadrinhos podiam ter o mesmo prestígio da literatura. Com essa meta, produziu várias histórias “sérias”, fugindo dos super-heróis, da fantasia, da comédia e do teor infantil normalmente associado às HQs.

Ele aprendeu o ofício nos gibis de heróis. Seu “Spirit”, dos anos 1940, não deve nada ao bom quadrinho de ação de 2020. Quando se voltou para a HQ “séria” — as graphic novels, termo que ele mesmo proclamou —, continuou trabalhando com a expressividade e a extravagância do quadrinho de ação.

E às vezes, o choque entre a extravagância da ação e o “sério” do drama resultou em… pantomima. Um tom exagerado, operático, melodramático, rococó. É muito do que aparece em “O milagre da vida”, nova coleção de Eisner no Brasil.

O volume reúne três álbuns já publicados por aqui (“Vida em outro planeta” , “Assunto de família” e “Pequenos milagres”) e um inédito (“Sete histórias de cortiço”).

Na maior parte, a coleção traz contos morais ou, como Eisner chama, “meinsas” (corruptela do iídiche mayses: causos). Há contos sobre brigas de família, sorte e revés no amor ou nos negócios, o valor da abnegação e a tragédia do egoísmo. São parábolas do cotidiano. No caso, o do Brooklyn de meados do século passado, sua fictícia Avenida Dropsie.

 

 

 

Motes de telenovela

“O milagre da dignidade”, por exemplo, trata de um malandro que se aproveita do primo rico e ingênuo para subir na vida. Os anos passam, e o primo benemerente sofre enquanto o parente sanguessuga cresce. Ao fim, o aproveitador aprende uma lição.

Há também a trama da família gananciosa que espera a morte do patriarca rico. Trama que se repete, aliás: é o mote da longa “Assunto de família” e da curta “Um por do sol em Sunshine City”. Podiam ser mote de telenovela.

Os atores/personagens de Eisner fazem inclusive a ginástica facial e corporal de uma Adriana Esteves possuída por Carminha. Mães judias derramam lágrimas gordas quando os filhos vão casar. O homem franzino contorce o corpo para destrancar uma porta. A moça segura as bochechas com as duas mãos quando ouve uma surpresa.

No palco de Eisner, o ator tem que deixar a emoção clara para a última fileira do teatro. Não é lugar para ser sutil. É estética de quadrinho de ação — que fica pesada, barroca, quando se aplica ao drama pé-no-chão.

“Vida em outro planeta” destoa no volume. Não pelos trejeitos, que são os mesmos citados acima, mas pela trama: intriga internacional com um toque de ficção científica. Quando se ouve o primeiro sinal de vida extraterrestre, o mundo entra em convulsão geopolítica. Mas não se veem aliens nem astronautas: Eisner fica no fator humano.

“Outro planeta” foi um experimento narrativo que antecedeu em pelo menos uma década o resto do material de “O milagre da vida”. Eisner produziu o primeiro capítulo sem ideia de como seria o segundo, e assim por diante. Lembra aqueles filmes de desastre e grande elenco dos anos 1970 (“Aeroporto”, “Inferno na Torre”, “O destino do Poseidon”), com direito a nudez feminina gratuita — inclusive na capa.

O resultado é embaralhado. Há páginas brilhantes, em que Eisner improvisa como um jazzista — a do personagem comendo macarrão, a do assassinato do candidato a presidente —, mas a maioria é banal e incomumente verborrágica.

Prejudica também a opção de publicar a história em preto e branco. Colorida na publicação anterior no Brasil, “Outro planeta” tem páginas em que a narrativa ficava mais clara com as cores para diferenciar ambientes e personagens.

Outro porém editorial está nas derrapadas de revisão de texto (poucas, mas significativas em um volume “Biblioteca”) e a baixa qualidade de reprodução de “Pequenos Milagres”.

Mesmo que esteja longe do auge de Eisner — que você vai achar em “Nova York”, “O nome do jogo”, “O Edifício” e, claro, no “Spirit” —, “O milagre da vida” continua sendo uma aula. O olho desliza pelas curvas do traço e por páginas sem requadro com leitura claríssima. Mesmo no pior de Eisner, ainda se aprende muito.

 


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