SANTO DE DEVOÇÃO - São Benedito, o protetor da cidade


Cultuado especialmente por pobres, negros, doentes e desempregados, São Benedito é o santo que superlota a igreja antes do dia amanhecer. Todas as terças-feiras centenas de idosos, jovens e até crianças acordam às 4h30 para ir ao santuário agradecer ou pedir alguma graça ao santo negro mais popular de Cuiabá.

São Benedito não é o padroeiro de Cuiabá - essa função há décadas foi atribuída ao Senhor Divino -, mas “carrega nos ombros” o peso do título de “protetor da cidade”.

Não há registro documental, mas uma pesquisa recente feita pelo devoto e coordenador das atividades paroquiais da igreja, Lucilo Libânio de Sousa, “Nonô”, mostra que em 1.721 São Benedito já era cultuado em Cuiabá. Inicialmente apenas pelos negros, através de uma imagem que pode ter vindo da Bahia décadas depois de chegar de Portugal.

A primeira igreja a abrigar a imagem do santo ficava na rua Pedro Celestino (na época, rua do Sebo) e foi construída entre 1.722 e 1.735, onde permaneceu por menos de 10 anos. A antiga igreja desabou devido a precariedade da construção.

No alto do morro onde antes ficava as “minas do Cuiabá” foi edificada a igreja onde até hoje são celebradas as missas e festas. Numa capela anexa foi criada a “sala dos milagres”, onde os devotos deixam as provas das graças alcançadas pela fé ao santo, que pode variar de fotografia a próteses de braços e pernas.

Mas é ao lado do altar do salão principal que está a maior relíquia da comunidade paroquial. Uma partícula da pele de São Benedito, trazida de Roma (Itália) em 1983, que fica guardada no relicário. No período da festa que homenageia o santo ou extraordinariamente, por decisão do pároco, a relíquia é exposta aos devotos.

No largo da igreja, ao invés do cruzeiro, como acontece na maioria dos templos católicos, fica uma imagem gigante de São Benedito, com dois metros de altura. A atual foi esculpida em argila, mas a antiga, que lá ficou por 20 anos, era em madeira maciça.

SOFRIMENTO – São Benedito nasceu em cinco de outubro de 1524, no vilarejo de São Filadelfo, região da Sicília, sul da Itália. Era filho de Cristóvão Manasseri e Diana Larcan, casal de descendentes de escravos da Etiópia. Muito pobre, ainda criança foi trabalhar com o pai como pastor de ovelhas. Devoto de São Francisco, o menino pobre tinha o hábito de rezar enquanto olhava as ovelhas pastando.

Ainda adolescente, ouviu o chamado de Deus numa frase que dizia: “Venda tudo que tem ou doe aos pobres e siga-me”. Ingressou na vida dos Irmãos Eremitas Franciscanos, uma congregação que unia solidão e extrema pobreza. Aos 38 anos, já como Frei Benedito, partiu para o convento de Santa Maria de Jesus, em Palermo (Itália).

No convento, seu primeiro ofício foi de cozinheiro. Em pouco tempo transformou o espaço da cozinha em santuário de oração. Anos depois tornou-se superior do convento e modelo de devoção na comunidade. Apesar de analfabeto, dava lições aos mais ilustres teólogos e era procurado por muitos para esclarecer textos das escrituras sagradas.

Toda sua dedicação e inteligência, porém, não o livraram do preconceito, até por parte de religiosos, pelo fato ser negro. Uniu-se a outros religiosos negros e juntos criaram a Confraria dos Negros Escravos, entidade que durante décadas lutou contra o escravismo.

Morreu em 4 de abril de 1589, às 19h, em Palermo, na Itália. Em 1.763 foi beatificado pelo papa Clemente XIII, sendo canonizado em 25 de maio de 1807, durante a festa da Santíssima Trindade, pelo papa Pio VII.




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