Filha do zelador do Dutrinha, Nhá Barbina tomou gosto pelo futebol

Da Reportagem



Parede sem reboque. Móveis escassos. Saudades fixadas na parede da sala, na forma de quadros fotográficos. Simplicidade que vem de um sorriso cor-de-cajú. Mesma coloração dos cabelos que completam 80 anos em agosto. O apelido desta menina é Nhá Barbina. O nome, Maria Zeferina da Silva. Uma filha, um filho e um esposo que lhe acompanham em todos os passeios.

Profissão registrada na carteira de trabalho: feirante. A grande paixão, existente há mais de 50 anos, é o Mixto Esporte Clube. A sina divina: ser torcedora-símbolo do time de futebol mais lembrado de Cuiabá (pelos elogios, palavrões, lembranças e esperanças).

Nas fotografias, as saudosas formações da equipe. Com direito ao centroavante Bife e ao endiabrado ponta-direita Pelezinho. Ela aponta com os dedos lépidos e marcados pelo tempo cada uma das figuras. Lembrar quem são é um pouco mais difícil. “Era bom demais. O Mixto tá no meu coração”. Depois das palavras, dá-lhe gargalhada.

Nhá Barbina conta que o amor pelo time veio um pouco após a paixão pelo futebol. Ela passou a visitar os campos antes dos 18. O pai, Ângelo Carlos da Silva (que Deus o tenha no céu, lembra a filha), era zelador do Dutrinha. “Eu ia, mas não gostava tanto”. Ela também dava uma espiadela no campo do Liceu Cuiabano. Na época, torcia para o Atlético Mato-grossense.

“Eu ‘garrei’ a torcer mesmo pro Mixto por causa do frei Quirino”. Ela diz que topou vender ingressos para uma partida em prol da vida religiosa do nobre homem. Fez o serviço com tanto gosto que se envolveu. “Daí em diante eu comecei a ir direto pro estádio. Daí a mulherada veio atrás de mim”.

Nhá Barbina menciona que não se importava em ficar no meio dos marmanjões. “E era uma guerra de porcaria. Urina, água, sujeira”, complementa e torna a gargalhar. Ela não se esquece da vez que foi a São Januário e viu o seu Mixto ser desclassificado. “Foi culpa do Pastoril, que errou o pênalti”. Ela conta outro causo.

“Teve uma vez que eu bebi cerveja. Fiquei tonta e fui parar na outra torcida. Quando sentei, senti uma bordoada nas costas. Levantei ligeiro e bati com o mastro na cabeça do rapaz. Sangrou. Daí chegou a polícia e me levou pro lado da torcida do Mixto”.

O apelido, revela, veio de um sargento do exército que torcia para o Operário Varzea-grandense. Ele e toda a torcida adversária se irritavam com os gritos desmesurados da concorrente. Resolveram dar-lhe o nome de uma mulher destrambelhada, personagem da novela “As Pupilas do Senhor Reitor”. Hoje em dia a torcedora-símbolo do Mixto não vai mais ao estádio. “Não tem o que ver. Tá feio demais”. (GL)




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