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Sábado, 29 de Fevereiro de 2020, 18h:14

MITSUO

Ex-sucessor de Sócrates vira administrador de fortunas de jogadores

ALEX SABINO
Da Folhapress – SãoPaulo

O atacante brasileiro Mitsuo Alves desembarcou em Atenas no verão de 1991 porque tinha proposta do Athinaikos, do futebol grego. Encontrou no aeroporto o empresário Spiros Karagiorgis com expressão desolada.

O clube havia decidido contratar outro estrangeiro, numa época em que cada equipe podia ter apenas dois atletas de outros países. Alves teria de procurar outro destino.

Era mais uma frustração na carreira do jogador que pulava de clube em clube, imaginando que poderia ter sido um craque e tentando esconder das equipes que não tinha os ligamentos do joelho direito.

Sem alternativa, Mitsuo passou uma semana na Grécia na companhia de Karagiorgis, ligado a Bernard Tapie, ex-presidente do Olympique de Marselha, acusado de comprar resultados para o clube no final nas décadas de 1980 e 1990.

"No dia em que você parar de jogar, venha trabalhar comigo", disse-lhe o grego.

Começava a morrer ali o Mitsuo Alves atleta profissional. Nascia o Mitsuo Alves administrador de fortunas de jogadores. Hoje são 60 clientes. Seis meses depois do aviso de Karagiorgis, ele desistiu do futebol. Estava com 27 anos.

"Spiros me perguntou o que os jogadores brasileiros faziam com dinheiro. Disse que gastavam. Contei que eu investia em obrigações do tesouro e ações em uma corretora francesa. Ele ficou assustado e começou a perguntar se eu sabia o que era uma opção, câmbio e outras coisas. Eu sabia tudo. Meu pai trabalhava no mercado financeiro", explica Mitsuo, hoje com 55 anos.

Quando deu a notícia aos amigos que iria parar de jogar, ninguém entendeu.

"Não queria mais continuar no mundo da bola. Era muito sofrido. Machuquei o joelho quatro vezes e todo final de ano tinha de lutar para conseguir clube. Se eu tivesse de ser um craque, já teria sido."

Mitsuo trocou o futebol por jornadas de 16 horas. Era ouvinte em curso de economia na Universidade de Genebra. Depois ia para o escritório de Karagiorgis. À noite, trabalhava em um bar para completar a renda. Morou 25 anos na Suíça e hoje vive nas Bahamas.

Ele desanda a contar histórias de jogadores com os quais trabalha ou trabalhou. Algumas são impublicáveis. Entre os nomes que permite citar como seus clientes estão Dudu, atacante do Palmeiras, Rivaldo, ex-jogador campeão do mundo em 2002, e Renato Gaúcho, técnico do Grêmio.

O que o empresário grego viu nele foi oportunidade única. Um boleiro que entendia de finanças, bom de conversa e com excelentes contatos. O maior patrimônio do brasileiro passou a ter foi sua agenda telefônica. Fazia networking antes da palavra existir.

A carreira de Mitsuo prometia muito. Depois de passar pela base de Corinthians e São Paulo foi contratado em 1982, aos 18 anos, pelo Flamengo por 3 milhões de cruzeiros (R$ 195 mil em valores atuais) em um tempo em que atletas amadores não eram comprados por outras equipes.

A transferência não foi boa no futebol. Ele não jogou porque aquele era o Flamengo do elenco campeão mundial de 1981. Mas lhe foi útil para montar a agenda de contatos.

Há gente daquela equipe que ainda têm o dinheiro administrado por ele. Treinou também com a seleção brasileira sub-20 que venceria a Copa do México de 1983. Foi ali que conheceu Dunga.

Mitsuo voltou para o Corinthians em 1984 para fazer parte do grupo que ainda tinha Sócrates. Alto e barbudo, lembrava o capitão do time na aparência física e chegou a ser apontado como possível sucessor do camisa 8.

Emprestado ao Rio Preto, rompeu o ligamento cruzado do joelho e passou o resto da carreira na musculação para fortalecer a articulação e esconder dos médicos seu histórico de lesões. Se fizesse muito exercício, conseguia suportar os 90 minutos.

Por causa do atacante Gaúcho, ex-Palmeiras e Flamengo, seu grande amigo, morto em 2016, conheceu o agente que o levaria para a França em 1989. "Quando estava no Caen [time francês], ajudava outros jogadores a abrir conta no banco, traduzir o que estava escrito. Isso me deu experiência para saber o que fazia."

Ele usou a Suíça como base para viajar pela Europa para conversar com jogadores.

"Ia para Roma ver o Aldair, tinha o Dunga na Fiorentina, Careca no Napoli. Já era amigo do Valdo e do Ricardo Gomes,do Benfica. Eu ia falar com os caras. Perguntava o que faziam com o dinheiro. Como eu sabia que jogador de futebol não é guardador, falava para aplicarem comigo", diz.

Mesmo quando ainda aprendia o que fazer com os recursos dos outros, Mitsuo tinha o mais importante: clientes. Ele era administrador de fortunas sem a fortuna. Mas com a capacidade de atrair cobiçados jogadores brasileiros.

É trabalho sigiloso por entrar na intimidade do jogador. Mitsuo precisa saber onde ele gasta o dinheiro, quanto tem na conta bancária, o salário. Assim pode projetar o futuro. É preciso conversar com a família. A negociação pode ficar feia porque significa fechar torneiras de dinheiro usadas por agregados do atleta.

Ele conta que a mulher de um então cliente o chamou e pediu para ter uma conta separada do marido, atacante famoso. Ela continuou cliente de Matsuo por anos. O boleiro gastou US$ 1,5 milhão em um ano (R$ 6 milhões) e torrou boa parte do que tinha.

Outro atacante tinha empresário que comprou uma casa, no nome do jogador, em que a prestação era maior que o salário recebido por ele.

A pergunta é inevitável: qual é o investimento que tem feito, em nome dos atletas?

"No Brasil, títulos do governo. Claro que temos nossos próprios produtos e conseguimos turbinar os rendimentos", se limita a responder.

Não é conversa confortável para quem quer fazer o cliente não gastar dinheiro, mas guardar. "Jogador de futebol não investe. Só guarda e às vezes. Deveria ser investidor." 


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