Massacres marcaram primeiros contatos

Todo Brasil comemora 500 Anos - ou protesta - e Mato Grosso tem bons motivos para estar inserido neste contexto, apesar dos registros históricos indicarem que a chegada dos europeus a este território que hoje é o Estado só tenha se dado em 1709.

A pesquisadora Thereza Martha Pressotti lembra que a região central da América do Sul, incluindo Rondônia e Mato Grosso do Sul, era um local privilegiado em termos de diversidade cultural, por ser confluência de vários grupos indígenas: guarani, tupi e paiaguá (que vinham do Paraguai).

Um dos grandes problemas que os historiadores enfrentam para rever como se deu o encontro de europeus e índios está no pouco material existente. “Eles não tinham o hábito de fazer registros escritos dos fatos”, comenta Martha.

Além disso, os poucos documentos feitos a partir do contato são unilaterais: contam a versão dos colonizadores. Entre os índios, como a tradição era exclusivamente oral, muito do que aconteceu foi-se perdendo com o tempo.

O cronista José Barbosa de Sá, em 1775, a partir de relatos de sertanistas, fala entre outras coisas que era impossível quantificar o número de índios desta região da América.

“Os grupos não cabiam nos arquivos da memória”, lembra a pesquisadora. O sertanista Antônio Pires de Campos, quando fala dos parecis, afirma que não era possível contar a quantidade de índios por “se perder o algarismo”. Em cada dia de nova caminhada, Pires passava por aldeias com até 30 casas, onde viviam pelo menos 600 pessoas. “Era um reino amplíssimo, da qual não se via o fim”, aponta.

Apesar das dificuldades, que remontam a um quebra-cabeças, os historiadores conseguem desenhar um quadro de massacre nos contatos entre índios e colonizadores.

Na Guerra dos Paiaguás, em 1706, mais de 600 índios foram mortos. Tiveram as cabeças decepadas e penduradas em estacas, para que fossem considerados um exemplo. “Este é um fato que está registrado: a guerra foi considerada justa, e tinha a permissão do rei. Os donos de engenhos e colonos colaboravam com recursos. Tudo por que os índios não queriam aceitar a catequese cristã”, descreve.

Nesta guerra, “ao lado de Portugal”, estavam os bororos. “Não foram manipulados. A guerra era de interesse deles”, comenta a professora. Os paiaguás estavam, na época, deixando gradativamente a Bacia do Prata. Hoje os paiaguás estão extintos. “Os poucos sobreviventes morreram de tanto beber. O alcoolismo também foi uma arma usada naquela época pelos colonizadores. Os índios perdiam a força”, descreve Martha.

“A pressão aqui, na região central, veio de todos os lados: de São Paulo e do Sul”, descreve a pesquisadora. “Todo mundo pensa que, naquela época os índios estavam congelados no tempo, mas eles se movimentavam. Travavam guerras entre si. O caminho do Prata, por exemplo, foi indicado pelos próprios tupis”, descreve Martha.

RESISTÊNCIA - Assim como passavam por mudanças na época dos contatos, os índios continuam em movimentos de ebulição. “Todos nós estamos incorporando novos elementos”, acredita a pesquisadora. Desta forma, qualquer atitude que não represente o estabelecimento de relações diplomáticas com os índios é errada, na opinião da professora. “A gente fica querendo que o índio fique parado, mantendo sua cultura. Isso, a gente não faz nem pra nós”, critica. Martha também acredita que os índios precisam rever suas atitudes em relação ao meio ambiente. “A qualidade de vida nas aldeias é cada vez mais precária. As reservas precisam de manejo”, sugere. (JPL)




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