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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020, 00h:00

MÚSICA-INFANTIL

"Arca de Noé", de Vinicius de Moraes, faz 40 anos

Clássico da música brasileira para crianças, "Arca de Noé" faz 40 anos

MARCELLA FRANCO
Da Folhapress - São Paulo
Vinicius de Moraes

Houve um tempo em que um poeta construiu um lugar seguro para todos os bichinhos do mundo. O poeta chamou este lugar de livro. O livro cresceu e, um dia, virou música. E os bichos todos ficaram morando para sempre em um disco, chamado "A Arca de Noé".

Noé é o nome do personagem bíblico que fez e conduziu a embarcação onde pares de todos os animais se abrigaram para se salvar de um dilúvio. E Vinicius de Moraes é o nome do artista que, há 40 anos, transformou essa história em um dos maiores marcos da música brasileira.

Desde o seu lançamento, com a versão musicada dos poemas que Vinicius escreveu nos anos 1950, o infantil "A Arca de Noé" nunca saiu dos aparelhos de som das famílias com crianças.

Quem era pequeno na época lembra de cor as canções e, hoje, apresenta o disco às novas gerações.

"Vinicius me incentivou a musicar poemas de seu livro. Foi ficando interessante, e partimos para fazer um disco, que alcançou um sucesso retumbante", lembra Toquinho.

Zuza Homem de Mello, jornalista especializado em música brasileira, define "A Arca de Noé" como um "superdisco, um marco na fonografia brasileira".

Assim como faz Toquinho, ele também credita boa parte do êxito à escolha dos intérpretes - o time conta, entre outros, com Elis Regina, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Milton Nascimento, Moraes Moreira, Walter Franco e Bebel Gilberto.

"Foi a primeira vez que participei de um projeto infantil, e cantei uma música chamada 'A Foca'", conta Alceu Valença. "Fiz um personagem inspirado no teatro de mamulengos, mas também com uma forte influência circense, dois elementos muito presentes na minha infância".

"Improvisei brincadeiras com o que seria a foca francesa, toda glamourosa, a americana, cheia de dólares, e a coitadinha da brasileira. A criançada adorava. Mas também havia uma crítica social oculta: a foca brasileira passava fome, não tinha sardinha para ela".

A designer editorial Paula Cortinovis, 39, lembra-se bem da canção. "Creio que foi meu primeiro contato com um viés político. Eu entendia que os norte-americanos eram muito ricos, e brasileiros passavam fome. Eu pensava sobre aquilo, fazia o link com as conversas que eu escutava entre os adultos", diz.

Paula é mãe de Stella, 7, que ouviu pela primeira vez "A Arca de Noé" quando ainda era bem pequena. O avô de Stella, empolgado com o nascimento da neta, gravou as músicas do antigo vinil em um CD.

"Ainda fez uma cópia digital da capa em tamanho menor", celebra Paula. Assinada por Elifas Andreato, a capa de "A Arca de Noé" trazia um atrativo inédito na história da MPB, como conta Zuza.

"Era um desenho com bonecos para recortar e colocar dentro da arca. A criançada mergulhou de cabeça. Uma capa absolutamente original, praticamente um álbum de figurinhas para o público infantil", diz.

Além de Andreato, outra figura que determinou a trajetória bem-sucedida do disco, na visão de Zuza, foi o produtor executivo Fernando Faro, morto em 2016. O jornalista explica que Faro direcionava muito bem as interpretações dos cantores para as exigências de um disco infantil.

Segundo Zuza, "mesmo cantores de grande personalidade acabaram concordando [com as orientações de Faro] e comprando a ideia". Um exemplo é Marina Lima, que assumiu os vocais de "O Gato".

"Lembro que foi uma alegria danada ter sido chamada para participar. O núcleo era a nata da MPB, foi incrível", recorda-se Marina. "A música do gato era ótima, dava para brincar imitando com a voz os pulos que os gatos dão, de lado, para cima, para baixo. Fiz isso e as crianças amaram".

Toquinho lembra também a história de outro hit, "Menininha".

"Foi inspirada numa garotinha de quatro aninhos, a Camilinha, que morava na casa onde ficamos hospedados em Mar Del Plata, em 1971. Ela era uma gracinha, sempre dançando para nós com leveza e ingenuidade".

"Vinicius resolveu fazer um poeminha como que recomendando que ela tivesse cuidado com tudo de ruim que a vida pode provocar, sugerindo que ela não crescesse", conta. "Nosso disco tem como principal característica a originalidade, que inclui a poesia justa para a compreensão da criança aliada à qualidade melódica, simples e agradável aos ouvidos, não só das crianças, mas dos adultos também".

"Como não amar Milton, Chico, Elis, Marina, Toquinho, Moraes e tantas vozes únicas da música brasileira em canções que marcaram a infância?", pergunta Aline Abe Pacini Matsumoto, 39, mãe de três filhas e grávida da quarta.

Desde que a mais velha, Letícia, nasceu, "A Arca de Noé" toca com frequência na casa da família. "Vira e mexe a gente busca registros na internet, filmagens da época", completa a mãe, seguida por Paola, 10: "Eu gosto muito das músicas. São engraçadas." 


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