ESPORTISTA - Jorilda Sabino, a “Cinderela Negra”, sente saudades


O Brasil inteiro não acreditou quando viu a garota franzina, pés descalços, enfrentar os 11 quilômetros da Corrida de São Silvestre, em São Paulo. Em pleno reveillon de 1986, ela desafiou o asfalto e a lógica e, tremendo o absurdo, manteve-se entre o grupo de elite até o final consagrador e o vice-campeonato.

No dia seguinte, os jornais estampavam a foto da “Cinderela Negra”, uma menina pobre de apenas 15 anos que veio de Mato Grosso para gravar seu nome na história do atletismo brasileiro e no coração da torcida cuiabana: Jorilda Sabino.

Muitas outras competições iriam confirmar seu talento. Ao todo, foram 10 anos de uma carreira vitoriosa que a levaria a competir em países como Japão, Coréia, África do Sul e Venezuela.

Afastada das pistas desde 1996, Jorilda, hoje com 30 anos, foi localizada pela reportagem em Corumbá (MS), para onde se mudou há menos de três meses. Com voz de menina, ela recebeu com surpresa o resultado da pesquisa UP – Unidade de Pesquisa, na qual foi escolhida por 36,4% dos entrevistados como a esportista que é a “cara” de Cuiabá.

“Estou muito gratificada. Todo mundo diz que o brasileiro tem memória curta, mas parece que isto não é verdade no meu caso”, disse, por telefone.

O resultado é ainda mais significativo se considerarmos que Jorilda concorreu com grandes nomes do futebol mato-grossense. Willian, ex-Vasco da Gama, Bife, ídolo do Operário várzea-grandense, e o meio-campista Beto, jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira, foram ultrapassados por Jorilda como nos tempos da São Silvestre.

Paranaense de Umuarama, Jorilda veio para Cuiabá com menos de um ano. Aqui enfrentou uma infância pobre nas ruas do bairro Pedregal, onde corria e brincava sempre descalça. Vem daí sua performance nas pistas.

“Apesar de eu ter corrido descalça só uma vez, aquilo acabou sendo minha marca registrada”, lembra a atleta. “É que fui criada em bairro, brincava na rua, jogava futebol, e era muito natural fazer aquilo. Em Cuiabá mesmo, ninguém reparava, mas, para o eixo Rio-São Paulo, aquilo foi um assombro”.

No começo, conta Jorilda, o atletismo era apenas uma forma de ocupar suas tardes. “Começamos a treinar por diversão, mas depois o atletismo começa a apaixonar. Não consegui mais abandonar. Eu tive sorte porque, seis meses depois, eu já comecei a vencer competições”.

Dessa forma, Jorilda começou a virar o jogo em seu favor. Ela conta que até mesmo seus estudos foram obtidos correndo. “O atletismo me deu tudo o que tenho. Nem sei o que seria hoje se não fosse atleta. Ganhei prêmios, bolsa de estudos, conheci outras culturas. E também foi no atletismo que conheci meu marido”.

Quando uma tendinite a tirou das competições, Jorilda chegou a ficar deprimida por alguns meses – “foi uma fase difícil”, lembra. Hoje, com duas filhas de 8 e 11 anos que preferem nadar a correr, Jorilda chega aos 30 anos com tranqüilidade.

“Tenho lembranças boas daquele tempo, mas hoje tenho minha vida, meu marido e filhos. Tenho outras perspectivas”, esclarece. “Eu poderia até voltar a treinar, mas o acúmulo de exercício certamente traria a contusão de volta. Acho que este foi um período muito bom na minha vida, em que tive mais vitórias que derrotas, mas que passou”.

Difícil de aceitar mesmo é a mudança para Corumbá. “Ainda não me adaptei. Sinto falta dos amigos, da família e do carinho do povo cuiabano, que sempre me tratou como a uma filha. Espero voltar um dia”.




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